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142ª Leva - 02/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Julia Sereno

 

Foto: Joice Kreiss

 

PARTIR

 

Para deixar um lugar, é preciso um pouco de coragem. Para deixar alguém, é preciso algo mais. Quando decidimos partir um laço feito de cheiros e gostos, sorrisos e lágrimas, gozo e frustração, saímos de uma estrada com placas rumo ao campo sem trilhas. Deixar alguém é deixar uma parte de mim, do meu todo e do meu nada. Deixar alguém é mergulhar no vazio, buscar o completo e nadar no incerto. Deixei muitas vezes. E me deixaram também.

 

 

***

 

 

TRAÇOS

 

Havia ignorado muitos detalhes na esperança de que se protegeria do susto. Mas o universo não falha em nos empurrar ladeira abaixo. Ou seria ladeira acima?

Pensou nos anos de terapia e nas horas de rascunho. Orgulhou-se da coragem de dizer chega. Envergonhou-se de não conseguir evitar o óbvio.

Vivia um dia após o outro sem abrir os envelopes. Sabia que se procurasse bem, acharia traços sem tempo definido. E não queria encontrar mais nada. Só paz.

 

 

***

 

 

NA TERRA DE PESSOA

 

Ladeiras que não me cansam. Caminhos que não me fogem. Descanso o medo na grama do jardim.

Acolho o novo sem perder o que era. Avisto o Tejo e ganho mais um suspiro. Brindo à Lisboa por mudar o fim.

 

 

***

 

 

TEMPOS E ESPAÇOS

 

Coloco-me prazos inacabados. Mantenho distância insegura. Quando não dou conta, já passei da hora e ultrapassei a linha de chegada. Muitas vezes corri. Em desespero. Pernas cansadas, mas cara lavada. Rumo ao próximo salto.

De longe avisto uma ladeira possível. Subo com passos de formiga. No topo espero uma mulher como eu. Quem é ela, afinal? O sonho que habita meu tempo derrete no espaço da cidade. Nada será como antes no meu castelo de areia.

 

 

***

 

 

FLUXO

 

Não conseguia esconder o arrepio na espinha. De quem decide seguir sem pedir permissão. Talvez a intuição não falhasse e a reta final fosse menos torta do que as anteriores. O antes se espalhou com o vento. As retas viraram pontilhados.

Desejava um círculo de luzes. Sem maquiagem, mas com cores. Sem roupa, mas com máscaras. Sem álcool, mas com cogumelos. O tudo a perder faria todo o sentido.

 

 

***

 

 

PARTO

 

Precisamos mesmo morrer para nascer de novo? Já perdi a conta de quantas vezes eu vi uma mulher diferente no espelho pela manhã. Ou mesmo antes de deitar na cama para ler a ficção sonhada ao longo do dia.

O modo como saio de casa e piso na calçada, com óculos de sol e a bolsa pesada, define a rota de desencontros nas ruas da aldeia onde moro. Uma aldeia global. Uma cidade que não me define, mas que não quero abandonar tão cedo.

A diáspora nos torna um pouco rebeldes. Depois que partimos, renascemos. E não paramos mais. Todos os dias. O choro grita a confusão do que nos espera. O colo acolhe o medo de perder. A luz de Lisboa colore o meu mapa astral.

 

 

***

 

 

DIÁRIO

 

Não é possível desver a luz que o tempo nos oferece. Li algo assim nas palavras de um escritor que muito admiro. Era parte de um relato de seus dias na quarentena. Dias de angústia, de raiva, de desejos reprimidos e de ausências doloridas. Confesso que, ao ler seu texto, a inspiração bateu na porta que me separa da prosa livre. Porta construída por mim. Fruto de desculpas ridículas, inventadas para escapar do que é inevitável. Uma certa melancolia sempre habitou minhas tentativas de diário. Seriam os livros de Clarice na estante?

J. me deu um beliscão no braço e aqui estou, sem filtro.

Os dias passam acelerados, envoltos em uma camada espessa de ansiedade e procrastinação. Falamos sobre a morte em uma conversa de botequim, de máscaras, mas com a cerveja gelada no copo. O barulho das sirenes não me assusta mais. Tenho vontade de comprar livros e sentar no banco da praça. Talvez com uma média de leite. Não sei mais se quero fazer o que planejei. O presente não está aceitando planos. Todos os dias uma nova ideia me convida para um chá na padaria. Por vezes não apareço. E não lamento. Virei rebelde depois dos 40. Talvez seja o ascendente em áries.

Quero passar mais tempo contando estórias para meu filho. Hoje farei arroz-doce.

 

 

 

***

 

 

 

ABRAÇO

 

Vou esperar um pouco mais, disse F., com medo de perdê-lo de vista. Há anos procurava um abraço que durasse para sempre. Sabia que não existia tal coisa, mas mesmo assim, continuava a buscar. O pouco não a interessava. Um dia acenou para M. na confeitaria da esquina e resolveu lhe oferecer um sorriso. Após muitos passos sem rumo pediu a eternidade do abraço. Não aconteceu. Escondeu o sorriso até a próxima primavera.

 

Julia Sereno nasceu em 1978 no Rio de Janeiro, mas reside em Lisboa desde 2020.  É professora de inglês e português, Mestre em Estudos da Literatura e Doutoranda em Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ. Tem poemas e minicontos publicados em revistas e em sua página no Medium. 

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Alê Motta

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Bagagens

 

Fiz doze cirurgias ao longo da vida. Ando com auxílio de uma bengala. Uso bombinha de asma, tomo onze comprimidos por dia e gotinhas de própolis, porque me acostumei com elas, quando tive uma gripe no verão.

Depois das seis da tarde coloco um casaquinho, mesmo que não esteja frio. Tenho sempre um guarda-chuva na bolsa. Sou aquela velhinha que a família inteira acha que vai morrer todo ano. Uma chatice completa. Cansei.

 

De uns tempos para cá resolvi ousar. Só coloco goiabada, sorvete e biscoito de chocolate no meu carrinho de compras. Fiz uma tatuagem no braço direito. Uma flor pequenina. Meus filhos quase surtaram.

Troquei de manicure e agora pinto minhas unhas com cores divertidas, tons azuis, verdes e alaranjados. Não quero que olhem para minha bengala, quero que olhem para o meu visual. Todo sábado de noite durmo com bobes, para no culto do domingo de manhã meu cabelo amanhecer estiloso.

Faço depilação, limpeza de pele e massoterapia.

Tenho mimado meus netinhos além da conta e constantemente ignoro meus filhos, quando me mandam fazer exames ou voltar a algum dos meus muitos médicos.

 

Sim, estou cheia de manias e esquisitices novas. Hoje mesmo estou na praia. Fazendo topless. Uma novidade na minha vida. Nunca tinha feito. Tenho oitenta e cinco anos, era hora de testar. Meus peitos estão muito caídos e estou causando um certo mau estar na rapaziada. Mas eu vou ficar por aqui, curtindo esse sol gostoso nos meus peitos por muitas horas. Trouxe até uma bolsa com lanche. Tem goiabada e biscoito de chocolate.

O sorvete compro depois, com o moreno lindo que passa vendendo toda hora.

 

 

 

***

 

 

 

Esquecimentos

 

Esqueci o que fui fazer no quintal. Tenho esses momentos de esquecimento, todos os dias.

