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155ª Leva Ciceroneando

Ciceroneando

Ilustração: Nicole Marra

 

A Diversos Afins é puro movimento, dinâmica que teima em render frutos que nos impulsionam adiante. Seu projeto editorial vem se consolidando e renovando cada vez que nos deparamos com instigantes expressões do campo artístico. E como é importante saber que os caminhos não se esgotam por si só, pois habitamos um mundo onde as vozes se mostram plurais e dotadas de acordes próprios. Aliás, o emblema da singularidade sempre foi uma marca de nossas edições, pois, a cada etapa de publicações, percebemos que surgem outros tantos olhares sobre o mundo, essa grande plataforma através da qual os sentidos emanam e se fazem presentes. Imersos em leituras das mais variadas, por vezes somos surpreendidos positivamente com o efeito que os autores imprimem a seus textos e imagens. Ao fim e ao cabo, são distintos modos de se narrar a persistente aventura humana sobre a Terra. Escritores, artistas plásticos, ilustradores e fotógrafos, dentre outros, são verdadeiros provocadores quando nos tomam de assalto com suas investidas. Mais parecem desacomodar nossas pequenas e frágeis certezas diante da vida e seus fenômenos todos. E é salutar quando a Arte atinge esse ponto de se balançar antigas estruturas e nos propõe fôlegos alternativos para saborearmos nossas andanças mundanas, pois o objeto artístico não se desvincula do ato espantado do existir. Do equilíbrio entre convites e aproximações espontâneas, brota uma nova Leva de expressões que remontam a universos pessoais bastante contundentes em seus propósitos. Pelas veredas das nossas janelas poéticas de agora, por exemplo, despontam os versos emblemáticos de gente como Marianna Perna, Marlos Degani, Ramayana Vargens, Anna Lúcia Maestri e Lisandra Crespi. São de Gustavo Rios as impressões acerca dos contos de “Gosto de Amora”, obra de Mário Medeiros. Na seara do teatro, Vivian Pizzinga nos apresenta uma abordagem sensível e convidativa sobre o monólogo “Traidor”, interpretado por Marco Nanini. Por ora, somos bem servidos de prosa com os contos de Whisner Fraga e Ailton Lima, cada um com seus horizontes peculiares. Em sua verve cinéfila habitual, Guilherme Preger incursiona pelos aspectos relevantes do filme “Anora”. O disco de estreia do rapper Yago Oproprio é destaque das apreciações sonoras e aguçadas de Larissa Mendes. O entrevistado da vez é ninguém menos que o escritor baiano Paulo Bono, que dialoga com Fabrício Brandão sob o impacto dos desdobramentos de seu mais recente livro de contos, “Pepperoni”. É Roberto dos Santos quem nos conduz pelas alamedas de “Quem falou?”, romance de André Cunha. E todos os espaços aqui aparecem abrilhantados pela exposição das ilustrações de Nicole Marra, artista que nos oferta uma possibilidade especial de mergulho na dimensão feminina das formas. Com toda essa reunião de valiosas contribuições, nasce a Leva 155. Boas leituras!

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155ª Leva Janelas Poéticas

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

YAGO OPROPRIO – OPROPRIO

 

 

Se a origem hebraica do nome Yago remete a vencedor, Oproprio dá a letra e sobrenome ao jovem artista colecionador de isqueiros e de belas canções. Criado entre a Zona Leste de São Paulo, a interiorana São José dos Campos e a Venezuela, Yago vem obtendo destaque na cena musical com seu estilo singular e inovador, onde mescla elementos do rap tradicional com influências de boom bap, MPB e de música latina (graças aos anos de sua adolescência vividos no país de Maduro em companhia da mãe). Suas letras abordam temas cotidianos e experiências pessoais, criando uma conexão imediata e genuína com quem sequer esbarra em sua sonoridade. Aos 30 anos recém-comemorados no palco, o rapper convive desde berço com a arte. Cristiano Carvalho, seu pai, é um dos fundadores do coletivo paulistano Dolores e um Yago ainda menino já frequentava os saraus do Jardim Triana.

Em maio passado, o músico lançou seu álbum de estreia, intitulado OPROPRIO (2024), pela gravadora Som Livre. Antes do lançamento da obra, ele já havia chamado atenção em sua participação no single Imprevisto (2022), do rapper Rô Rosa, e com as 5 faixas de seu EP O Inquilino (2023). Além disso, possui parcerias em inúmeras canções com promissores artistas nacionais do pop, funk e neo-soul, como Tupi, MC TH, Jean Tassy e Iuri Rio Branco. E se prepara para lançar um samba em breve.

 

Foto: divulgação

 

Logo de cara, a capa d’OPROPRIO chama atenção por se tratar de uma pintura em cores primárias do artista plástico Rodrigo Branco. A boca borrada e os olhos atentos podem fazer alusão ao trap de influência latina La Noche (trago a visão pra quem não enxerga mais/a voz que busca a paz de todos que ficaram mudos), que abre o álbum e narra o drama de encarar o “trampo” após um “rolê insano” — pra não dizer que não falei das gírias. Inofensiva (mas toda noite eu rezo e peço minhas desculpas/tão cristã minha culpa/deixa eu só cumprir minha missão), espécie de continuação da faixa anterior, explora a complexidade da conduta humana e o eterno duelo entre certo e errado. Já a soturna Catedrais é descrente de Jesus ou Satanás, porém apoia todos que pregam a paz. E ainda traz um verso de “Cristiano Opai”(disse pra atentar minha chegada/e ver se a rua tá livre de ser autuada”), sua primeira referência artística.

O bloco seguinte ganhou o repeat da minha playlist e meu coração todinho. Se Fora do Tom (vou juntando meus pedaços pra saber quem sou/distribuindo meus retalhos por aí/vou descobrir como chegar a pé) é poesia pura de quem atravessa uma crise ou o caos completo, Melhor Que Ontem (nada do que foi vai voltar/e o ponteiro do relógio serve pra não esquecer/que na vida tudo passa, a dor, a paz, a graça/o tempo é professor e nos ensina a viver) é um sopro de esperança e transmutação – e  talvez seja a mais bela faixa do álbum e de todo 2024. Enigma (mas se você me conquistar/abro os caminhos pra gente tentar entender/e os meus segredos você pode desvendar/que eu guardo num lugar que eu nunca sei falar/nem sei dizer) aborda aquelas conexões amorosas intensas, por vezes até confusas, mas extremamente raras; e por fim, Modus Operandi (eu não mereço todas dores desse mundo/se eu me confundo, num segundo eu perco tudo/(…) e quanto mais o tempo passa, eu me confundo/eu grito alto e o desespero deixa mudo/Mas se eu pudesse congelar o tempo, eu evitava tudo) questiona a dualidade de um amor meio tóxico.

Enquanto Papoulas (eu procurei, não achei respostas/decifrando o jeito que cê veio incomum/a tua postura tão proposta/cativou no peito e eu não quero mais jejum) encerra o bloco “love songs” através de sua visceralidade, a engajada Jejum (tamo pensando em um por um, que revolta cada um/linha do tempo pode nos comprometer/se te incomoda еsse jejum, temos dorеs em comum/basta nóis saber reconhecer) desencadeia o desejo de protestar contra o absurdo da vez e sobra até para o mascote da Lacoste. O álbum encerra com todo o astral de Linha Azul (e eu ficando bolado com tudo/de tudo que eu não teria que fazer/se a cada metrô que eu pegasse/eu não deixasse meu rango do mês), faixa composta em 2019 que soa quase como uma ciranda e tem a energia e a inocência de uma cantiga de roda.

