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109ª Leva - 03/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

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Arte: Helena Barbagelata

Anda nas bocas ultimamente a palavra democracia. E ficamos a refletir em que medida o exercício da liberdade de pensamento encontra real abrigo nesse estado de coisas. Nossas mazelas são históricas e remontam à origem da nação? Está tudo tão definitivamente entranhado em nossas práticas cotidianas a ponto de ser difícil extirpar os equívocos? Afinal, temos verdadeiramente um rosto? São indagações que permeiam o momento presente da nossa conturbada nação de proporções continentais. Embora um sistema democrático não esteja livre de falhas e imperfeições, ele ainda parece um caminho bastante razoável no que se refere ao perseguido equilíbrio entre direitos e deveres. Nesse ambiente, a não uniformidade das posições é um elemento que impulsiona o funcionamento das relações. O antagonismo de opiniões é necessário na medida em que nos auxilia na busca pela afirmação de uma identidade. Do mesmo modo, determinismos em nada parecem contribuir para a evolução de uma dada sociedade. Nada é absoluto, nem mesmo os tão consagrados direitos que se pretendem fundamentais. Do convívio com nossos pares é que se materializa a necessidade dos equilíbrios. É quando as diferenças afloram e só são realmente valiosas se aproveitadas num sadio debate de ideias. Eis o melhor combate: o das palavras. No território das ações culturais, pensar diferente também encerra sua devida contribuição. Vejamos, pois, quantas são as mais diversificadas acepções de conteúdos. Seja na literatura e nas artes em geral, criadores e receptores podem se entender mesmo quando adotem modos opostos de vivência das obras. E é justamente essa não conformidade que faz com que as experiências tidas, a partir das searas culturais, sejam tão importantes. No seu ideal de diversidade, nossa revista sempre procurou, dentro da percepção de critérios de qualidade, conceder espaço às mais distintas e variadas vozes. O resultado é notadamente significativo, tendo em vista que hoje agregamos um vivo coletivo de expressões. Tudo isso posto, os caminhos editoriais aqui continuam a perseguir a pluralidade. Assim sendo, vêm à baila as intervenções poéticas de José Carlos Brandão, Adriana Versiani, Yasmin Nigri, Rodrigo Melo e Patrícia Laura. Expondo um pouco de sua trajetória entre a prosa e a poesia, o escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues é nosso atual entrevistado. Renato Tardivo escreve sobre o novo livro de poemas de Valerio OliveiraLarissa Mendes traz até nós o resultado das escutas do mais recente disco de Clarice Falcão. Nas alamedas da prosa, estão os contos de Tom Correia, Priscila Merizzio e Herculano Neto. Para falar sobre a mais nova investida cinematográfica do diretor Quentin Tarantino, o filme “Os Oito Odiados”, Guilherme Preger divide conosco sua aprofundada análise. É o texto de Sérgio Tavares quem nos apresenta o romance de estreia de Caco Ishak. E em meio a tantas rotas por aqui agora apresentadas, a arte da portuguesa Helena Barbagelata harmoniza espaços feitos de realidade e imaginação. Por tudo isso, vale a pena lutar. O ambiente democrático que se deseja no prisma cultural é todo aquele universo no qual faça morada a multiplicidade de epifanias. Feita especialmente para você, caro (a) leitor (a), eis a 109ª Leva!

 

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109ª Leva - 03/2016 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

CLARICE FALCÃO – PROBLEMA MEU

 

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Entre malas, gavetas e arquivos, eis que surge uma monocromática Clarice Falcão anunciando que a bagunça organizada da capa de seu novo álbum, Problema Meu (2016), não leva este nome por acaso. Neste cerne de fofura esquematizada, foi necessário que a multifacetada artista abrisse mão do coletivo Porta dos Fundos para dedicar-se exclusivamente à carreira musical. Lançado em fevereiro e produzido pelo festejado Kassin, as 14 faixas de Problema Meu orbitam entre o [des]amor (coincidentemente o romance com Gregório Duvivier chegou ao fim em 2014) e seus derivados, mantendo composições autorais em pequenas construções narrativas que consagraram a cantora em seu álbum de estreia, Monomania (2013). Porém, voz e violão (e ukulele) – sua marca registrada – dão vazão a flertes com outras sonoridades, entre guitarras, sopros e percussões.