Vou para a cozinha e não faço ideia do que ia fazer com a peneira grande e a colher de pau que tenho nas mãos. Saio para a rua e constato que não sei o meu destino.

 

Esqueci de tomar banho algumas vezes, no mês passado. Ou talvez não tenha esquecido. Não posso afirmar.

Tem alguma coisa acontecendo comigo. Desconfio que seja deficiência de vitaminas. O problema é não lembrar o quanto já tomei, quando tomei, para que finalidade tomei. Fico tensa desde o momento em que acordo, até a hora em que me deito para dormir. Todos os dias são assombros, espantos.

 

Ontem fui parar no meio da rua. Uma caminhonete prata buzinou e eu saltitei para a calçada. Tive que abraçar um poste, porque fiquei tonta.

Hoje acordei e o dia está lindo, um céu azul maravilhoso, trinta graus. É meu aniversário de sessenta e cinco anos. Fiz tapioca para o café da manhã.

 

Um, dois, três… Dezessete pessoas aqui na minha casa.

Toda família está na minha sala e na minha cozinha.

O relógio da parede marca 19:25h.

Trouxeram bolo, risadas e salgadinhos.

Não lembro nada do que aconteceu desde o café da manhã. Olho para a bancada e não há indícios da frigideira e da tapioca. Todos conversam, tem música tocando. Meu ombro esquerdo está dolorido de tanto tapinha de Eeee, parabéns!, estou comendo uma coxinha deliciosa, rodeada de netos lindos.

 

Devo ter uma doença terminal. Nunca fizeram uma festa assim para mim – com toda a família. Se fizeram, não lembro.

 

 

 

***

 

 

 

Herança

 

Meu avô é um velho inconveniente que faz todas as perguntas que não devia fazer nos eventos familiares.

Além de fazer perguntas medonhas, ele me encara e comenta que eu engordei, afirma que minha amiga é sapatão, que eu nunca vou arrumar emprego com o curso que faço na universidade, mas tudo bem, porque sou um fracassado igual ao meu pai e fala isso dando aquela risadinha sarcástica de quem está determinado a se meter.

Meu avô consegue azedar qualquer reunião familiar. Ele começa discussão, ofende. Zomba, magoa. A todos.

 

Ele tem olhinhos azuis, cabelo todo branquinho, é gorducho e caminha pulando. Quem olha de longe vê um velho fofo. Quem convive de perto está louco pra ir ao seu funeral.

Ele maltrata a vovó. Chama de lesada, define as roupas que ela deve usar e onde pode ir. Se e quando pode ir. E com quem. Joga o prato no chão se a comida não está do jeito que ele quer. Ela não reage.

Ele espancava os filhos quando pequenos – meu pai e meus tios. E agora que os filhos estão adultos, sempre se dirige a eles com sarcasmos ou palavrões.

Ele nunca nos abraçou. Me chama de Breno e meu nome é Bruno. A Carla ele apelidou de Saco de Banha!, ela é a minha prima complicada com o controle do peso. Já tentou se matar, é depressiva. Minha tia fica arrasada. Meus primos gêmeos ele chama de “os dois” e outro primo, o Gil, de “o menino”. A minha prima Cássia, eita!, essa ele ignora. Tem tatuagens e piercings, para ele não existe. Ela diz – Olá, avô! Ele vira a cara.

 

Estamos na delegacia. Meus pais, tios, tias, primos, primas e vovó. Depois desse ridículo e desprezível almoço de natal. Vovó é a única que chora e repete Tadinho, tadinho.

Meu avô nunca mais escarnecerá de ninguém. Foi esfaqueado, enquanto dormia, após o almoço, com a faca nova de cortar o peru. Durante o almoço ele ofendeu, zombou e xingou a todos.

Impressionante sua capacidade de humilhar, menosprezar e detonar. Meu avô era brilhante na maldade.

 

Somos muitos e somos todos suspeitos, mas o delegado já ganhou uma graninha e semana que vem todos ficarão sabendo da tentativa frustrada de assalto. E co mentarão, impressionados, da valentia do meu avô, que sozinho no quarto, reagiu. O resultado final foi que, infelizmente, ele não resistiu aos ferimentos na luta feroz, corpo a corpo com o marginal.

A vida seguirá. E a maldade da minha família, que era só do velho, agora está em todos nós.

 

 

 

***

 

 

 

Visitas

 

Quando ele chegou – depois de cinco anos sem dar notícias – ficou puxando as flores do arranjo cafona da mesinha de centro da sala e fazendo comentários imbecis do último jogo do Flamengo. Eu sabia que era enrolação.

 

Tenho setenta e oito anos, mas a força de um garoto. Meu soco é brutal. Faço longas caminhadas e cavalgo todos os dias, com muita facilidade.

Quando eu ouvi o

Tio, esse sítio é um fim de mundo. A oferta é ótima, eu tô sem grana. Quero adiantar o que vai acontecer mesmo, quando o senhor morrer!,

Não aguentei.

 

Retirei e recoloquei no lugar todos os quadros, os cinzeiros, a folhinha da farmácia, as duas almofadas que estão puídas e perdendo o enchimento. Passei o pano úmido em tudo, várias vezes.

Toda a madeira da sala está precisando ser envernizada. Amanhã vou à cidade comprar verniz fosco e aromatizador. Hoje não dá tempo. Preciso enterrar, bem escondido, o corpo desse sobrinho insolente.

 

 

Alê Motta nasceu em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro. É arquiteta formada pela UFRJ. Participou da antologia “14 novos autores brasileiros!, organizada pela escritora Adriana Lisboa. É autora de “Interrompidos” (Editora Reformatório, 2017) e “Velhos”  (Editora Reformatório, 2020). 

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Ana Blue

 

Foto: Luiz Bhering

 

no chuveiro

 

eu passo tanto tempo debaixo do chuveiro que eu já bolei um filme inteiro sobre uma mulher que passa muito tempo embaixo do chuveiro. as crianças vêm e se despedem para a escola, a empregada pergunta o menu do almoço, o marido vem atormentar com as contas, mas o tempo todo ela está ali debaixo do chuveiro, com uma cara de quem já desistiu. o chuveiro é o confessionário dos céticos. eu passo tanto tempo debaixo do chuveiro que eu acordei às 7h30 e de alguma maneira já são 9h55. o chuveiro é um abraço

 

 

 

***

 

 