Com produção musical de Patricio Sid (idealizador do projeto Nômade), as 10 faixas de OPROPRIO são marcadas por um flow melódico e rimas que refletem questões ordinárias da vida com ironia e “sagacidade”, como bem dito em La Noche. Se suas influências latinas incluem nomes como Calle 13, Orishas e Don Omar, a brasilidade tem o peso de Sabotage (Yago participou da faixa Maloca É Maré com Iuri Rio Branco no álbum comemorativo Sabotage 50), Racionais, Duda Marapé (MC assassinado em 2011 e citado em Amor Incendiário, de O Inquilino), Chico Buarque, Moreira da Silva, Pedro Luís e Criolo — que já foi abordado na rua por um Yago fã e não poupa elogios ao hoje colega. Somado a todo o talento poético, o artista tem carisma, uma voz inconfundível e um jeito de cantar articuladamente despretensioso, o que confere a ele um estilo muito “próprio” (com o perdão do trocadilho) no hip-hop nacional. Yago é mago das palavras e tudo que toca vira obra-prima.

 

 

(Larissa Mendes foi desapropriada de suas palavras e playlists e só tem ouvidos para o Mago Yago)

 

 

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154ª Leva - 02/2024 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Marcelo Leal

 

Cada edição que desponta no horizonte de nossa caminhada desperta sempre o gosto por ares renovados. São indicativos de que outras escutas seguem abertas e se fazem presentes. Tais inclinações nos levam a conhecer vozes do mundo cultural, subjetividades que, acima de tudo, projetam o desejo de uma existência quiçá mais plena, dado o componente de que provavelmente a arte seja, em suma, vetor de uma consciência mais ampla acerca do mundo e seus fenômenos. E não estamos aqui a falar somente da arte que intenta contemplações ou fruições estéticas das mais variadas, mas também aquela que é capaz de conectar seus protagonistas aos mais difusos anseios contemporâneos. Nesse sentido, cultura e sociedade são um par indissociável, deixando entrever desdobramentos de cunho social, político e econômico, para não mencionar outros aspectos plausíveis. É perceber que todos nós somos agentes de possibilidades vivas de transformação, condição esta que tem como ponto de partida o plano individual de cada sujeito, seu repertório pessoal. Quando essa dimensão particular se espraia na esfera pública, tomamos conhecimento do potencial que cada criador compartilha com o mundo externo. Por isso, ler, ver e sentir as obras é fundamental numa jornada como a da nossa revista, pois esse gesto revela descobertas e norteia direções que oxigenam os caminhos editoriais. É, então, com esse entusiasmo que acolhemos agora toda a expressividade marcante de poetas como Rita Santana, Karine Padilha, Luciana Moraes, Bianca Monteiro Garcia e Jussara Salazar. Nesta nova edição, somos visitados pelas fotografias de Marcelo Leal, numa exposição de imagens que remontam aos detalhes poéticos do mundo. No caderno de teatro, Vivian Pizzinga desfila todas as suas atentas impressões para a peça “A palavra que resta”. Por sua vez, Guilherme Preger traz análises importantes sobre o provocante filme “A Substância”. Com uma resenha sobre “O inquilino das horas”, livro do poeta Nílson Galvão, Maruzia Dultra nos convoca a expandirmos nossos territórios de leitura. Numa entrevista especialmente centrada em seu mais novo livro, o escritor Marcus Vinícius Rodrigues dialoga com Fabrício Brandão sobre seus processos criativos. Nos cadernos de prosa, os contos de Cecília Vieira e Rodrigo Melo denotam diversidades inventivas. O livro de poemas de Kátia Borges, “Dias amenos”, recebe os mergulhos valiosos de Sandro Ornellas. Como não poderia faltar, gira na agulha de nosso Gramofone o mais recente álbum do pianista Amaro Freitas, com um texto que revela as apreciações de Rogério Coutinho para esse importante trabalho do artista pernambucano. Eis a nossa 154ª Leva. Boas leituras e que venham instigantes ventos culturais em 2025!

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154ª Leva - 02/2024 Gramofone

Gramofone

Por Rogério Coutinho

 

AMARO FREITAS – Y’Y

 

 

Um rio que nasceu na cruel periferia do Recife e deságua nas águas da Amazônia. Esse é um roteiro de viagem possível quando se ouve o quarto disco do pianista pernambucano Amaro Freitas, Y’Y (2024). Um jazzista improvável, que cresceu entre o gospel, o funk e o rap e que teve sua vida transformada após um DVD de Chick Corea chegar em suas mãos.

A estreia de Amaro veio com Sangue Negro (2016), marcado pela fusão do jazz com ritmos nordestinos e que abriu caminho para sua inserção no circuito internacional de jazz. Rasif (2018), cujo título em árabe homenageia sua cidade natal, aprofunda a influência do baião, frevo e coco na polirritmia de seu jazz. Em Sankofa (2021), Freitas completa um percurso de pessoas, lugares e filosofias da história negra brasileira, muitos dos quais ignorados pela história oficial.

Y’Y traz o encontro do jazzista com o mundo amazônico, que potencializou sua música com elementos da cultura da floresta. O título vem da expressão para água do dialeto da comunidade indígena amazonense Sateré Mawé. E é de maneira fluida, como água, que o piano de Amaro constrói uma suíte amazônica no lado A, que recupera a ancestralidade e as lendas da floresta. O piano e a percussão se entrelaçam nas faixas “Mapinguari (Encantado da mata)” e “Uiara (Encantada da água) – Vida e cura”. Enquanto Mapinguari, nas palavras de Amaro, se trata de “um gigante faminto e peludo, com um olho e uma boca enorme no umbigo, que vagueia pela floresta em busca de comida”, Uiara é o boto-cor-de-rosa, o princípio feminino das águas.

 

Amaro Freitas / Foto: Micael Hocherman

 

A conexão Nordeste-Amazônia já tinha sido feita pelo conterrâneo Naná Vasconcelos em Amazonas (1973), o homenageado em “Viva Naná” e que serviu, de alguma maneira, como guia para Amaro, que usa um piano bastante percussivo ao longo do disco. “Dança dos Martelos” lembra que, no final das contas, o piano é um instrumento de percussão. Ou, mais tecnicamente, de cordas percutivas. Raras vezes um piano soou mais indígena, mais amazônico.

“Sonho Ancestral” é um momento mais lúdico, com direito a citação de “Asa Branca”, que surge como uma possível lembrança de infância, fundindo as bacias do São Francisco e do Amazonas em uma coisa só.

Abrindo o lado B, a faixa-título “Y’Y” (pronuncia-se “iê iê”), trazendo a flauta do britânico-barbadiano Shabaka Hutchings, que representa um “encontro das águas” com o piano de Freitas, como se o rio amazônico desaguasse no litoral pernambucano. “Mar de Cirandeiras” é uma homenagem às cirandas de Pernambuco, uma expressão cultural popularizada por Lia de Itamaracá e pelo Quinteto Violado, entre outros, que aqui ganha a companhia da guitarra do norte-americano Jeff Parker. As reminiscências da terra natal de Amaro levam a um tributo à figura materna, Dona Rosilda, na faixa “Gloriosa”, pontuada pela harpa de Brandee Younger, a primeira mulher negra a ser nomeada para um Grammy de melhor composição instrumental.