O single Irônico (eu gosto de você como quem gosta de um vídeo do YouTube de alguém cantando mal/eu gosto de você como quem gosta de uma celebridade B) abre o álbum em tom carnavalesco de bandinha marcial – como o próprio videoclipe sugere – e ridiculariza o verbo gostar. Se o pop Eu Escolhi Você (eu escolhi você porque/não tinha tanta gente pra ser meu, vê só/que sorte você deu) aponta escassas opções de amor, o rock candidato a hit A Volta do Mecenas (onde foi aquele moço bom da renascença/pai gentil das fábulas, romances e poemas?), composição de Matheus Torreão, clama pelo príncipe encantado a nós prometidas, numa das mais contagiantes faixas do disco. A juvenil Deve Ter Sido Eu (eu já não amo mais você/mas eu ainda odeio essa menina) beira o humor negro e narra o ódio nutrido e as vinganças arquitetadas em pensamento contra a “atual do ex”. Enquanto a verídica Marta – conversa imaginária com a dona de um telefone de número similarmais parece uma esquete do Porta dos Fundos, a melancólica Se Esse Bar Fechar, ainda da safra de Monomania, relata a espera por alguém que não apareceu (impossível não relacionar com O Que Eu Bebi, faixa do álbum anterior). Na sequência, Eu Sou Problema Meu (quando eu disse sim aquela hora/eu disse sim aquela hora/eu não disse sim por toda a eternidade) encerra o primeiro bloco de canções enfatizando que ninguém é propriedade privada.

 

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Clarice Falcão / Foto: divulgação

 

Àqueles que reclamaram a ausência do cover de Survivor clássico do Destiny’s Child que defende os direitos da mulher lançada no canal de Clarice no YouTube, eis a sua redenção: L’amour Toujours (I’ll Fly With You), sucesso nas pistas no início do milênio, entoada pelo DJ italiano Gigi D’Agostino, surge deliciosamente irreconhecível na versão acústica da cantora. Na sequência, a fatídica disco Como É Que Eu Vou Dizer Que Acabou? destaca a dificuldade de se colocar um ponto final em uma relação amorosa e os rodeios que fazemos a nós mesmos. Enquanto Duet é uma bossa nova composta em inglês que supostamente deveria ser um dueto, porém a segunda voz abandonou a gravação –, Banho de Piscina é uma canção brega composta antigamente por seu pai, o dramaturgo João Falcão, e lembra Zéu Britto em Soraya Queimada. Vinheta (eu checo as mensagens sete, oito, vinte vezes/só passou cinco minutos/eu senti passar três meses), faixa de pouco mais de um minuto, revela a agonia das respostas que não chegam para desaguar na feminista Vagabunda (toma um chopp comigo, vagabunda/que eu sei a vagabunda que eu sou/repara que conexão profunda/de ter compartilhado um mesmo amor). O folk autodepreciativo Clarice (Clarice sempre os mesmos três acordes/olha um si bemol não morde/não precisa poupar dedo) encerra a obra e zomba de suas próprias limitações sonoras.

Em Problema Meu, Clarice mantém a simplicidade em suas composições, porém os arranjos vestem alta costura (mérito ao estilista sonoro Kassin). As letras românticas de outrora dão vazão a versos espirituosos e jocosos (quiçá, rancorosos). Mais ou menos o que fazemos quando amadurecemos e olhamos para trás, satirizando nossa própria [falta de] sorte. Definitivamente a menina Falcão cresceu e passou com desenvoltura pela sempre temida síndrome do segundo álbum. Sem perder a ternura dos seus 26 anos jamais.

 

Larissa Mendes, meio Falcão, meio Lispector.