 

o bicho

 

quando o bicho pega, eu lanço mão das minhas estratégias. eu pinto a unha, pinto o cabelo. às vezes tiro até a cutícula. ouço umas músicas fundamentais, que eu elejo de tempos em tempos. tomo um banho muito quente. faço bolo. faço bolo mais de uma vez. quando o bicho pega eu tento não olhar pra ele. eu varro a casa tantos dias não varrida e reprogramo o ciclo da máquina outra vez. se o bicho pegou muito mesmo, eu lavo o chão da cozinha de fora a fora esfregando cif desengordurante nas paredes. minhas vitórias têm cheiro de cif desengordurante. porque quando o bicho pega eu sei que ou é viver ou é desistir, dormir pra sempre. mães não podem dormir pra sempre, nem filhos. a busca nunca foi, nunca será o caminho da dor. será o do riso, o da carícia, o dos corações que se conectam, se conhecem, se falam. o dos filhos protegidos. e a gente enfrenta um zilhão de coisas todo dia por um pouquinho de amor. o peito não pode doer. nada do que dói é normal. a dor, na poesia e na ciência médica, é pra sinalizar doença. quando o bicho pega, tudo dói. dói minhas costas, dói o pescoço, o ciático, eu nem tenho idade pra saber o que um ciático em crise representa. quando o bicho pega, e eu tenho que decidir viver, e não me deixar ficar doente, ele me pega frágil, na cama, sem fome, não me deixa comer. não me deixa levantar, não me deixa dormir. mas me pega mãe, mulher e resistente. eu lanço mão das minhas estratégias. é hora de vencê-lo, porque quem escolhe viver não entra no caminho da dor. o que dói é doença. quem escolhe viver tem estratégias permanentes pra se fazer funcionar. mesmo as mais bestas. eu tiro os pelos da cara, eu pinto o cabelo. estou em milhares de praças, eu estou toda de preto e vermelho. eu passo batom. eu visto roupa bonita. quando o bicho pega eu sei que é hora de ficar limpa, tomar banho e almoçar e tirar roupa do varal, lavar banheiro. é hora de pensar em ganhar dinheiro e viver de cabeça erguida, pagando limpo. esse bicho me pega e me bota doente, tristinha, magrela. mas eu saio heroína, querendo casa limpa, vida decente, comprar da vitrine sem perguntar preço. se a gente souber dominar e viver com o bicho da gente, a gente vive. a gente sai da merda. eu garanto. eu conheço o meu bicho. ouço o que ele me diz. ele tem razão, a maioria das vezes

 

 

 

***

 

 

 

doida varrida

 

não sei muito bem com qual intuito, mas minha mãe me contava histórias escabrosas da roça, às vezes até mostrando o local do fato trágico – e, muitas vezes, sobrenatural – ocorrido. tinha a história do menino do rio, torturado e escravizado, e da volta morena. tinha a história da noiva na igrejinha e a da criança que morreu afogada no poço porque a mãe não deu mortadela. todas envolvendo morte jovem e trágica, mas a única que me assustava mesmo era a da simpatia da bananeira. nem tinha morte, mas tinha loucura. perder para a morte é menos cruel que perder para a loucura

minha mãe jurava de pés juntos que há muito tempo uma moça muito ingênua e pobre foi convencida por outras moças, um pouco mais cruéis e abastadas, a fazer uma simpatia para arranjar marido. o ritual envolvia cravar uma faca no coração de uma bananeira à meia-noite

e lá foi a menina, esperançosa, na hora determinada, apunhalar a verde amiga que nada fazia da vida além de parir bananas – ao que as outras aparecem gritando, gargalhando sinistramente na mata escura, jogando ovos nela, fazendo sons animalescos, vestindo máscaras terríveis na cara. dizem que a moça, coitada, nem bem aos quinze anos, ficou doida, doida varrida, traumatizada

a moral da história, pelo que eu entendia da minha mãe, é que no fim das contas, se a gente não abre olho, a gente fica doida varrida por causa de homem

 

 

 

***

 

 

 

amor pra mim

 

amor pra mim é parar em qualquer barraquinha de comida e agradar a barriga com qualquer dinheiro. amor pra mim é oferecer o casaco quando o meu eu esqueci. amor pra mim é comprar presente besta só porque saiu o fgts inativo. amor pra mim é suportar parente embriagado e farofeiro. amor pra mim é lembrar que se levar coca diet pode dar morte. amor pra mim é caminhar do mesmo lado na rua e ouvir a minha voz entre outras milhares de outras vozes. amor pra mim é fazer cofrinho junto com moeda de um real. amor pra mim é buscar sempre o mesmo alvo com o mesmo olho. e mais que com o mesmo olho, o mesmo olhar. amor pra mim é não deixar de ser o que era antes, mas deixar de ser também, pra ser melhor. amor pra mim é levantar antes e passar o café, buscar pão. amor pra mim é nem brincar com a ideia, deus me livre, de ver amor chorar. amor pra mim é nem brincar com a ideia da falta, da fome, de não ter em quê acreditar. amor pra mim é passear o cachorro. amor pra mim é lembrar que prefiro queijo prato. amor pra mim é jogar o lixo lá fora. amor pra mim é uma eterna adaptação de dois lados, perfeitamente opostos mas equilibrados. amor pra mim é um mundo onde uma pessoa vai ligar e a outra vai atender. e se uma não ligar, a outra liga. e tudo bem. amor pra mim é uma conversa que não termina mesmo se ninguém ligar. amor pra mim é um lugar de respostas, não de perguntar. amor pra mim é não precisar passar pela terrível espera do desconhecido. amor pra mim é comprar chocolate. é saber ganhar também. amor pra mim é uma barriga quentinha

 

 

 

***

 

 

 

pose antipática

 

eu tive um casal de tios que brigava à beça. ela queria passear com as crianças e comer coisas gostosas, mas ele queria só dormir. não gostava de nada na vida. ela queria exibir as roupas novas e os batons da avon, mas ele nem bem olhava pra ela. não gostava de nada da vida

não gostava do flerte nem das coisas das crianças, não gostava do trabalho que o casamento dá. o tempo todo enfiado no sofá da sala com um ar de quem nem estava ali. vai ver nem estava. era um holograma tradicional brasileiro. várias vezes me assustei de entrar na casa deles e ver ele lá, o espectro de um pai, de um marido, de um homem cansado que não quer nada da vida além de uns tantos maços de derby

separaram, claro, muito bem separadinhos, a separação é o destino inevitável dos homens que não gostam de nada da vida. mas ainda hoje eu lembro que, depois das discussões, eu o flagrei várias vezes deitado no chão, na frente da porta do banheiro, se esgueirando naquele um centímetro e meio de abertura pra ver minha tia pelada tomando banho

ele podia ter a mulher inteira, qualquer hora, se a ouvisse, mas achava melhor perder a mulher que a pose antipática

 

 

 

***

 

 

 

algoritmo

 

se trombam na rua, do nada

– oi fulane!

– oi cicrane!

– como tão as crianças?

– eu te liguei a semana inteira e só deu caixa postal

– fiquei sem carregador. e bertrane, tudo bem?

– liguei domingo de manhã, domingo de tarde, segunda e ontem

– sei… celular desligado. seu cabelo tá bonito, cortou?

– impossível falar com você, se precisar numa emergência não consegue

– eu não sou muito assim de celular não… e o emprego novo lá, tá curtindo?

– botei crédito só pra ligar pra você

– bom te ver… eu vou andando pra casa, vamo marcar alguma coisa?