Por fim, “Encantados” retoma a abordagem de trio jazzístico bastante comum em trabalhos anteriores de Freitas, com a adição da flauta de Hutchings. A busca pela ancestralidade nas águas amazônicas e nos mares pernambucanos encontra a aldeia global negra do jazz, fruto da diáspora africana. Amaro Freitas aponta para o futuro, sem perder suas tradições afro-brasileiras.

 

 

Rogério Coutinho é gestor e produtor cultural, com trabalhos em museus e patrimônio, além de comunicólogo e publicitário. Colaborador eventual da Diversos Afins, apresenta o podcast Gramofone junto ao editor Fabrício Brandão. É o criador e responsável pela Rádio Nove.

 

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153ª Leva - 01/2024 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Zô

 

Há 18 anos surgia a Diversos Afins. E eis que apareceu dentro de um contexto de efervescência das produções em meio digital. Era o ápice de blogs e sites dedicados a todo tipo de narrativa no front cultural. Muitos espaços personificavam os estilos de novos autores, individualizando condutas de publicação dos textos. Foi importante testemunhar a aparição de um sem fim de expressões da poesia e da prosa, desde iniciantes e até mesmo dos mais consagrados. Igualmente recompensador foi também perceber a chegada de vários portais e revistas dedicados não somente à Literatura, mas a outras artes, apresentando em seu cardápio multifacetado resenhas, ensaios e textos sobre cinema, teatro, música e outras frentes. Cada um com sua identidade própria, com seu jeito de ofertar aos leitores modos peculiares de estruturação dos conteúdos. No meio dessa borbulhante paisagem, nossa revista figurava como uma janela através da qual parte importante desse oceano de produções se fazia adentrar. Definida a sua política editorial, a Diversos Afins manteve desde o início o intuito de acolher novos autores, em grande contingente inclinados a  desengavetar seus escritos pela primeira vez, interessados por oportunidades de publicação. No ofício de se editar uma revista, há muito aprendizado envolvido, sobretudo aquele que decorre das trocas estabelecidas com parceiros, colaboradores e leitores, todos eles, ao fim e ao cabo, se colocando como verdadeiros entusiastas de cada edição. Chegar a mais um ciclo de existência significa muito para nós, pois, mesmo nos hiatos que se impõem à jornada, a vontade de seguir adiante permanece viva. De ânimo sempre renovado, os encontros do presente constroem nossa 153ª Leva. Nela, descortinamos os poemas de gente como Nívia Maria Vasconcellos, Constança Guimarães, Julia Sereno, Camila Passatuto e Christian Dancini. Na cartografia presente pelas alamedas desta edição, as imagens de nos fazem companhia, arte que transborda recortes sutis do cotidiano. Em nosso caderno de cinema, Guilherme Preger nos provoca a ver e sentir “Motel Destino”, filme mais recente de Karim Aïnouz. É Alex Simões quem nos convida à leitura de “onde a água faz a curva”, livro do poeta Matheus dos Anjos. Na entrevista concedida a Gustavo Rios, o escritor Victor Mascarenhas fala sobre os percursos que o levaram à construção de seu último livro, “Sete dias em setembro”. O mais recente livro de Ruy Póvoas, “O Risco e o Laço – traçados do destino nagô”, é tema das apreciações de Tica Simões. Os contos de Neuzamaria Kerner, Adriano Espíndola Santos e Paulo Zan tecem um instigante mosaico de narrativas mundanas. Nas impressões sonoras de Fabrício Brandão, o disco “Milton + esperanza”, fruto da especial parceria entre Milton Nascimento e Esperanza Spalding, agora gira na agulha de nosso Gramofone. É tempo de, com imensa gratidão, celebrar junto a nossos leitores e colaboradores o nascimento de uma outra etapa. Boas leituras e mergulhos!

 

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151ª Leva - 01/2023 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

MAGLORE – V

 

 

2023 já está entre nós, mas considerando que o ano novo só começou oficialmente depois do Carnaval, ainda temos tempo de reverenciar os melhores álbuns do ano que passou. Indiscutivelmente o quinto álbum de estúdio da Maglore ocupa todas as listas do meu coração. E aqui faço uma mea culpa, pois confesso que por um desses lapsos diante da vastidão do universo musical e da distância geográfica, conheci a banda tardiamente —mais especificamente durante a pandemia, por indicação de um músico paulista e match do Inner Circle — através de Maglore Ao Vivo (2019). A energia do registro do show foi meu combustível por muitas e muitas faxinas e assepsias anti-Covid. Declaro aqui também que responsabilizo veementemente meus amigos (ouviram isso, Fabrício Brandão, Leila Andrade e Taiana Gomes?) por me esconderem por tanto tempo essa pérola baiana chamada Maglore.

Formada por Teago Oliveira (voz e guitarra), Lelo Brandão (guitarra e sintetizadores), Felipe Dieder (bateria) e Lucas Gonçalves (baixo), o grupo detém uma bela trajetória desde seu primeiro álbum, Veroz (2011). Ao longo de mais de uma década de carreira seus integrantes puderam amadurecer e arriscar-se, vide os elogiados trabalhos solos de Teago Oliveira, com Boa Sorte (2019) e Lucas Gonçalves, com Se Chover (2020) e Verona (2021). Lançado em agosto, V (2022) bebe da rica fonte do rock clássico e da MPB setentista e contemporânea. As 13 faixas passeiam por reflexões pós-pandêmicas, inseguranças e pautas universais, como o amor e suas variáveis e a inevitável passagem do tempo. Sobra espaço também para a crítica social do conturbado momento político que vivenciamos nos últimos quatro anos.

 

Maglore / Foto: divulgação

 

A dançante A Vida É Uma Aventura (a gente envelheceu, a gente superou/cada momento em que a vida foi mais dura), primeiro single liberado, abre o álbum em estilo cinematográfico fazendo jus ao seu título e dando a deixa para o soul tropical de Amor de Verão (quero o meu amor de verão/na próxima estação, no céu escuro/quero o meu amor de verão/na próxima estação, quebrando tudo), que traz aquela força típica que uma paixão arrebatadora nos dá. O refrão de Espírito Selvagem (eu sou assim há séculos atrás/ nos olhos do meu filho vejo o rosto do meu pai/não tenho guerra com ninguém/nem vendo solução/sou espírito selvagem sem buscar aprovação) tem um quê de hino de juventude e aborda a magia de ser livre. Ou como diz os versos do folk existencialista Transicional: “e não há certo/e não há errado/é sobre ser/tudo que se é”.

A balada Vira-Lata (vem e me mata/do jeito que eu sou vira-lata/eu vou te seguir) é releitura de um single de Lucas Gonçalves lançado em 2020 e ganha aqui um compasso mais rápido. Lembram da promessa de Amor de Verão? Pois ela se confirma em Outra Vez (planos e viagens, briga à beça, mil mensagens/coração a mil, sensação boa de enlouquecer…). Mas nem só de amor vive o álbum. Está aí o pop sessentista Talvez (talvez/eu te queira, mas depois/que cê for embora, vai saber/talvez/eu te telefone, assim/que você se desligar de mim) para comprovar, refletindo sobre aquelas relações em que só valorizamos o outro depois que o perdemos. Aliás, a nostálgica Amor Antigo, nos lembra justamente que “a história sempre tem um fim/o amor não”.