 

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106ª Leva - 09/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

Mais uma etapa de encontros consolida-se na Diversos Afins. Nossa missão editorial ganha corpo na medida em que conseguimos expandir as fronteiras do diálogo. Atrair pessoas e fazê-las expressarem as suas epifanias pessoais é algo relevante. Cada colaborador que se une ao nosso projeto ajuda a compor um vasto e incessante mosaico de sensações. Nada é linear. Se somos seres distintos, carregando uma determinada marca de individualidade, é porque no somatório das ações não damos crédito à conformidade das coisas. A concordância plena não passa de um devaneio sem forças para seguir adiante. É na multiplicidade do pensamento que tudo ganha mais vigoroso sentido. Quão fabulosa é a literatura na medida em que consegue fazer desfilar tantas mentes de características diferentes. Ao fim, o que cada autor vem apresentar aqui na revista é a sua capacidade única de vislumbrar a existência.  Por vezes, quantos de nós não explicitamos o desejo de construir uma obra semelhante a de alguém? No entanto, essa vontade, movida por um sentimento de identificação, mais uma vez reafirma o poder da diferenciação entre as pessoas. Definitivamente, nenhum criador é igual ao outro. Daí, a grandeza da arte sob os seus mais variados aspectos. Hoje, com a participação valiosa de escritores e artistas, completamos 106 investidas à frente da revista. Importa saber que há o eco singular da voz de poetas do quilate de Rita Medusa, Airton Souza, Roberta Tostes Daniel, Ana Peluso e André Rosa. Vale a pena contemplar as sutilezas humanas expostas no trabalho da fotógrafa Sinisia Coni. É recompensador ouvirmos o que tem a dizer o nosso entrevistado de então, o experiente músico Sabará, baterista, professor e verdadeiro símbolo da cultura baiana há mais de meio século. No quesito prosa, Vanessa Maranha, Caio Russo, Aden Leonardo e Geraldo Lima vêm fazer do mundo um observatório de ideias e outros tantos contextos. É Guilherme Preger quem nos chama atenção para a elaboração do filme “Táxi Teerã”, nova produção do diretor iraniano Jafar Panahi. Larissa Mendes destaca a marca das sonoridades de “Júpiter”, mais recente disco do cantor e compositor SILVA. “O beijo na parede”, romance de Jeferson Tenório, é cuidadosamente sondado pelo olhar apurado de Sérgio Tavares. No âmago de cada imagem ou palavra que compõe a nossa mais nova Leva, a vida assume contornos próprios. A vocês, caros leitores, ofertamos mais um experimentar de sensações. Boas leituras!

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106ª Leva - 09/2015 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – JÚPITER

 

Silva - Capa

 

Se em Claridão (2012) eu já afirmava que o capixaba Lúcio da Silva Souza não pretendia soar elitista, apesar de sua formação erudita, é em seu terceiro álbum, Júpiter, que minha “profecia” se confirma. Lançado no Dia da Consciência Negra (20 de novembro), novamente pelo selo SLAP (Som Livre), SILVA recolhe seus sintetizadores, despe-se de preconceitos e apresenta um “planeta” pop e acessível a todos seus habitantes. Algo até certo ponto esperado depois de seu flerte com Lulu Santos & Don L (pseudônimo do rapper Gabriel Linhares Rocha) na canção Noite, já com alguns lampejos espaciais, lançada no primeiro semestre. Nas 11 faixas, todas assinadas por SILVA e pelo irmão Lucas, exceto a regravação de Marina, o músico gravita mais romântico do que nunca, versando sobre o amor e seus contratempos, porém não teme em explorar/conquistar novos ritmos e públicos. Concebido na estrada, durante a turnê de Vista Pro Mar (2014), entre voos e quartos de hotéis, o artista revela-se minimalista e atual, como confessa em carta divulgada em sua página do Facebook.

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SILVA em performance do clipe Eu Sempre Quis, primeiro single de Júpiter / Foto: divulgação.