– só ontem eu liguei três vezes

 

 

 

***

 

 

 

pote de memórias

 

doce de leite pastoso. um vício escroto, um vício triste. meto a colher uma, duas, três vezes no pote, absorta. chupo lentamente a colher, fazendo bicos e tudo o mais, de modo que o doce forma um pequeno bolo em cima, um bolo redondo, lambido pelo céu da boca. tem graça assim, comer devagar, sentindo bem o sabor. criança, era obrigada a comer depressa. eram muitas bocas sôfregas em casa

meu vício em doce de leite pastoso me levou a crimes. a assaltar muitas vezes a geladeira da rose, com a colher em punho. e enfiar o produto roubado todo de uma só vez na boca. pobre rose, que morreu dando à luz ao terceiro filho. minha tia levava as sobremesas todas da filó pra gente, um bando de criança esfomeada, eu lembro. comia rápido, pra ninguém tirar o que era meu. eu tenho pressa do gosto. enfio a colher no pote, terceira, quarta vez. doce de leite pastoso é um pote de memórias

 

ana blue, 32 anos, brasileira, tico-tico no fubá, nascida e domiciliada em nova friburgo, rio de janeiro, brasil, registrada no cpf sob um número de onze dígitos que nem todo mundo, jornalista, cronista e poeta há trocentos anos, mãe de três garotos maravilhosos, declara, para os devidos fins, que qualquer semelhança com a sua vida nesses textos não é mera coincidência, porque sofridos e esperançosos somos todos nós

 

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131ª Leva - 03/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marithê Azevedo

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Sangue de índio

 

Bento tinha mania de abraçar as árvores. Acordava cedo e antes de ir para a escola corria para a mata perto dali, conversava com uma, conversava com outra. E abraçava, abraço forte mesmo de quem gosta muito da pessoa abraçada.  Com essa mania, a mãe dizia que ele devia era ter sangue de índio. –Índio é que acha que arvore é gente. Tirando a mania, a mãe se orgulhava do menino: inteligente, esperto, afetuoso e com saúde. A professora vivia elogiando o Bento. – Bento vai longe. Quem sabe ele poderia até ser um médico, quando crescesse, pensava a mãe, em silêncio. Um dia, quando Bento já tinha saído para abraçar as arvores, a mãe ouviu ruídos de motosserras vindo da mata. Saiu na porta e viu um monte de caminhões parados em volta das arvores. A mãe fechou a torneira da pia, tirou o avental, tapou o bolo com um pano de prato e foi lá ver o que estava acontecendo. No caminho encontrou outros vizinhos olhando. Quando chegou, várias arvores já tinham sido derrubadas. E havia um grupo de homens em volta de um tronco, jogado na terra, tentando tirar alguma coisa. Quando a mãe se aproximou dos homens, viu o Bento agarrado a um tronco com as pernas e os braços. Tiveram que enterrar o menino com o pedaço de tronco junto.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

 Pauzinhos de picolé

 

-Mãe, se você achar pauzinho de picolé na rua, traz pra mim? Pergunta o Luis Antonio, entretido, na varanda, contando os pauzinhos de picolé que já tinha conseguido. Nisso, passa o avião, baixinho, ali perto. -Estão jogando remédio na plantação, vem prá dentro que este é forte, depois vai ficar se coçando aí, diz a mãe. Luis Antonio corre pra dentro com a caixa de pauzinhos de picolé na mão. A mãe olha aquele monte e pergunta: -Pra que, tanto palito de picolé, menino? Eles esperam o avião passar, com portas e janelas trancadas. Quando não se ouve mais o ruído do avião, Luis Antonio pega a caixa com os pauzinhos de picolé e sai de casa. – Vou catá passarinho. Luiz Antonio caminha pelo bairro, olhando debaixo das arvores. Acha um, coloca na caixa, acha outro, coloca na caixa e, assim, enche a caixa. Caminha para um terreno baldio e lá está o Genésio esperando por ele, também com uma caixa na mão. Luiz Antonio corta o palito de picolé no meio e faz uma cruzinha que ele amarra com um pedaço de barbante. Genésio joga as que tem prontas no chão. Luiz Antonio pega uma faca velha e cava uns buraquinhos na terra. Os dois enterram todos os passarinhos, colocam terra por cima e fincam, nos montinhos, as cruzinhas que fizeram. O terreno é bem grande e está lotado de cruzinhas de pauzinhos de picolé.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

O biquini estampado

 

Doida para estrear meu biquini estampado com tons de azul e verde, que eu comprei em Caraguá, sai para a praia. No outono, o clima é ameno e aproveitei, então, a brisa gostosa da manhã, com aquele sol mansinho que não arde, mas bronzeia devagarinho a pele. Ah! porque eu estava precisando largar o corpo na areia e me deixar abraçar por aquela água fria que faz sossegar a alma. O mar estava calmo, ondas tranquilas, poucos surfistas. Os primeiros vendedores estão começando a chegar com suas barracas. Achei até que ia ter mais gente, mas, talvez o pessoal esteja aproveitando esta manhã de sábado para dormir mais um pouco. Um grupo de meninas adolescentes brincava tranquilamente na beira da água, rindo e jogando água umas nas outras, quando se ouviu um estrondo. Talvez uma bomba enorme tenha explodido num morro de pedras ali por perto, mas o estranho é que o barulho vinha de dentro do mar que agora estava violento. E como uma boca enorme que ia vomitar, uma onda gigantesca se formou na beira da praia e foi aproximando muito rápido. Sai correndo, descalça, como louca para a calçada, atravessei a rua no meio dos carros que buzinavam intermitentemente e fui parar lá do outro lado. Nem deu tempo de pegar a toalha e o celular. Buzinas e gritos se misturavam num só pânico. Parei do outro lado da rua, ofegante, exausta de tanto correr, mas o cheiro forte de peixe morto me fez olhar para trás. O dia se tornara cinzento e já não era mais possível ver o mar. Um paredão gigantesco, alto como os edifícios deste lado, se formara com pilhas e pilhas de peixes mortos emaranhados a plásticos antigos e desgastados, ocupando toda a orla marítima.

 

 

 

 

***

 

 

 

Quase dois metros de altura

 

Estava no consultório do endocrinologista aguardando a minha vez, quando entra na sala de espera, uma senhora baixinha acompanhada de um rapaz de quase dois metros de altura, que abaixou a cabeça para passar na porta.  A mulher, morena, jeito de interiorana, beirando os 50 se sentou perto de mim. Aí percebi que ela não era tão baixa assim como vi de longe, ao lado do rapaz de quase dois metros. O rapaz se sentou ao lado dela e esticou as enormes pernas. -Este vai ser jogador de basquete, hein! comentei. O rapaz olhou para mim e percebi nele um semblante de menino, meio neófito, que ainda não sabe das coisas. Deve ter uns 18 anos, pensei. -Mora onde? a mulher me perguntou, puxando assunto. -Aqui no bairro mesmo, respondi. -Eu vim de longe, lá do Jardim Felicidade, disse ela. Como eu devo ter feito cara de quem não sabia onde era o Jardim Felicidade, ela completou: -aquele bairro onde tem a granja Eldorado. Vim consultar o menino. A mãe dele deixou ele comigo, eu que crio. Sou avó dele. Mas eu quem cuido dele. Agora deu prá crescer, não para mais. – Mas quantos anos ele tem? – Ele tem 10, mas olha o tamanhão. No começo eu achava até bonito ele ficar grande, mas agora estou preocupada. Outra mulher entra no assunto e comenta. – Parece que existem vários casos de crianças, aqui na cidade, com crescimento precoce. Assustada, fiquei imaginando este menino crescendo até os 18 anos. A outra acrescentou: -Teve um caso, de uma menina que menstruou aos 3 meses de idade, porque a mãe comeu muito frango de granja. Hormônio do crescimento rápido, serve pro bicho, serve pra gente também.