A faixa mais politizada do álbum sem dúvida é o rock Eles (eles não entendem o que são/não há beleza, é só tristeza e vício em destruição), que tem clipe oficial em vermelho-sangue. A ela faz companhia a psicodélica Maio, 1968, que, inspirada nos Beatles, faz um breve apanhado dos acontecimentos históricos dos últimos 50 anos. A antagônica Medianias — bela composição de Lucas Gonçalves, que assina um total de cinco canções do álbum — lembra Secos e Molhados, mantendo inclusive a contrariedade de seus versos. O pseudo-reggae Revés de Tudo (ao revés de tudo/sem nenhum segredo/cansados do mundo/e sobrevivendo) conta a história de ascensão e queda do “póbi” Reinaldo, personagem da canção, enquanto a bossa orquestral Para Gil e Donato — única parceria entre Teago e Lucas — finaliza o disco com todo o lirismo que seus ilustres destinatários merecem.

Com uma discografia que conta ainda com Vamos Pra Rua (2013), III (2015) e Todas As Bandeiras (2017), o quarteto baiano radicado em São Paulo firma-se como umas das bandas mais consistentes desta geração. Com letras poéticas e uma base sonora altamente eficaz, a Maglore é sem sombra de dúvidas uma das maiores bandas da atualidade. Isso mesmo, banda no sentido mais amplo que possa existir, sem complemento para rotulá-los em nichos específicos como pop, rock ou nova MPB. Lucas Gonçalves e Teago Oliveira destacam-se como excelentes compositores, não por acaso o último teve as canções Motor e Não Existe Saudade no Cosmos interpretadas pelos já saudosos Gal Costa e Erasmo Carlos. Espero que você não demore o tempo que eu levei para conhecê-los, pois definitivamente Maglore nos deixa legal.

 

 

Larissa Mendes é às vezes um clichê, mas deseja a todos um excelente 2023, repleto de boa música e diversos afins.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

JUVENIL SILVA – UM BELO DIA NESSE INFERNO

 

 

Em meio a esse turbilhão de energias caóticas que vive(u) o país, o músico pernambucano Juvenil Silva lançou na primeira quinzena de outubro Um Belo Dia Nesse Inferno (2022), quarto álbum de sua carreira. Um disco que, em sua serenidade, faz contraponto ao olho do furacão dos dias atuais. Diferentemente dos discos anteriores, as 10 faixas de Um Belo Dia… se esquivam do rock e das guitarras distorcidas, recorrentes no trabalho do músico. Aliás, trata-se de um álbum quase ausente de guitarras, onde prevalecem violões de aço, nylon, 12 cordas e um lendário instrumento: o tricórdio (instrumento de três cordas, também chamado de pandora) de Lula Côrtes (1949–2011), o mesmo que gravou discos clássicos como Paêbirú (1975), Molhado de Suor (1974), Flaviola e O Bando do Sol (1976), entre tantos outros.

O disco abre com o folk psicodélico Sem Relógios, single lançado em janeiro. Na sequência a ótima canção que nomeia a obra Um Belo Dia Nesse Inferno (bem, andei pensando e já faz tempo/que eu nem parava pra pensar/que a gente não é o que quer na vida/tão pouco se é aquilo que o outro acredita) filosofa sobre o nosso eu, “o amor e outras drogas mais pesadas”. Objeto Afetivo (tínhamos teto, tato, tava tudo tão bonito/e agora quanto tempo nem se sabe onde estamos/por ora estamos sendo ou por vezes tentando), tem parceria de Guilherme Cobelo e evoca Raul Seixas, enquanto a bela (ao contrário do que diz sua letra) Noites Sem Futuro (não teve como fazer uma canção bonita para nós/nós somos dois, somos bois/ruminando migalhas de momentos bons) tem a colaboração de Evandro Negro Bento. A apocalíptica Música de Repúdio tem as gaitas de Rodrigo CM e a queixa de que “o mundo já acabou tantas vezes que eu perdi a conta”. A segunda metade do disco apresenta ainda a balada Pra Gente Passear na Cidade (saber que a vida é boa/mas não é sopa/que o doce na boca/custa os olhos da cara), a instrumental meso lenta, meso punk Desoriente e o single solar, apresentado em junho, Estamos Numa Encruzilhada – canção pessimista que tem videoclipe em P&B disponível em seu canal do YouTube. Completam o disco a balada de amor livre Deixe-se e Para Que Se Perca Antes.

 

Juvenil Silva/Foto: Marco Bonachela

 

O sucessor de Desapego (2013), Super Qualquer No Meio de Lugar Nenhum (2014) Suspenso (2018) e do EP Lonjura (2021)  traz a atmosfera do folk psicodélico e da canção, soando ora mais popular, com ares de Zé Ramalho, Bob Dylan, Belchior, ora mais psicodélico, como Lula Côrtes, Syd Barret, e até mesmo melancólico, como Flaviola e Nick Drake. Todos esses artistas, assim como outros do mesmo nicho, fazem parte das referências e influências “juvenis” desde o início de sua trajetória, acentuadas, finalmente, nessa obra mais recente. Lançado por seu selo Plurivox, após mais de dois anos de “gestação”, um detalhe curioso é que Um Belo Dia Nesse Inferno seria o título do primeiro disco de Juvenil, que acabou se chamando Desapego. Mas não é apenas sobre o título. O próprio conceito mais intimista contrasta com o caminho mais agitado escolhido pelo artista no início de sua carreira. O álbum tem participações especiais de Régis Damasceno (Cidadão Instigado), Lucas Gonçalves (Maglore), Pedro Huff, Bonifrate (Ex-Supercordas), e vários outros músicos pernambucanos. A exemplo de Depois da Curva (2022), primeiro álbum que Juvenil lançou ao lado do coletivo Avoada em setembro, as 10 faixas de Um Belo Dia Nesse Inferno – que somam quase meia hora de música – são composições autorais inspiradas e pautadas na turbulência cotidiana. Vale o giro e a reflexão.

 

Larissa Mendes viveu belos dias e outros nem tanto nessa encruzilhada chamada 2022.

 

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149ª Leva - 04/2022 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

ANDRÉ LISSONGER – CANÇÕES DEMO SESSIONS 2

 

 

Apesar de ter sido feito durante a terrível situação da pandemia, CANÇÕES Demo Sessions 2, novo trabalho do músico André Lissonger, passa longe de ser um álbum sombrio e tristonho. Ou mesmo uma reunião de anêmicas bravatas “roquenrol” contra o establishment que matou mais de meio milhão.

Com uma bela capa criada pelo próprio, também artista plástico, CANÇÕES Demo Sessions 2, lançado pelo bravíssimo selo Trinca de Selos no começo de 2022, é composto por um apanhado de músicas sensíveis, cativantes e melódicas que elevam ao extremo as composições nela inseridas. Cheio de efeitos que emprestam ao trabalho aquela característica classuda e etérea (scratches instigantes, loops certeiros, vozes dobradas e ruídos meio “outonais”), as 11 faixas do álbum sofrem influência de muitos gêneros, com destaque para o Trip Hop, oscilando numa boa entre os londrinos do Morcheeba e a moçada arrasa-quarteirão da portuária e multirracial Bristol (Tricky, Massive Attack, Portishead; só para ficar na turma dos anos noventa).