Júpiter (Júpiter pode ser começar de novo/se por lá não houver esse mesmo povo /que só quer controlar o que a gente quer/e o que a gente só quer/é amar), faixa-título, convida o ouvinte a fugir para o maior planeta do Sistema Solar, talvez numa alusão à mudança sonora que o álbum se propõe. A faixa conselheiro-amorosa Sufoco (ninguém é de ninguém/pare pra pensar/o amor pra existir têm que respirar) adverte que é uma canção sobre desapego e não sobre desamor. Eu Sempre Quis (querer não é amar/mas é sempre um bom começo/amor, eu sempre quis/desde quando te conheço) – primeiro single lançado é uma balada tão envolvente quanto a malemolência de SILVA e sua dancinha no videoclipe da canção. Feliz e Ponto surge com um suingue provavelmente herdado da viagem do músico à Luanda (que rendeu o clipe de Volta, canção de Vista Pro Mar e um curta-metragem denominado Angola, narrado pelo artista e voltado ao ritmo kuduro). Io, espécie de vinheta instrumental do álbum, confirma todo o fascínio de SILVA pela música clássica.

O segundo bloco do álbum tem início com as reflexivas Sou Desse Jeito (um dia eu percebi que era o meu jeito/tão diferente assim do seu conceito/é o que existe em mim/não é defeito) e Nas Horas (a gente faz tudo ser real/você e eu noite a clarear/há quem duvide do verbo amar/eu já rezo o verbo todo). Na sequência, Se Ela Volta (se o nosso amor foi mais que amizade/vou te ouvir abrir o portão), talvez seja interpretada como a continuação da letra de Janeiro, canção do álbum anterior que abordava o amor platônico entre amigos. Um dos pontos altos do disco fica a cargo de Marina, regravação do clássico samba-canção de 1947, de Dorival Caymmi, que ganha uma roupagem eletrônica, refletindo o SILVA que conquistou a todos em Claridão. A sensual Deixa Eu Te Falar (eu tenho tanta coisa pra dizer/habitar você/é meu plano A) dá a deixa para Notícias (eu vou seguir pra onde houver ar puro/junto de uma gente que quer encontrar/algum lugar, um rumo/se eu ficar aqui eu vou desatinar), que encerra a obra em ritmo cadenciado de secretas boas novas (quando eu chegar/não vou mandar notícias).

Em seus 36 minutos de execução, Júpiter surge como uma obra minimalista, visceral e libertadora, onde o multi-instrumentista supera a timidez e dá vazão a toda sua verve de intérprete, algo também evidenciado na série de shows intitulados “SILVA canta Marisa Monte”. Misturando pop, eletrônico, MPB e R&B, SILVA mostra sua maturidade simplificando arranjos e samples e versando sobre o amor e suas agruras sem soar piegas. E como enfatiza a mesma carta publicada no Facebook, Júpiter, “trata-se não de um espaço, lugar ou planeta definido, e sim uma alegoria: é um lugar onde o amor tem a possibilidade de vencer, sem adiamentos ou desculpas”. Boa viagem a todos nós.

 

 

 

Larissa Mendes é sagitariana, também regida por Júpiter.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Juca
Arte: Juca Oliveira

 

O que seria uma atitude poética diante da vida? Idealizar o inatingível? Mensurar o insondável? Penetrar em zonas desconhecidas ou ignoradas? Estas são algumas indagações que podemos entabular. Certamente, estamos a falar muito mais num estado de coisas, quiçá de espírito, a nortear as ações em matéria de criação e recepção. É um ser poético não somente quem cria sob tal égide, mas todo aquele que abre seus canais de acolhida e mergulha nos signos que lhe são apresentados. Então, muda-se a perspectiva das coisas e confere-se um lugar de destaque também para quem tão somente consome os feitos culturais. No caso da literatura, é o leitor um ser especial na medida em que confere sentido ao que lê, estabelecendo uma tácita relação com quem cria. Também o é no caso de outras tantas manifestações artísticas. Admite-se, por parte do receptor, um caráter de expansão duma determinada obra sem que isso represente algo desgovernado e, portanto, sem controle. Como advertem alguns, uma obra pode ser aberta, porém não escancarada. Afora qualquer discussão sobre o tema, importa mais saber do interesse das pessoas pelos percursos criativos das mais diversas ordens. É saber que, em seu íntimo, todas elas são capazes de vislumbrar caminhos até mesmo impensados pelos próprios autores. Olhando por esse viés, o maior sentido da arte seria o de promover uma libertação que surtisse efeito para todos os lados envolvidos? Responda quem puder. O fato é que hoje somos livres para acolhermos os ímpetos poéticos de gente como Germano Xavier, Camila Passatuto, George Pellegrini, Monica Marques e Jorge Elias Neto, todos eles com seus versos a descortinar janelas de vida ante nossos sentidos. No universo que sonda as motivações literárias e artísticas, o escritor e multifacetado artista W. J. Solha fala sobre o seu mais recente livro e toda uma gama de assuntos que remonta ao ato inquieto que é o estar no mundo.  Gustavo Rios elenca boas razões para a leitura de “Fernanflor”, romance de Sidney Rocha. Quando o assunto é cinema, Larissa Mendes destaca a produção norte-americana “Eu, Você e a Garota que Vai Morrer”. Nos cadernos de prosa, os contos de Dheyne de Souza, Krishnamurti Goes e Poliana Paiva pedem passagem. O disco de estreia da banda Caim gira nas linhas do gramofone de Fabrício Brandão. “Corpo Sepulcro”, novo romance de Mike Sullivan, recebe a atenta leitura de Maurício de Almeida. Em todos os recantos da 105ª Leva, os desenhos, ilustrações e tiras de Juca Oliveira interagem com outras tantas formas de expressão. Assim, caros leitores, mais uma edição ganha corpo. Evoé!