 

 

Marithê Azevedo é cineasta, roteirista, doutora em Artes Cênicas pela USP. Propositora de poéticas urbanas. Nasceu em Alfenas, MG. Morou em Brasília, Rio de Janeiro São Paulo e atualmente vive em Cuiabá. Docente do PPGECCO, UFMT. Entre os roteiros de ficção que escreveu para longa, estão: Religare, Três tempos, Cidade Submersa. Entre os roteiros para curta de ficção: Licor de Pequi, Traquitotem, A noite nossa de cada dia. Com o documentário  Memórias Clandestinas, em 2007, recebeu o prêmio de melhor documentário brasileiro no Femina, Festival Internacional de Cinema Feminino.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Mariza Lourenço

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Cara Edinalda

 

Cara Edinalda,

Estou velha, você sabe, minha memória é traiçoeira, mas posso lhe afirmar com absoluta certeza que a menina morava no Morro das Virtudes, aquele lugar lindo, rodeado por uma mata perigosa. Muitos corpos foram enterrados lá, é o que se diz, naquela época de… Ah, você sabe, Edinalda, o Tuninho mesmo nunca mais voltou para a casa de meus pais. Infelizmente, sobre a menina, não sei quase nada, a não ser o que era do conhecimento de todos, de que era bem bonitinha e educada e não costumava adentrar qualquer lugar sem convite ou permissão. Aliás, mal saia de casa, a coitadinha. A família frequentava uma igreja, a Clara me disse. Lembra da Clara, Edinalda? Enviuvou, está ótima. O marido era uma peste e foi tarde, desta para pior, espero. Bem fizemos nós, Edinalda, não casamos, não criamos filhos, tampouco netos. Pois bem, a Clara foi algumas vezes a tal Igreja frequentada pela família da menina. Ela não gostou, viu, Edinalda, não gostou nadinha do que presenciou por lá. Os fieis caindo no chão, orando pro capeta não tomar conta do corpo, esse tipo de coisa absurda e horrenda que a gente sabe que existe, mas prefere ignorar. Segundo Clara, a menina desapareceu após um culto de desobsessão. Investigaram, procuraram em todos os lugares e não a encontraram. Tempos depois a família informou que a menina estava morando com parentes em uma cidade distante. E as conversas, fofocas e investigações pararam por aí. Muito triste, Edinalda, foi perceber o alívio que tomou conta das pessoas quando encerraram o caso. Sempre foi assim, não é? Desde aquela época…

Ah, você sabe, Edinalda, você mesma nunca mais voltou para a casa de seus pais.

Com todo o meu amor,

(e esta saudade doída)

 

 

 

***

 

 

 

Corte

 

ele a trinta centímetros de seu corpo. o corpo dela. sobre a frágil mulher. as palavras desconexas protegidas pela respiração pesada do pesado homem sobre seu corpo. de gestos primitivos como convém à estúpida natureza humana. ele tem medo. e ela teme que ele saiba o que ela realmente sabe. de que sempre esteve a mil metros da paixão que mata. da paixão que lhe mete horror. e das facas e seus fios certeiros e nervuras expostas. do sangue escorrendo pelo alvo piso assentado perfeitamente pelo homem que respira sobre seu corpo. o horror a tudo aquilo que não se cumpriu. e da felicidade, esse sonho que ficou para trás, perdida em algum lugar, um minúsculo ponto impossível de encontrar entre o corpo dele sobre o dela. ele arfa. e ela está longe. a gazela livre brinca. ele sabe que ela foi embora há muito tempo. e ela sabe que sob o pesado corpo seu frágil corpo já encomendou a alma.

 

 

 

***

 

 

 

uma tristeza qualquer

 

não se sabe o motivo, mas num dia qualquer de novembro ela resolveu desfazer o coque baixo e deixou soltos os cabelos finos e mal cuidados, que cruzavam a linha da cintura.procurou desesperadamente pelos cacos que guardara do espelho quebrado havia dez anos. arriscou um batom, presente de sua irmã, a ovelha desgarrada.

─ você está diferente, mamãe, mais bonita.

─ não gostei, vá refazer esse cabelo e não se esqueça de limpar a boca.

ela olhou para ambos ─ seus amores, seus algozes, seus patrões ─ e deu meia-volta. refez o coque, lavou a boca e deitou-se.

nunca mais voltou.

 

Mariza Lourenço é advogada e coeditora da Germina – Revista de Literatura & Arte e das Escritoras Suicidas. e-mail: marizaclourenco@gmail.com

 

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128ª Leva - 06/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

José Carlos Sant Anna

 

Foto: Adelmo Santos

 

Pela janela aberta

 

Se um peixe entrar em sua casa sem bater, não estranhe ou fique nervosa, é porque, pé ante pé, ele resvalou o corpo para fora da tarde e porque claramente cansou do lago artificial em que vivia enclausurado. Há sinais e testemunhas do licor evaporado do seu hálito quando ele passou pelo átrio da igreja e o andar era um bálsamo para aquele espírito inquieto. Antes, ao passar pela porta, exclamou “que lugar maravilhoso”, e sorveu um pouco de paz com os belos vitrais que se realçavam em ambas as laterais da igreja. Parou, pensou e concluiu que o ar era solene e a igreja (talvez) seria pequena para remoer as inquietações metafísicas que sacudiam a sua cabeça na deambulação vespertina.

 

 

 

***

 

 

 

Minhas ostras

 

Vira e mexe as ostras desfilam pela calçada da praia do Bogari, calçando sapatos coloridos, como se nunca tivessem sido colhidas pelos meus apetrechos de pesca nos arrecifes. Quando tal acontece, quase sempre, remexem no meu antigo baú. São meus espantos guardados, sem chave, justo quando finjo não pensar em nada. As ostras giram o tronco em minha direção e, solícito, digo-lhes que se acomodem ao meu lado, no banco de areia da praia. Sentadas, me falam do que viram e ouviram, quando presas nas formações rochosas, próximas à costa, tornando-se muitas vezes cúmplices de algumas histórias. E ficamos, então, eu e elas, sob um céu estrelado, à beira de outro instante. No meu íntimo, uma estranha magia. A casa dos meus pais, a poucos passos. É do útero do tempo que elas ressurgem, que brotam. A pele arrepia, a alma cintila. E as ostras passam, ficam e se fincam em mim, pois, ainda que mortiça, trazem sempre uma claridade, como se fosse a luz de uma vela. Pedaços de saudades da ponta do mar, da península de ontem, cirandas de histórias que nunca chegam ao fim, um show de vaga-lumes por todos lados que estilhaçam o ar, abrem o armário e vão aquecendo, sem pressa, as esquecidas paredes da memória. Aproveito a lassidão que nos acolhe e vou também abrindo os olhos, as mãos, o corpo, enquanto elas parecem dizer-me que já não preciso correr contra o relógio. Contra o tempo. Aquecidas, as ostras ensaiam uma canção praieira do Caymmi para a noite que avança madrugada a dentro. Suspiram e se afastam. Não consigo desviar meu olhar dos moluscos que se distanciam lentamente, tampouco me ocorre o que ainda queria dizer…

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Quase triste

 