Valendo-se também da onda Lo-fi, com sua mistureba relaxante de hip hop, música eletrônica e jazz, André nos surpreende tendo como princípio o espírito “demo” da coisa; espírito que pressupõe arrojo, genuína disposição para experimentar e uma boa dose de liberdade nas escolhas em geral (a vinheta “Olha, Mas Não Mexa” é um exemplo, pela “incitação” a “Girl From Ipanema” de Anitta).

André Lissonger, figura tarimbada no panorama musical baiano, com participações em diversos projetos e bandas, se trancou em casa com seu “estúdio de bolso” (nada menos que o celular pessoal da artista com uns aplicativos geniais) e decidiu viajar. Viajar para dentro – apesar da pompa do release sobre “um olhar sob a tempestade do ‘status quo’ do consumismo e sua quintessência”, ainda defendo a tese do intimismo; mais pertinente, na moral. Da necessidade de criar arranjos para as belas composições de gente como o irrequieto Tony Lopes e do também artista gráfico Joniel Franco (sem falar no “poeta das coisas simples”, Mário Quintana), esse carioca-baiano conseguiu o que, para mim, tem jeitão de proeza: converter imperfeição (basicamente a ideia de um “demo” feito num celular) em música de indubitável qualidade.

 

André Lissonger / Foto: divulgação

 

Explico: hora ou outra, o ouvinte se depara com uma voz que parece desafinar, ou mesmo com letras aparentemente ingênuas e mal trabalhadas – noções para lá de equivocadas. Entretanto, e curiosamente, foi esse combo inusitado e inteligente que me chamou a atenção logo de cara. Lissonger me fisgou pela visão do todo, pelo talento na criação e na execução das músicas, pela consciência do resultado de seu labor (a voz que supostamente desafina tem um motivo, é fruto de uma escolha, de uma concepção) e pelo já citado incomum, fatores que me fizeram pensar a obra inicialmente em termos de experimentalismo.

As letras (ou poemas) se encaixam perfeitamente nos arranjos e vice-versa, numa simbiose merecedora de elogios – e que só o fazer musical proporciona. Temos o hermetismo poético em “Topázios”, passando pela extasiante “Flutuando Sonhos”, do Tony Lopes (“A rua ruge os seus barulhos / Acalenta saudades / Ela livre apenas ri / Com os olhos no Louvre / Sinuosas linhas / Sombras / Com um sol a se opor / A solidão / Quatro paredes / Portas e janelas / Abertas / Como o sorriso / Da Mona Lisa”).

Em “Leblon” percebemos a cadência charm com um piano, enquanto na adaptação musical do texto de Mário Quintana, “Canção do Primeiro do Ano”, a batidinha meio downtempo (considerando o conceito dos 120 bpm’s; aqui bateu 82, 83, de boa) segue abrindo caminho para a complexidade do baixo e para os efeitos de uma guitarrinha wah wah, não na maneira usada no rock e no blues, por exemplo: aqui, a guitarra surge como textura e reforço à atmosfera do som.

Dessa forma, ainda que o baiano-carioca (a ordem dos fatores não altera o produto) André Lissonger não tenha pensado em experimentalismos no decorrer de seu projeto (conceitos e abstrações que só nos levam a labirintos chatos e falsamente intelectuais; o lance é fazer boa música e pronto!), o resultado de seu trabalho me causou aquele tipo de sentimento em que a gente se vê diante de algo novo, mesmo conduzido por elementos já conhecidos – a ideia de um artista em seu estúdio (celular, no caso) criando novos sons sob o método conhecido como bricollage, ou bricolagem, me agradou bastante.

Assim, mesmo que minhas ideias sobre pandemia e experimentos musicais pareçam forçar um pouco a barra na tentativa de explicar CANÇÕES Demo Sessions 2 sugiro que você, querido leitor, escute o cara. E o conheça. Quem sabe você, assim como eu, acerte as contas com a história musical, já que Lissonger está por aí há décadas. Fazendo coisas que valem demais a pena.

Torço pela longevidade dele. E de sua boa música também.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

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149ª Leva - 04/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Larissa Mendes

 

O guitarrista, compositor e vocalista da banda Flerte Flamingo, Leonardo Passovi, carrega a objetividade da juventude e a sabedoria de um ancião. O músico de Salvador recentemente trocou a Bahia pela capital paulista na companhia do baterista Igor Quadros, onde atualmente cursa Produção Fonográfica no Conservatório Musical Souza Lima. E como num desfazer de malas, Léo Passovi avalia as transições, assimila mudanças geográficas e estruturais da banda, analisa o mercado fonográfico e sua própria trajetória artística.

Formado no verão de 2015 em Salvador, “com a proposta sonora pautada na espontaneidade das canções compostas por seus integrantes”, o Flerte Flamingo faz um dos sons mais interessantes do atual cenário musical. A mistura de rock e samba com ritmos afro-brasileiros conquista pelo gingado e pelas letras espirituosas e cuidadosamente esculpidas. Hoje com 5 EPs na bagagem, Léo e sua trupe preparam-se para novas aventuras.

As influências musicais do compositor passam por Jorge Benjor, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Arctic Monkeys, Paul McCartney, The Beatles, Papooz, Summer Salt, Stevie Wonder, Kanye West e Peter, Paul & Mary. Além da banda, Léo flerta também com a literatura como colaborador da revista eletrônica Mormaço. “Culpa” esta atribuída ao leitor de Jorge Amado, Gabriel García Márquez, H.P. Lovecraft, Agatha Christie, Julio Ribeiro, Machado de Assis e Stendhal, para citar alguns autores. Lembram das tais letras cuidadosamente esculpidas? Pois é.

Em entrevista exclusiva a Diversos Afins, Leonardo Passovi aborda os novos rumos da banda (ou do atual duo ao lado de Igor Quadros), suas aspirações artísticas e analisa até mesmo os 15 minutos de Warhol reduzidos a ínfimos 15 segundos de TikTok. Enquanto isso, o Flerte Flamingo prepara-se para o lançamento do EP Truques Velhos Para Cachorros Novos e acaba de divulgar duas novas canções em formato acústico, “Calma, Carolina” e “Ano Que Vem”, para o projeto Sala de Estar. Boa leitura!

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA O último EP do Flerte Flamingo, Outras Duas Músicas de Flerte Flamingo, foi lançado há mais de um ano. O que vocês fizeram nesse ínterim e quais os planos da banda para o segundo semestre de 2022?

LEONARDO PASSOVI – De lá pra cá, muita coisa aconteceu e muita coisa mudou. Nós saímos de Salvador e viemos pra São Paulo. É um processo de adaptação que requer uma boa dose de cautela, porque nós somos muito cuidadosos com o som da banda. Mas, neste meio tempo, canções foram gravadas e devem ser lançadas neste semestre. Sem dúvidas, há coisas por vir.

 

DA – Quais os fatores determinantes para a mudança para a capital paulista?

LEONARDO PASSOVI – Foi muito mais uma questão mercadológica. Estivemos aqui no ano passado e percebemos que, para além da parceria com o Selo Rockambole, há muito terreno a ser explorado e lugares para tocar. É uma terra que pulsa música de todos os lugares, muita gente se encontra aqui. A nossa leitura foi de que esse era o momento.