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105ª Leva - 08/2015 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Eu, Você e a Garota que Vai Morrer (Me and Earl and the Dying Girl). EUA. 2015.

Poster

Esqueça seu preconceito com a temática adolescente (principalmente americana): bullying, baile de formatura, busca de popularidade (ou falta de) e tudo que assombrou o colegial de todos nós. Baseado no livro homônimo de Jesse Andrews – que também assina o roteiro do filme – e vencedor de público e júri no Festival de Sundance deste ano, Eu, Você e a Garota que Vai Morrer estreou no Brasil na 17ª edição do Festival do Rio e deverá entrar em circuito nacional em novembro. Apesar de soar à primeira vista como um mix de Rebobine, Por Favor (2008), As Vantagens de Ser Invisível (2012) e A Culpa é das Estrelas (2014) – os dois últimos também adaptações literárias –, o novo longa-metragem do cineasta Alfonso Gomez-Rejon – mais conhecido por dirigir episódios das séries Glee (2009-2012) e American Horror Story (2011-2014) – bebe mesmo é da fonte de Wes Anderson, vide a utilização de enquadramentos não-convencionais, fotografia ensolarada e divisão em atos, com subtítulos espirituosíssimos.

A trama conta a história de Greg Gaines (Thomas Mann, não confundir com o homônimo escritor alemão), aluno do último ano do colégio Schenley, em Pittsburgh (Pensilvânia). Greg e “sua cara de marmota”, como se autodeprecia, não se encaixa em nenhuma “nação”, como ele denomina as tribos de alunos, porém transita com superficialidade entre todas. Tudo para passar despercebido pelo 2º grau, sem arranjar inimizades ou maiores constrangimentos. Seu único amigo (ou “colega de trabalho”, como gosta de retificar, uma vez que são parceiros na [re]produção de curtas-metragens de clássicos do cinema) desde a infância é Earl Jackson (o promissor RJ Cyler), adolescente negro e suburbano com quem almoça todos os dias na sala do tatuado professor de História, Mr. McCarthy (Jon Bernthal) – o único adulto sensato da escola, segundo eles. A vida de Greg muda quando sua mãe (Connie Britton) o obriga a procurar e consolar Rachel Kushner (Olivia Cooke, a Emma da série Bates Motel, novamente fazendo papel de enferma), colega de classe diagnosticada com leucemia.

cena do filme
Rachel (Olivia Cooke) e Greg (Thomas Mann) assistindo uma de suas produções cinematográficas / Foto: divulgação