Como se eu ainda tivesse o alaúde. São outros os tempos. E rubro ou incolor são os pingos da memória, sem pés ou asas para sustentá-la. Um eclipse. Pular da cama sem fazer nenhum escândalo pode safar o véu da boca de Madalena. Melhor é que não o faça. Seria como, a contragosto, apanhar um viscoso metrô, sem conhecer as linhas e perder-se nos atalhos das begônias no meio da clorofila dos executivos da classe média, bolinando os rastros no teu corpo salgado. E estão perdidas as fagulhas da piscadela, como um voo da infância? Esqueceu? E a minha alma reserva, entre copas, pergunta: “O que é que houve, Madalena?” “O que é  meu não se divide”. É o olfato que irriga meus países baixos, por isso me falta talento, incenso e girassóis para este desespero nas ruas vazias sem o meu amolador de facas. E quanto o velho poeta ficaria surpreso ao ver-me atritando as nuvens ou na vertigem dos pés em botão nas míseras cadernetas do armazém da esquina. O filho da mãe, no pasto das estrelas, sempre acrescentava um pouco mais nas contas da semana. E como ainda somos precoces na hora do choro da saudade, para depois tudo perdermos na aposta. Me espera, vai, me espera! Ainda podemos gozar juntos, Madalena, como uma pele de orvalho na madrugada. Ou como num poema bem resolvido! Ou então durma! O desamparo é uma traição das marés, e o teu médico, cubano, não fala bem o português. E tem mais, sem a luz do teu sol, confesso este meu fado de poeta a emoldurar o fugaz, enquanto a fumaça do cigarro sobe e se perde pelas frestas das telhas da cumeeira da casa.

 

 

 

 

***

 

 

 


Desamparados

 

Acabamos por nos acostumar com tudo, mais cedo do que esperamos, dizia Joaquim para si mesmo como um pragmático pensador, primeiro enrolando um cigarro com as folhas da sua estufa particular, depois com a lupa do seu tempo de estudante nas mãos, mergulhado nas águas fundas da antiga convivência, como se o mar, que sempre o apetecera, andasse no ritmo da cadência do mundo por entre as árvores toldadas por estranhezas humanas, enquanto ele examinava, inata curiosidade, um inseto que tecia no espelho uma canção inspirada num poema de Drummond. Verdades que se escondem mal finda o arrepio da tardança e da solidão, sem que Joaquim saiba o motivo das aparências das coisas porque não consegue desprender-se dos ferrões feitos do nada que sangram a sua pele. A cadela destrambelhou a vida da casa, tal qual um incêndio num açude em noite de tempestade. A cantoria das crianças, alegrando a casa, bem poderia ser uma esperança, uma aurora, que coubesse no céu daquele homem no colo do dia, mas, ao contrário, provoca náuseas, um tremor nas mãos que o engole aos poucos, levando-o para bem longe de si mesmo. Folha levada pelo vento. E a cadela parece segui-lo. As mais fundas águas e o bicho a segui-lo no jeito de ser sem jeito, desencanto da vida. E quanto mais se revela esse jeito cambaio dele ser, se vê mais longe, sem descobrir as verdades avaras ou que outro nome tenha as intempéries que amanhecem sob os túneis da escuridão completa. E chama a cadela para a vida que ainda não viveu, para as estrelas que não se cansaram de riscar o céu. Para as sobras da infância. Joaquim molda os músculos na barra de ferro que o seu pai instalara no meio do corredor para este fim. Vapt-vupt, enfia as calças, veste uma camiseta e sai para abrigar-se na amurada do mar anilado olhando os surfistas se empinarem nas pranchas nas primeiras ondas da manhã e os cães desamparados que rosnam com a orla negra lambendo suas patas ao expandir e retrair-se no seu fluxo contínuo sobre a areia da praia. E nenhum pormenor da boca da manhã escapa aos olhos de Joaquim que virgulam os matizes azulados do horizonte que não se escrevem com palavras.

 

José Carlos Sant Anna é professor aposentado da Universidade Federal da Bahia. Atualmente é o editor da  Quarteto. E já andou publicando os seus alfarrábios pela vida afora.

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 Jorge Mendes

 

Foto: María Tudela

 

SOBRE OS OMBROS DO VENTO VELOZ QUE ME LEVA

 

ontologia voraz

 

o tempo tem dentes afiados e come pelas bordas. você não percebe o estrago, a erosão abrindo buracos escuros no peito e pratica esportes monocromáticos, se socializa com os vermes, decora as senhas. segue o esquema. o tempo é um bom cão de caça e se alimenta de sombras e psicopatologias. você sente calafrios, flutua entre nuvens desidratas, faz pactos com a insolvência, é seduzido pelos que sabem manipular o gelo. o tempo tem os olhos de vidro que embaçam e hipnotizam e você não está vivo nem morto e ninguém dá a mínima. o tempo sofre do vício em adrenalina e vertigens. o tempo sussurra em seus ouvidos o primeiro nome do inimigo e engatilha a pistola nos seus tímpanos. o tempo está parado na esquina vendendo relógios, negociando destroços e doenças de pele. o tempo acumula rancores e vaidades em caixinhas espelhadas. o tempo entra no mormaço, trava o coração. o tempo tem as pontas dos dedos geladas e um manto negro sobre os ombros. o tempo vai domesticar todos os sonhos, corromper a natureza dos pássaros. o tempo é o outro, todos os outros.

 

 

 

***

 

 

 

sitiado

 

cercado por bichinhos de estimação, orquídeas rancorosas e teorias motivacionais. cercado por perfis megalomaníacos, necrológicos recreativos e hinos de louvor. cercado por incensos e britadeiras. cercado pelo bizarro, por imagens da destruição e helicópteros. cercado pelos cães da polícia militar, gerentes do tráfico e garotas anoréticas que me monitoram pelo google. cercado por flores de perfumes degradantes, por pássaros autistas, gatos obesos e crianças em tons de cinza. cercado por energéticos, depressivos, anticorrosivos. cercado pelas vozes dos alto-falantes, por fogos de artifício, pelos gritos e tiros de ar-15. cercado pelo mormaço, pelo frio calor. cercado por corpos e objetos que provocam dor e fazem sangrar. cercado por máscaras, próteses, luvas de borracha, gadgets e metáforas da carnificina. cercado por deuses de plástico e caixas de supermercado. cercado por passeatas e paredes, orixás, gases lacrimogêneos e erva daninha. cercado pelo invisível horror e por todo o lixo que existe ao meu redor.

 

 

 

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necrosociety

 

é preciso acalmar o medo com voos panorâmicos no elevador de vidro, próteses sensoriais, tabletes, ansiolíticos. é preciso acalmar o medo levantando peso, clareando os dentes, eliminando gordura. é preciso acalmar o medo com mantras, mentiras, hinos de louvor, esgoto, efusões de ervas mágicas, gadgets. é preciso acalmar o medo bebendo do veneno incandescente. é preciso acalmar o medo no comércio dos corpos, na sala escura com aparelhos de tv, indo dançar com os trapaceiros. é preciso acalmar o medo negociando com os deuses e os demônios da dissimulação, com doses cavalares de tédio e tinturas para o rosto. é preciso acalmar o medo com alvejantes, sucos de clorofila, recebendo propinas e espíritos da maledicência. é preciso acalmar o medo com barbitúricos líricos, falcatruas, câmeras de segurança, estelionato. é preciso acalmar o medo molhando de sangue, suborno e miséria as mãos dos homens públicos. é preciso acalmar o medo ficando rígido e desidratado. é preciso acalmar o medo como fazem os cadáveres.