 

DA – Você acredita que, mesmo com a era digital, ainda é importante “sair da aldeia” para inserir-se no eixo musical concentrado entre Rio-São Paulo?

LEONARDO PASSOVI – Mesmo na era digital, algumas coisas nunca mudarão. O digital facilita em muitas formas, mas não se pode viver disso. A música ao vivo sempre vai se sobrepor. Pode-se ter o alcance cibernético que for, se não se traduzir em presença, de palco e de público, é telhado de vidro, castelo de cartas. O off-line sempre foi o nosso forte, botar 200, 300 pessoas num inferninho e fazer todo mundo dançar e cantar. Esse é o resultado mais prazeroso da nossa expressão musical: a conexão direta com a energia e o calor de quem gosta do som. Depois da pandemia, muita coisa ficou sucateada em Salvador, e em São Paulo há muito a ser explorado. Apenas há de se fazer as coisas com calma e equilíbrio pra que dê tudo certo.

 

DA – Por falar nisso, como vem sendo o processo de retorno aos palcos nesse período pós-pandêmico?

LEONARDO PASSOVI – O retorno aos palcos ainda não aconteceu de fato, porque a mudança pra São Paulo implicou também uma mudança na formação da banda.

 

DA – César Neto (baixo), Rodrigo Santos (teclado) e Igor Quadros (bateria) não vieram para São Paulo com você? Aliás, a banda sofreu algumas alterações de integrantes desde sua formação, em 2015. Como você analisa essas transições e quais as influências musicais que cada um trouxe?

LEONARDO PASSOVI – Viemos para São Paulo eu e Igor. As mudanças na formação, de 2017 até 2021, todas tinham sido na bateria, tirando um período de 6 meses em que César esteve fora do país e foi temporariamente substituído. Desde 2019, quando Igor entrou, a formação vinha sendo essencialmente a mesma. Apenas no último trabalho lançado, que Igor estava na França e Gabriel Burgos gravou a bateria das canções. Nosso som, desde os primeiros EPs, teve uma identidade singular, que eu acredito que se manteve, na medida que evoluiu ao longo tempo, seja por ideias novas e melhores, seja por mais intimidade com os processos de produção, gravação e interação entre os músicos. Cada um dos que passaram pelo conjunto contribuiu com sua particularidade e individualidade para o todo, mas a espinha dorsal tem sua linearidade. Esse, na verdade, é o momento em que certamente essas mudanças serão mais sentidas. Estamos medindo bem a temperatura da água antes de entrar.

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA – Como é a tarefa de manter aceso o espírito da banda em meio a tantas mudanças?

LEONARDO PASSOVI – Enquanto há canções para serem colocadas na rua, o espírito se manterá vivo, não importa o que aconteça. Não é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto se imagina. Mas sem dúvidas é a música que faz tudo isso andar.

 

DA – Os EPs Postura e Água Fresca (2017) e Espero Que Você Entenda (2020), além de uma sonoridade que remete a uma certa nostalgia, possui a temática voltada para letras “baseadas em fatos reais”. O que inspira o Léo Passovi compositor?

LEONARDO PASSOVI – Do que nós temos até agora pra tirar como amostragem, realmente são sempre situações de relações humanas, relações amorosas, como 98% das músicas no mundo. Só que acaba sendo muito mais sobre como o eu lírico se sente do que contando uma história. Não tem tanto o viés narrativo quanto o viés confessional das emoções. É uma forma de canalizar o que se sente enquanto provoca uma ou outra franzida de sobrancelha em quem sabe o que está por trás daquilo.

 

DA – Por falar em “viés narrativo”, você é um dos colaboradores da revista eletrônica da Mormaço (editora independente de literatura contemporânea). Como surgiu o convite e qual sua relação com a literatura?

LEONARDO PASSOVI – Entrei na revista quando ela ainda estava muito no começo. Um grande amigo meu faz parte da editora da qual a revista faz parte, e me chamou. À época, eu devia ter escrito um ou dois contos na vida. Mas assumir o compromisso de escrever mensalmente deu um novo gás à expressão criativa. Na infância e adolescência, li menos do que gosto de admitir. Mas tenho tentado tirar o atraso. Sempre gostei de contar história e acessar emoções das pessoas através de fatos. A escrita possibilita uma escolha das palavras certas e definitivas com as quais essas emoções serão provocadas. Além de ter, quase sempre, um toque de terapêutico. Eu recomendo a praticamente todo mundo que pratique a escrita no dia a dia.

 

DA – Em que medida o Léo Passovi compositor se converge com o Léo Passovi escritor?

LEONARDO PASSOVI – Difícil é saber em que medida eles se separam. É o mesmo jeito coloquial, conversativo de se comunicar com quem consome o material, seja lendo ou ouvindo. Quase sempre focando no que a personagem em questão sentiu. Mas enquanto um é em prosa, o outro é cantado; enquanto um tem começo meio o fim, o outro faz uma miscelânea de sentimentos que aos poucos situam o ouvinte.

 

DA – Como é seu processo de composição? É um processo solitário como na escrita ou ao contrário, você prefere as parcerias musicais?

LEONARDO PASSOVI – Completamente solitário. Já fiz parcerias, mas meu ritmo é muito particular, não é muito consistente e o processo acaba sendo muito íntimo e individual. Eu costumo precisar me acostumar muito com a escolha de palavras + melodias antes de dividir. Preciso ter certeza que encontrei a melhor junção. Ainda preciso desencanar e desapegar um pouco de certas agruras do processo pra poder fazer em companhia de outras pessoas. Mas já aconteceu, tanto de escrever com outras pessoas, como de escrever canções diante de pessoas.

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA– Você tem vontade de lançar um projeto solo? Qual a característica do seu trabalho individual que não “caberia” na banda?

LEONARDO PASSOVI – Todo trabalho que eu faço musicalmente é pensando na banda. Muito pontual eu criar algo sem esse propósito. A não ser que seja por pura diversão. Mesmo as coisas que eu componho que não se encaixam com o momento da banda são com o propósito de virar o próximo momento da banda. Flerte Flamingo é o combustível das minhas criações musicais.

 

DA – Como você avalia esse processo de “tiktokzação” da música e a pressão de selos e gravadoras para que os artistas recorram à plataforma para viralizar seus singles?