O que inicia como um martírio – a tomada de câmera no quarto de Rachel que ilustra o abismo que há entre os personagens é sensacional – gradualmente assume um papel de amizade, diversão e cumplicidade. Logo Earl é introduzido ao novo relacionamento, e só assim Rachel – dona de uma enigmática coleção de tesouras – descobre mais detalhes sobre o sarcástico Greg e o hobby favorito deste fã de Werner Herzog. E é através dos remakes bizarros de Rashomon (1950), O Sétimo Selo (1957), Laranja Mecânica (1971), Morte em Veneza (1971), Apocalypse Now (1979) e tantos outros, que a personagem preenche as agruras de seus dias [pós-quimioterapia], sem saber que em breve também ganhará uma produção da dupla, sugerida por sua amiga Madison (Katherine Hughes). Narrado por Greg, Eu, Você e a Garota que Vai Morrer dosa cirurgicamente drama e humor e escapa praticamente ilesa aos lugares-comuns do argumento. A la Michel Gondry, acrescenta elementos fantásticos e animações graciosas – como a teoria de que garotas são alces e garotos, esquilos – e reverencia os grandes diretores da sétima arte.

O longa cativa pela desenvoltura do enredo e carisma do elenco (destaque para o pai de Greg, professor universitário apaixonado por gatos e comidas exóticas, interpretado de forma magistral por Nick Offerman, e para Molly Shannon, atuando como Denise, a ébria mãe de Rachel), mérito de uma direção precisa de Alfonso Gomez-Rejon (que já foi assistente de Martin Scorsese e Alejandro González Iñárritu), ancorado pelo escritor/roteirista e grande conhecedor da história, Jesse Andrews. A narrativa contempla amizade e solidariedade, presente e futuro, vida e morte. Impossível não se emocionar e desejar a recuperação de Rachel, imaginar Greg na faculdade ou até mesmo torcer por um romance entre os protagonistas (ok, desculpe o clichê). Mas como não se trata de um filme previsível, jovens e adultos: preparem o sorriso, o lencinho e a pipoca. Independente da idade, também vamos querer integrar a trupe de Greg, Earl e Rachel.

Larissa Mendes também forja cenas em condição sub-humana.

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

São chegados 104 caminhos de arte e literatura. Sem dúvida, uma marca temporal dispersa em ações e encontros. Lidando com palavras e imagens, descobrimos pessoas, verdadeiros universos de saberes e sabores. Cada voz tem seu modo próprio de nos mostrar que o mundo é um lugar sempre novo e que, para tanto, depende do ponto de vista adotado. Seguir adiante é cultuar as diferenças, permitindo que cada autor mostre o seu modo de estar no mundo. Num trabalho que intercruza existências, é possível perceber como até mesmo pensamentos diametralmente opostos são parte necessária das reflexões sobre um tudo. Estar vivo faz parte do jogo dos estranhamentos.  Em cada autor presente nesta edição, uma centelha destes sentimentos todos paira voluptuosa. É o homem no homem, refletindo arroubos e raras certezas. Entrecruzando mundos, a fotógrafa Valéria Simões expõe aqui um lastro considerável de seu ofício com a luz. Suas fotografias estão diluídas diante de textos que flertam com o insondável. Vêm se juntar a tal energia os contos de gente como Vivian Pizzinga, Roberto Dutra Jr e Mário Sérgio Baggio. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger nos aponta sete considerações sobre o mais novo filme de Jean Luc Godard, “Adeus à Linguagem”. Maurício de Almeida nos conduz pelas vias do primeiro romance de Rafael Gallo. Hoje, as esferas da poesia estão tomadas pelos versos de Elizabeth Hazin, Kleber Lima, Clarissa Macedo, Edson Valente, Cristina Arruda e Adriana Aneli. Em matéria de música, as escutas de Larissa Mendes chamam nossa atenção para o mais novo disco da banda norte-americana Beirut. Numa entrevista, o escritor Thiago Mourão fala sobre seu mais recente livro e outros temas ligados ao ofício literário. Pelas linhas de Sérgio Tavares, estão marcadas reflexões sobre o novo livro de contos de Antônio Mariano. E assim tudo conduz a um renovado ambiente de aparições, caros leitores. Sejam bem-vindos a tais possibilidades!