 

 

 

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addiction blues

 

ela diz que sou feio, confuso e indiferente à luz do sol e tenta me prender dentro do cubo de gelo. ela simula caridade e ataques cardíacos pra que eu entre em transe e frite na fervura. em seu planetinha corrosivo existem plantas carnívoras, tempestades elétricas, cocaína. ela corrompe minha natureza de pássaro, me passa malária e os barbitúricos. ela se finge de morta e eu só no conhaque. ela lê o que escrevo sentada só de calcinha na mesa da cozinha e diz que não tem tempo nem paciência prus meus paradoxos e viagens suicidas ao redor do fogo. ela ri do meu medo, me aprisiona em espelhos que são frios frios frios. ela me leva pru fundo do mar e me deixa anêmico, aflito, incomunicável. ela tem um jeito de mexer nos cabelos curtos que desestabiliza as sólidas estruturas. ela me olha de longe, sem piscar, e ainda dói. ela me beija com desespero e ternura, ela me ama com tigres e punhais, ela corrói meu voo de ícaro, apaga meus passos, me abandona em labirintos, acende meu desejo, morde meus mamilos e é por isso que eu bebo.

 

 

 

***

 

 

 

ininteligível       

 

existe algo de sublime e sujo no amor. algo que faz o assoalho tremer e que incomoda a vizinhança. existe algo no amor que fura a pele e deixa rastros de sangue pelo chão da cozinha. existe algo no amor que provoca febres, corrosões, desmoronamentos. existe algo no amor que embriaga os pássaros e nos faz dançar violentos e descontrolados ao redor da fogueira. existe algo no amor que é doce, ácido, incandescente. existe algo no amor que alucina, causa sonambulismo, desafia a gravidade e faz voar. existe algo no amor que provoca espasmos, psicoses, infecções e ainda goza. existe algo no amor que cavalga os ventos, arranha a carne e as paredes, corta os cabelos bem curtos, abre oceanos e produz cegueira e uma severa forma de dor. existe algo no amor que não tem cura, que é loucura, perversidade e canibalismo. existe algo no amor que dispensa explicação.

 

 

 

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chroma key

 

um romance parecido com filme super 8 e rastros de fogo. um romance com hálito de vodca, com formigas correndo na corrente sanguínea, pista magnética e flores carnívoras. um romance que solte as mãos na curva fechada, que abra asas quando pular do décimo segundo andar. um romance atravessado na calçada atrapalhando os pedestres. um romance sem dia seguinte, com olheiras fundas e olhar obstinado. um romance volátil que levite sobre os incêndios. um romance com os cabelos molhados pela tempestade, que solte faíscas e choque elétrico a cada beijo. um romance inesperado, sem ponto final, que comece pelo fim, que encante meu corpo e me faça dançar o blues.

 

 

 

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sobre os ombros do vento veloz que me leva

 

talvez não haja tempo nem paciência pra esperar pelo sol. preciso acender fogueiras e deixar o fogo se alastrar. a garota linda me ama e me odeia e mora longe numa casa cheia de gatinhos psicóticos. eu encaro paredes, minto pru chefe e pru sub-chefe e de noite viro dragão da lua e faço sobrevoos. existe dor nas coisas que toco com a ponta dos dedos, pessoas insalubres no fim do arco-íris, dissonâncias e tempestades que não me deixam mentir. sigo só de encontro ao inimigo. por livre e espontânea vontade caio em todas as armadilhas. sou fraco para os cálculos. talvez não haja amor, doses de conhaque, neblina e manhã seguinte. preciso ir.

 

 

 

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devir

 

para o medo da morte doses cavalares de adrenalina e nuvens. para o desejo que arde fogo alto, brasa viva, solstício. para o beijo outro beijo outro beijo outro beijo. para o sangue que corre pelas veias oxigênio e matilha. para os olhos andrômedas, luas de virgem, calafrios. para o passado, o presente e o futuro as águas dos rios, a dura luz do dia. para todas as coisas que existem e para as que estão por vir o fundo do mar, a matemática do sol, a pureza do sal e o que escrevo aqui sozinho.

 

Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Carla Diacov

 

Ilustração: Sadrie

 

Ecos no bueiro

 

você acena com a cabeça e eu penso – essa mulher que acena com a cabeça – e você continua a andar. quando nos tocamos. um, dois beijinhos nas bochechas (somam quatro ou são mesmo os dois mesmos?) e concordamos em estar entre cafezinhos, com uma mesinha a nos separar. você me olha e eu imagino – essa mulher que me olha, acena com a cabeça. ela que está para dizer alguma gravidade – e você não diz, você olha, toma um, dois, três mil cafés sem açúcar. você que sabe minha desajeitada mania de dizer coisas quando estou aflita, digo coisas que meu buffoon interno diria – neste momento praticamos uma nova categoria de meditação em dupla. acenar com a cabeça, olhar, olhar, olhar, queimar a língua e olhar – você pende a cabeça para o outro lado, suspira e faz um sinal positivo quase imperceptível. me sinto bem, porque fui aprovada pelo sinal. ainda que somente eu tenha percebido o sinal. ainda que o sinal não seja, porque posso muito bem ter inventado o sinal. me conheço bem para saber que inventei o sinal, que não havia nada de positivo no leve deslocamento do queixo, coisa que você faz, mania tua. nos levantamos e nos despedimos. um, dois, três mil beijinhos nas bochechas (somam quatro ou são mesmo os três mil mesmos?). nos separamos pela última vez. como testemunhas, meu buffoon quase externo e sua frase, ecos dos beijinhos no bueiro, a calçada em desnível e o organismo excitado de quem toma muito café apenas para não dizer nada junto de uma amiga que, só em mexer o queixo, coloca aspas em tudo do mundo.

 

 

 

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Que pode a mulher que pode

 

Você pode se esquecer de um dia especial. Você vai se esquecer daquele dia. Aquele dia estará para longe de ti. Um outro dia vai tomar aquele lugar. Mas ainda não chegou o dia que vem. Você vai se esquecer do dia especial quando o dia chegar. O dia que tomará o lugar daquele dia em que te disseram uma besteira cafona sobre bater com uma flor. Mas o dia que vem, como uma flor que é como uma raquete e que é como um sapato que é como um punho fechado que é como uma vassoura que é como um tijolo que é como uma panela quando é como bater com uma flor, ainda não chegou. E você pode esquecer.

Também pode esperar.

 

 

 

***

 

 

 

Uva e Azeitona e Tempo

 

Numa ocasião, meu pai me falou sobre um tipo de uva. Não me lembro do tipo de uva e nem das coisas que eram especiais nesse tipo de uva. Me lembro do meu pai. Me lembro que ele se sentia feliz em me dizer da uva. Me lembro das risadas dele, porque algo que não me lembro da uva, talvez o vinho dela. O tempo do meu pai me dizendo a uva era o meu tempo de amar a voz e os gestos do meu pai. Então havia ali algo mais que dois tempos. Era o Tempo Meu Pai, era o Meu Amor Pai Tempo, era o Nosso Tempo Humor. Talvez até o Saudade Pai Amanhã Não Tem Mais Tempo. Havia também a caminhada pelo mercado municipal de Londrina. Meu pai caminhava num tempo lindo e eu tentava acompanhar. Era preciso mais de duas pernas para caminhar junto de tanto amor. Era rápido e lento e rebobinado, às vezes. Então os pastéis. Comer e ouvir e saber e rebobinar, às vezes.