LEONARDO PASSOVI – Preocupante. Intensifica o imediatismo para com os resultados, enlata um formato desgastante e desgastado. Obriga pessoas que normalmente não têm costume de se comunicar dessa forma a mendigar atenção de maneira patética. Toda a papagaiada das dancinhas, das trends, da ânsia por viralização faz mal a uma multidão e beneficia um ou outro sem nenhum tipo de critério. É um terreno ainda muito movediço, todos os envolvidos ainda estão tateando. Os responsáveis pela elaboração de estratégias que se voltam pra essas ferramentas tentam encontrar algum padrão, mas isso é muito ilusório, porque a qualquer momento algo completamente despropositado rouba a atenção de todos, virando a “nova fórmula”. Enquanto isso, o mundo da música, como parte do mundo do entretenimento, tenta se espremer por ali, suplicando que 15s de música sejam ouvidos, senão a atenção do usuário já foi embora. Ninguém faz 15 segundos de música. Uma canção tem um propósito, uma proposta estética, uma sequência de momentos de humores que empobrecem muito se o foco for criar 15 segundos viralizáveis. É muito triste ver um universo tão rico se submetendo a essas ferramentas por dificuldade de conseguir atenção e financiamento. Vendem isso como uma parte de ser empreendedor, mas na verdade aquilo é a tecnologia fazendo as pessoas literalmente dançarem pra conseguir um tostão de atenção, pelo pavor do esquecimento e pelo desespero pra alcançar alguma concepção de sucesso. Vez por outra, assopra algum vento contrário, algum eco de reação em nome da salubridade das pessoas e dos processos, que dá uma fagulha de esperança a quem percebe o mal que isso faz. Mas é tão inútil dizer que isso é passageiro quanto é dizer que é duradouro. A gente nunca sabe o que vem depois. Mas, nesse quesito específico, as perspectivas não são animadoras.

 

DA – É possível conceber a vida sem a arte? Qual sua maior “munição” enquanto artista?

LEONARDO PASSOVI – Nos últimos anos ficou bem claro que a arte é o forro interno que nos mantém sãos. Muito mais do que mero entretenimento, é a vida se olhando em espelhos. A arte joga luz sobre as coisas que a vida prática esfumaça. A função do artista é observar, apontar o dedo é falar “ói”, pra que as pessoas vejam o que elas não estavam prestando atenção. Mas o artista também é gente. Então tem hora que o artista simplesmente vai querer falar sobre como ele se sentiu. E isso toca a pessoa na medida em que ela sentiu aquilo também, ou apenas empatiza com uma forma convincente de expressão. A munição é a capacidade de observação e as experiências alucinantes que a vida propicia. As menores coisas podem virar as maiores presepadas. A beleza tá em saber retratar.

 

Larissa Mendes espera que você entenda sua predileção por conversas profundas, postura e água fresca.  

 

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148ª Leva - 03/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Larissa Mendes

 

Árdua tarefa tentar descrever um ser peculiar como Juvenil Silva. Aura despretensiosa de artista, veia de poeta, prosa (boa) de trovador. É alma pernambucana, carne de Carnaval, casca rachada de caranguejo. E por falar em prosa, como é bom debruçar-se sobre as reflexões nada juvenis do “compositor, tocador e cantante”, como define a bio de sua conta no Instagram. É bom ouvi-lo filosofar sobre os efeitos da pandemia em nós mesmos e sobre seus discos, ou melhor, sobre seus “álbuns de fotografias abstratas”.

Juvenil nasceu autodidata e já trocou uma bicicleta por um contrabaixo, quando criança. Iniciou sua trajetória na banda Canivetes, foi agitador cultural por uma década no A Noite do Desbunde Elétrico (conhecido como “o festival anual de rock independente ou a noite mais doida do ano”, em Recife) e atualmente concilia três projetos paralelos (Avoada, Dunas do Barato e A Banda dos Corações Selvagens). Além de seu trabalho solo, ainda comanda seu próprio selo musical e é idealizador de projetos como o Discos Offline ou Vende-se Música. É um acumulador de funções artísticas e um aglutinador nato.

Não é fácil também seguir trilhando um caminho musical há mais de duas décadas pela cena independente. E se tem uma coisa que Juvenil sabe, é ser livre, seguir como um pássaro seus próprios fluxos estéticos e não se dobrar a nenhuma tendência migratória. Talvez o artifício sejam as “canções coracionais” desse eterno psicodélico. Por ora, seus próximos voos reservam o lançamento do primeiro disco de seu projeto coletivo Avoada e de seu quinto álbum solo.

Esta conversa sem pressa, “sem relógios”, como o nome de seu single mais recente, reflete algumas considerações da mente criativa e do coração generoso desse sujeito consciente e engajado, amante das plantas, dos gatos e da arte – no sentido mais genuíno da palavra. Um encontro do Juvenil menino com o Juvenil maduro celebrado em nossa Pequena Sabatina ao Artista.

 

Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova

 

DA – Praticamente 9 meses (uma gestação inteira) separam o lançamento de Lonjura (2021), seu álbum mais recente, do seu retorno “oficial” aos palcos. Qual o impacto dessa distância (ou dessa “lonjura”) entre o lançamento do disco e a retomada dos shows com público?

JUVENIL SILVA – Pra ser franco, ainda não me sinto de volta. Não sinto esse “retorno oficial aos palcos”. Não como antes, talvez nunca seja como antes, talvez seja melhor algum dia, ou mesmo parecido. Mas no momento ainda me sinto dentro dessa “Lonjura”. Por exemplo, o EP foi lançado, mas nunca executado ao vivo. Nunca houve show de lançamento. De algumas pequenas apresentações que tenho feito, ainda não sinto algo forte, real, presente. Acredito que isso se deve mais a mim mesmo. Às vezes, a gente vai tão longe lá dentro que fica sem saber por onde, nem como voltar. Mas por ora, tô mais interessado em ir, seguir. Só pra ver no que vai dar.

 

DA – Apesar do isolamento social no qual foi concebido, o Lonjura teve inúmeras parcerias. Você ainda pretende fazer um show/turnê de lançamento? Ou você acredita que este EP em particular funcionou como uma espécie de registro, um recorte desse momento introspectivo pelo qual todos nós passamos (e ainda carregamos sequelas)? Qual o significado desse disco para você?

JUVENIL SILVA – Sim, meus discos são recortes do tempo, álbuns de fotografias abstratas. Espelhos emocionais do subconsciente. Sobre a produção do EP, é mais sobre um mergulho prazeroso nas possibilidades do que um aperreio com as dificuldades que o isolamento trouxe. Explorei ao máximo isso de gravar com vários músicos, cada faixa traz uma galera diferente e de lugares distintos. Algo que antes era mais resumido a ensaiar com uma banda e gravar. No período de isolamento eu me reconectei com pessoas que estavam perdidas nessa “lonjura”, que mais existe dentro de nós mesmos. Pois perdidos ficamos em nosso emaranhado universo de afazeres, demandas e péssima utilização de nosso tempo.

 

DA – Como você avalia o atual papel da arte e do artista diante dessa “poluição midiática”, calcada em excesso de informação e escassez de conteúdo, e ancorada em algoritmos, militância e inquisição virtual?

JUVENIL SILVA – Em relação ao papel da arte, acredito que é algo que deve ser livre de qualquer coisa. Por mais que na mídia a gente tem visto ela sendo explorada de modo tão engessado. É triste, o capitalismo sempre fez esse joguinho sujo. Se apropria de culturas, discursos, bandeiras… A qualquer custo. Mas a arte em si, (r)existe para além disso. Eu não tenho muita paciência para seguir tendências, só sigo um próprio fluxo de ciclos estéticos que vão deslanchando naturalmente. Por mais que, na maioria das vezes, aparentemente, eu esteja de ré na contra mão (risos). Sinto que vivemos numa espécie de saturação dos sentidos em relação à arte. Um tedioso fast food cultural. A gente come tão rápido que nem sente o gosto e depois vem outra coisa e depois outra, não se degusta e nem se absorve direito. Essa entrevista, por exemplo, a maioria das pessoas vai ler apenas a chamada da matéria, algumas vão até compartilhar mesmo sem ler, outras vão ler pelo menos o começo… (Oi pra você que leu até aqui!). Infelizmente, toda essa avalanche de informação não nos torna mais sábios e sim pelo contrário, é tudo tão ligeiro que nem temos tempo pra pensar direito.  E a festa continua, seja lá como a coisa esteja.