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104ª Leva - 07/2015 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

BEIRUT – NO NO NO

Beirut

Algumas canções parecem ter o dom de transportar-nos para lugares tão agradáveis que sequer devem existir. Uma sonoridade que ilustra bem tal sentimento é composta pela Beirut, banda do Novo México (EUA) que ganhou o mundo com o hit Elephant Gun – e  os brasileiros com a música de abertura da minissérie Capitu (2008), de Luiz Fernando Carvalho. A aura de orquestra de world music combinada a elementos de folk do Leste Europeu difundiu uma espécie de erudição acessível a todos os ouvidos, desde o álbum de estreia, Gulag Orkestar (2006). Quase uma década depois, o grupo liderado pelo multi-instrumentista Zach Condon – que já interpretou O Leãozinho, de Caetano Veloso, em performances de outrora – lança No No No (2015), seu quarto álbum de estúdio. Após problemas pessoais, cancelamentos de apresentações, bloqueio criativo e um jejum oficial de 4 anos, Condon e sua trupe permitem-se dar vazão a um descompromisso pós-inverno que setembro anuncia cá dos trópicos.

Gibraltar e sua percussão de teclado-adesivo abrem os trabalhos indicando que o Beirut, por ora, posiciona-se naturalmente entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, dividido pelos contrastes sociais, sonoros e afetivos de Europa e África, tal qual o acidente geográfico que batiza a canção. E sim, apesar de todas as disparidades da vida, “everything should be fine”. No No No, primeiro single lançado ainda em junho, passeia por toda a veemência instrumental que consagrou a banda, porém de forma jocosa e reincidente, como o próprio videoclipe propõe. At Once [re]assume o ar melancólico e os metais tradicionais utilizados pelo grupo no álbum The Flying Club Cup (2007), questionando: “how do you know/at once/at last/at all?”.

Beirut
Beirut, sexteto liderado por Zach Condon / Foto: divulgação

 

O segundo bloco inicia com a levada setentista e esperançosa de August Holland (no, I lost the ramparts and now/I want to send back the sound), que em alguns momentos nos remetem a Paul McCartney, para em seguida desaguar na instrumental As Needed, que utiliza violinos como base – e como o título sugere, “era necessária” para a coesão da obra. Perth, a canção mais pop do álbum, tem um suingue arrebatador: impossível não bater o pé, balançar a cabeça, estalar os dedos, cantarolar ou sair dançando. Não estranhe se ela tornar-se a trilha sonora da sua próxima viagem ou “see you in an hour, an hour back home”. A terceira e última leva de canções traz um quê psicodélico na enxuta Pacheco (how long? how long? how long? just so I know), enquanto Fener (farol, em turco, terra de sua nova musa inspiradora), faixa mais eletrônica do disco, contrasta com So Allowed (how we began to see things?), que encerra a obra no compasso de valsa, suave como um sopro de jasmim nas noites quentes de primavera.

Em suma, o novo registro da banda soa com certa distância de seu antecessor, o consistente The Rip Tide (2011) e apresenta-se menos folclórico e nostálgico que todas as obras anteriores. Não à tôa, a capa estampa uma árvore carregada de flores e uma paleta candy color. Se as 9 faixas inéditas de No No No – que cronometram menos de meia hora – não agradaram completamente os críticos e fãs conservadores da banda, acertaram em cheio o coração dos indies ávidos por canções impregnadas de sensações e simbolismos. Assim como seu homônimo árabe, o Beirut ressurge menos condimentado, porém tão aprazível quanto sua receita tradicional. Que seus ouvidos gulosos apreciem a obra sem moderação alguma.

 

Larissa Mendes diz ‘no no no’ a toda música ruim.

 

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103ª Leva - 06/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como Sara F. Costa, Samuel Malentacchi, Ana Horta, Nilcéia Kremer e Floriano Martins. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de Geraldo Lima, Márcia Denser e Fernando Rocha. Há uma atenta leitura de Sérgio Tavares para o novo livro de contos de Luís Roberto Amabile. No quesito cinema, Larissa Mendes convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, Graccho Braz Peixoto entrevista o cantor e compositor Mário Montaut. Por meio das escutas de Gustavo Rios, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de Thiago Mourão, é alvo das anotações de Fabrício Brandão. Com a vigorosa contribuição da artista plástica Caroline Pires, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

A História da Eternidade. Brasil. 2014.