Numa outra ocasião, meu pai me falou sobre a azeitona preta.

Não me lembro a cor e nem o que da azeitona existia.

 

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. “Amanhã Alguém Morre no Samba” (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), “A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil”, (Macondo Edições, Juiz de fora, 2016), “Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse” (Douda Correria, 2016), “bater bater no yuri” (livro online pela Enfermaria 6, 2017), “A Menstruação de Valter Hugo Mãe” (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), “A Munição Compro Depois” (a sair pela Cozinha Experimental, 2018).

 

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103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Fernando Rocha

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

EX-FETO

Aquecido e alimentado, dentro do útero materno, sem mais nem menos, agora, eu não sou mais um feto, mas também não evoluí para o estado de corpo independente, espaço de uma geografia ilusória.

O planeta parece um útero que não pari. Sua gestação infinita não carece de óvulo nem de espermatozoides, num coito com o invisível seus fetos surgem e caminham rumo ao mesmo nada. Há aqueles que constroem a ilusão de que já estão prontos, seguem ritos sem sentido, ritmo da valsa de destruição, regida pelas próprias vítimas.

Contudo, há os como eu, os que com um olhar opaco, miram tudo, mas o gesto dos olhos não traz a sensação de pertencimento, pelo contrário, apenas cria uma distância que não pode ser percorrida, apenas sentida e de tão sentida parece nem existir: condenação ao vazio.

Lambo as paredes da placenta, queria ter dentes para machucar quem me prende neste lugar onde a lógica, na maioria das vezes é sinônimo de crueldade e na minoria é o algoz do bem estar.

Romper o cordão umbilical numa greve de fome irreversível! Morrer talvez me dê chance de existir de alguma maneira.

***

RETRATO DE UM CEGO

 

Um fotógrafo ajeitando um cego para um retrato, o olhar vazio do modelo, lábios cerrados como uma escultura do silêncio. O que passa em sua cabeça? Num pequeno banco sem encosto, ele parece não se incomodar, ali estará preso pela eternidade do instante, dentro de um retrato que nunca poderá comtemplar.

Sentir o flash nos olhos quase mortos, opacos e sábios como uma reencarnação de Tirésias. Civilizações em frente a sua lente, com qual foco poderá acolher todas as vibrações fantasmagóricas que acompanham aquele ser?

Aqui do outro lado seguem as nossas impressões excluídas do momento, mera contemplação que sente auxiliada pelo intelecto, privada pelo instinto não nomeado.

 

Fernando Rocha é paulistano, nascido em 1981, graduado em Letras, em 2013 publicou o livro de narrativas curtas Sujeite sem verbo (Confraria do vento), em 2014 publicou a novela Os laços da fita (Penalux). Colabora com as páginas Letras et cetera, Letras inacabadas e Meleca-Chiclete.

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Lia Beltrão

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

A coisa

Em algum lugar uma coisa se esconde esperando minha mão. Um dia, o acaso me levará para um canto sombrio da casa, onde uma caixa de sapato ou a gaveta de uma antiga cômoda guarda a coisa que me espera. Vago pelas sombras da casa e minha pele eriçada me avisa da proximidade da coisa. Então me afasto até que a pele sossegue e me permita caminhar sem sobressaltos. Mas o caminho oposto também me leva a sombras e novamente sinto o arrepio. A coisa é móvel. Pisca para mim de sombra em sombra. Não sei o que quer de mim nem o que tem para me dar. Sei que me atrai e me repulsa. E é grande o medo que tenho de encontrá-la.

***

Covardia

A única vez que ele mentiu pra mim foi quando disse que não me amava. Amava, sim. Do jeito que amam os covardes. Amava a casa arrumada, a roupa limpa, bem passada, o cheiro dos lençóis. Amava a comida de todos os dias e amava mais o almoço dos domingos. Mas dizer que me amava, nunca disse. Também nunca me chamou de meu amor. Nem mesmo antes ou depois do gozo, muito menos nos meus tempos de agonia. Quem visse de fora, podia pensar que era dureza de macho. Mas eu sabia que era pura covardia. Porque se dissesse que me amava, eu podia querer mais coisas dele. Que se casasse comigo, que me desse filhos, que me pagasse as contas. Mas eu nunca dei esse gosto a ele. Sempre tive meu dinheiro. Costuro pra fora, faço bolos, vendo avon. Ele é que um dia chegou mais calado do que de costume. Tomou banho, jantou, ligou a televisão e ficou ali, um mortovivo. Quando perguntei o que se passava, disse com voz de choro: preciso de dinheiro pra pagar uma dívida de jogo. Era pouco, eu tinha, entreguei a ele dentro de um envelope. Ele pegou o dinheiro, levantou-se do sofá e disse que ia embora e não voltava mais. Eu não te amo, disse. E eu vi nos seus olhos e ouvi na sua voz que ele mentia.

***

Pés

Por muito tempo, meus pés serviram para caminhar. Levar-me pra lá e pra cá, pisar na lama, torrar nas pedras quentes do meio-dia. Sempre tive muitas cócegas nos pés. Você descobriu por acaso e passou a me torturar com os dedos leves. Depois vieram os beijos e depois a língua. Aos poucos, meus pés não queriam mais caminhar. Desejavam a boca que os tinham desviado dos antigos caminhos. Hoje, meu corpo começa pelos pés.

*** 

O estranho que me visita

Eu sei quando ele chega. Gosta de me pegar distraída dentro de um livro, aparando as unhas ou bordando com meus bastidores. Quando me dou conta, ele já sumiu lá para os fundos do corredor. Nas primeiras vezes, tremia de medo e me distraía ligando a tv, cantando alto, telefonando para qualquer pessoa. Até que ele sumisse.

Mas teve um dia em que criei coragem e fui caçá-lo pela casa. Entrei no quarto, ele deu sinal de estar no banheiro. Abri de um brusco a porta do banheiro, ele mexeu na torneira da cozinha. Acendi a luz da cozinha, ouvi o seu suspiro lá na sala.

Com o tempo, aprendi que ele não queria ser visto. Me acostumei com a sua presença pela casa. Quando ele chega, finjo que não percebo. Continuo presa no livro, na serrinha de unhas ou na agulha que passa de um lado a outro do tecido esticado nos bastidores. Faço falsas poses distraídas, sabendo que ele gosta de me ver assim, vivendo a vida, passando o tempo, pensando coisas. Gosto desse estranho que me quer assim, na mais banal intimidade. Gosto que vasculhe minha casa, que me vasculhe por fora e por dentro. Gosto que me mostre a estrangeira que eu sou dentro do meu próprio território.

 

 

Já fui do lar. Hoje faço doces para lares alheios. Faço textos, também. Mas não os envio aos lares. Prefiro que andem pelas ruas e encontrem ao acaso quem os leia. Entreguei vinte e três anos de minha vida a um homem, uma casa e uma filha. Só depois que o homem se foi e a filha se casou, pude ler o que quis, escrever o que quero. E algumas pessoas gostam do que escrevo. Por isso, sou teimosa e vou aos poucos construindo um olhar novo sobre as coisas do mundo. Às vezes dói, mas sempre me dá prazer. Tive alguns textos publicados em Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Já é um bom começo.