 

Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova

 

DA – O que nos reserva o próximo fluxo de Juvenil Silva? Um novo álbum, uma nova produção?

JUVENIL SILVA – Faz tempo que não lanço um álbum cheio, né? O “Suspenso” é de 2018. Talvez eu ande meio desacreditado desse formato. Não por ele em si, pois amo ouvir álbuns, mas pelo modo que as pessoas vêm consumindo música. Bem, tenho um disco guardado e pode ser lançado a qualquer momento. Em janeiro lancei um single dele, a faixa “Sem Relógios”. Na verdade, são 7 canções, daí existe uma dúvida em deixar como EP ou pôr mais músicas e fechar um álbum completo. Também estou imerso nas gravações do primeiro álbum do projeto coletivo “Avoada”. Ambas as produções serão lançadas ainda este ano. Acredito que o meu sai ainda este semestre e se chamará “Um Belo Dia Nesse Inferno”. Nome que seria do meu primeiro disco, lá em 2013. Não só o nome, mas também a estética. Pois desde o início eu queria lançar um disco de folk psicodélico, acabou que fiz algo mais rock psicodélico, folk rock… Mas agora vai. Recomeçando da maneira que eu iria começar.

 

DA – Por falar em Avoada, esse não é o único projeto coletivo que você participa. Você ainda integra o Dunas do Barato e A Banda dos Corações Selvagens. Quais as peculiaridades de cada projeto e como você consegue conciliá-los com sua carreira solo?

JUVENIL SILVA – Esses projetos coletivos requerem um pouco mais de disciplina e compromisso do que meu trabalho solo, pois envolvem outras pessoas. São vários fluxos alinhados para que se possa fazer algo. Mas também é onde posso aproveitar minha versatilidade no exercício de compor. Na Dunas do Barato, eu trago um material mais voltado pra música brasileira, a banda tem bastante influência dos Tropicalistas. Na Avoada, usamos a canção como veículo de luta. O coletivo foi praticamente formado pra meter o pau nesse desgoverno e fazer isso usando a canção numa estética mais rural, regional, folk. Além desses projetos, que são autorais, tem A Banda dos Corações Selvagens, que faz uma releitura ácida e psicodélica da obra do Belchior, e também o trabalho com o selo Plurivox, com Tonho Nolasco, onde além de gravar e produzir nossas coisas, estamos fazendo a produção fonográfica de outros artistas. De alguma forma, minha carreira solo permeia tranquilamente entre tudo isso e mais um pouco.

 

DA – Como surgiu a ideia do selo Plurivox? Como funciona a captação de novos artistas para a gravadora? O estúdio já está finalizado?

JUVENIL SILVA – A Plurivox surgiu quando na pandemia comecei a aprender a gravar para fazer meus “Discos off line”, álbuns que gravei e não lancei, apenas vendi. Com a construção do estúdio, que ainda não terminou, e com a troca constante e experimentos com o músico e produtor Tonho Nolasco e a designer Natália Amorim, a coisa foi surgindo naturalmente. Além de gravar nossas coisas, começamos a produzir artistas próximos que admiramos. Até então lançamos alguns singles da Flor de Jacinto e Marcionílio. Outros artistas e propostas estão sendo avaliadas. Ainda esse ano teremos vários lançamentos.

 

Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova

 

DA – Seu projeto Discos Off-line funciona como um chapéu virtual enquanto o artista toca na rua e já rendeu 8 EPs. Como tem sido a receptividade do público ao projeto? Você pretende continuar com esses lançamentos ou, de repente, lançá-los em outra plataforma?

JUVENIL SILVA – Os Discos Off-line foram 8 ao todo, “Isolamento Acústico”, “Isolamento Acústico Vol 2”, “Não Amolem os Canivetes”, “Cinzas de um Ano Morto”, esses de 2020. Em 2021, teve “Calendário dos Sonhos”, “Farol das Esperanças”, “Coracionalismo” e uma versão diferente do “Lonjura”, com arte diferente e mais músicas do que o EP lançado. Esse projeto foi algo de guerrilha mesmo, algo emergencial e cumpriu bem o seu papel. Teve uma ótima recepção da mídia e do público. Saíram várias matérias sobre e muita gente comprou. O valor era espontâneo, às vezes compravam um disco por 10, 20 reais, mas, às vezes, 50, 100 ou até mais. Não penso em seguir com esse projeto, pois foi algo estratégico para esse período de isolamento em que não havia possibilidade para shows e outros trabalhos mais. Os Discos Off-line e editais, como o Aldir Blanc, me ajudaram a segurar a barra financeira desses dias impossíveis. Agora, mesmo ainda sentindo que não voltamos por completo com os shows, pelo menos existem possibilidades. Vamos a elas. Saudade da estrada… Cheguei até a fazer alguns shows em São Paulo, mas tenho tocado mais pelo Nordeste. Mas vamos em frente, seguindo e passando de acordo com abrir das porteiras.

 

DA – Qual a diferença do Juvenil do A Noite do Desbunde Elétrico (festival de rock underground de Recife) para o Juvenil de hoje?

JUVENIL SILVA – O Desbunde Elétrico era um festival que eu e uma turma de outras bandas fazíamos, começou em 2007 e foi até 2016, se não me engano… Ao passar dos anos, ficou sendo produzido mais por mim mesmo. Naquela época, eu tocava com a Canivetes, banda de rock sessentista e psicodélico, com a Dunas do Barato, que fazia um som mais tropicalista e, depois, meu trampo solo. A diferença de hoje em dia, além de mais de uma década de juventude (risos), é que eu era ainda mais maluco e despreocupado, com o tempo a gente vai ficando mais sério mesmo, percebendo o tanto de coisa que acontece ao nosso redor e dentro de nós mesmos. Isso dá pra ver bem nas letras que escrevo. Se comparar as de hoje em dia com as primeiras composições gravadas nas bandas e na carreira solo… Depois do golpe, Bolsonaro, pandemia, términos de relacionamentos e outros tantos traumas, ninguém é mais o mesmo.

 

DA – Entre lonjuras e avoadas, suspenso ou no meio de lugar algum, o que mais o estimula a seguir trilhando sua estrada musical?

JUVENIL SILVA – Desde que me entendo por gente, me sinto artista, desde os rabiscos mais bobos nos caderninhos… Depois do primeiro violão, pronto. Não tenho, nem quero saída. É o que amo e sei fazer… Esse foi o caminho que escolhi, mesmo com todos e tudo na vida tentando me afunilar para um outro caminho. Àquele que dizem ser o correto: estudar, ter um emprego fixo, casar, ter filhos e morrer temente a Deus. Pois é, fui criado em família evangélica. Temores, hipocrisia e promessas de um paraíso pós-vida, no qual toquei o foda-se e fui atrás do meu próprio paraíso, no aqui e no agora. E não existe outra forma de viver isso, sem o tesão e amor naquilo que se faz. Sejamos plenos, triunfantes e nada menos que isso.

 

Larissa Mendes já viveu dias impossíveis, mas hoje, na medida do possível, se considera feliz.