 

A História da Eternidade

‘Não sei mais o que é amor, só sei o que é desaforo’.
(Personagem Querência)

Em tempos de ascensão do cinema argentino e breve entressafra de bons filmes nacionais, eis que surge um sopro de esperança [ou um oásis] vindo diretamente do sertão nordestino. Com 20 anos de carreira como cineasta e 14 curtas no currículo, A História da Eternidade marca a estreia do pernambucano Camilo Cavalcante na direção de longas-metragens. Apesar do título homônimo de seu curta de 2003 – um falso plano-sequência de 10 minutos que também passeia visceralmente pelos dramas do sertão –, o diretor garante que os enredos não têm correlação imediata. Aqui a trama gira em torno de três mulheres de gerações distintas: Querência (Marcelia Cartaxo), mãe que acaba de perder o filho e vive a dor do luto – e também é alvo do cortejo de Aderaldo (Leonardo França), o sanfoneiro romântico e cego da vila (abre essa porta, deixa o meu amor entrar pra tomar conta de tu, criatura!); Dona Das Dores (Zezita Matos), idosa-religiosa que mora longe da família e vibra com a estadia inesperada do neto Geraldo (Maxwell Nascimento), vindo de São Paulo; e por fim, Alfonsina (Débora Ingrid), adolescente que sonha em conhecer o mar e divide-se entre tratar do austero pai Nataniel (Cláudio Jaborandy) e dos irmãos e admirar o excêntrico tio João (Irandhir Santos), artista que definitivamente destoa do restante do vilarejo.

A História da Eternidade
O sanfoneiro Aderaldo (Leonardo França) em cena de A História da Eternidade / Foto: Divulgação

 

Produção independente – escrita e dirigida por Cavalcante –, financiada por editais e incentivos públicos, A História da Eternidade foi bem aceita por público e crítica. Recebeu mais de uma dezena de prêmios em festivais, entre eles o de melhor filme brasileiro e prêmio do público na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e as principais categorias do 6º Festival de Paulínia, ambos em 2014. Rodado na comunidade de Santa Fé, próximo à Petrolina (PE), cujo único contato com o exterior é de fato o orelhão que aparece no filme, a fotografia árida confere uma atemporalidade ímpar e uma beleza imensurável ao lugar. Apesar de se tratar de um filme feminino em sua essência e com protagonistas que ilustram bem as figuras sertanejas, quem rouba a cena é mesmo Irandhir Santos – vide Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda. Suas declamações e performances são impecáveis, sobretudo quando coloca o toca-discos na frente de casa e dubla a música Fala, dos Secos & Molhados, encarnando uma espécie de Ney Matogrosso dos confins. Vale ressaltar que a trilha sonora é assinada pelo compositor polonês Zibgniew Preisner, conhecido pelos filmes do cineasta Krzysztof Kieslowski em sua trilogia das cores: A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1994), e pelo sanfonista Dominguinhos, em um de seus últimos trabalhos.

A História da Eternidade
João (Irandhir Santos) em performance de Fala (Secos & Molhados) / Foto: Divulgação

 

Dividida em três atos circulares (Pé de Galinha, Pé de Bode e Pé de Urubu), A História da Eternidade faz um recorte original de uma região bem peculiar do Brasil, porém opta por focar outras aflições e não o sofrimento oriundo da seca. Apesar do gigantismo da paisagem e do povoado inóspito (o que dizer do televisor e da poltrona quase sempre vazia no meio do nada?), a estética de Cavalcante parece aprisionar os personagens – comumente eles são filmados através de grades de janelas, como se fossem jaulas – numa alusão à ‘eternidade’ do título. O que voa ali são só os pássaros e a imaginação. E ainda assim, não por muito tempo. O amor assume vertentes de romantismo, desejo, saudade, veneração, tentação, penitência e tragédia. Talvez seja o tal ‘amar…esquecer…desamar’, a que João se refere em determinado poema. Assim, de mansinho, como chuva que chega sem avisar, A História da Eternidade entra para o rol dos pequenos clássicos nacionais e acaba de vez com a estiagem do nosso cinema.

 

Larissa Mendes, cidadã-cinéfila, atualmente habita o sertão catarinense.