Categorias
149ª Leva - 04/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

CONTEMPORÂNEA PELO AVESSO

Por Sandro Ornellas

 

 

Acabo de ler Danny, narrativa escrita por Maria Elvira Brito Campos, publicada em 2022, em bonita edição de bolso pela piauiense Cancioneiro. Novela lírica, melancólica e, de certa forma, geracional, o que me tocou particularmente. Como diz Antonio Candido em famoso prefácio a Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Hollanda: “a certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço do passado sem cair na autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro de muitos”. E a narrativa de Maria Elvira, sem ser propriamente seu testemunho, possui algo do teor testemunhal que diz de uma experiência geracional, mesmo quando ficcionalizada. A própria prefaciadora, Katia Borges, diz que o personagem título “se parece muito com os melhores amigos que tive”.

E do que trata Danny em seus 45 pequenos capítulos, quase fragmentos, vários com um único parágrafo? Da errância melancólica do seu protagonista ao longo dos dias, encarando uma grave doença – nomeada apenas como “a bola cinza” no interior da sua cabeça –, da fiel amizade de Laura, das paixões e amores fugidios e irrealizáveis de ambos, de suas solidões, compartilhadas ou não, do seu confinamento e da consciência do envelhecimento. Embora pudessem ser tratados de modo independente, todos esses “temas”, digamos assim, vão e vem ao sabor do humor dos personagens no fluxo narrativo, pois a autora investiga a experiência de ambos, não os “temas” em si.

São personagens que possuem, por um lado, traços relativamente específicos. Danny é artista plástico e Laura, tradutora. Mas não é isso que está em questão na história, cujo foco varia de um para o outro, com ênfase sempre maior na expectativa de Danny com a cirurgia e em seu cotidiano entorpecido à base de remédios, mesmo depois de livre da “bola cinza”. Ele vive com dois gatos; ela com um cachorro. E formam um retrato cuja melhor definição ao longo das páginas me aparece no capítulo 26:

 

“Laura estava triste. Foi até a sacada, pensou em Danny. Um sobrevivente. Tão pouco e tudo. Pássaros na garganta. Ela sabia que não estava preparada para nada disso de novo.

Janelas abertas. Coisa boa é morar no primeiro andar. Laura sorriu para as crianças na rua e voltou para a sala. Sentou-se no sofá, seu cantinho gostoso, medicou os dedos, Johnny lhe fez um afago, quando o telefone tocou: Hey, sugar, take a walk on the wild side.

Danny sempre a salvava!”

 

É assim, acompanhados pela trilha sonora de Lou Reed, somos conduzidos por uma narrativa cheia de desvãos afetivos e líricos e de certa forma cúmplice dos dois personagens sobreviventes do último quarto do século XX. É essa cumplicidade que cria, por outro lado, o aspecto geracional que sublinho na narrativa, seja pelas referências explícitas, seja pelas implícitas.

Há algo de selvagem e inocente na história escrita por Maria Elvira. Selvagem e inocente como a canção de Lou Reed e as histórias dos que não sobreviveram àquele quarto de século: Caio F., Ana C., Leonilson, Cazuza, Renato Russo, dentre tantos outros que se pareceriam com Danny e Laura, se tivessem vencido o fato de crescerem durante a ditadura, a mesma que levou muitos à loucura, ao suicídio e, de certa forma, se prolongou matando outros através da epidemia do HIV. Sobreviventes, selvagens e inocentes, Danny e Laura vestem a melancolia de uma geração que chegou à segunda década do século XXI fragilmente equilibrando solidão e amizade, tesão fugaz e esperanças de amor, lucidez e entorpecimento, juventude e envelhecimento, vida e morte. O eixo que sustenta esses pratos na história é a melancolia que os personagens carregam, embalados por canções daquele quarto de século, que parece não os ter abandonado e lhes dá uma aura de tristeza, que, todavia, traz muito da beleza narrativa de Danny.

Na minha leitura, apenas em dois momentos percebi tratar-se na verdade de uma história do século XXI. Quando Danny, flertando imaginariamente com Bruno, pensa nas diferentes referências entre ambos: “Em tempos de aplicativo, Bruno não iria compreender essa referência tão Satellitie of love, tão David Bowie em Marte, tão fora daquele mundo…”; e quando, depois de repentinas descrições do silêncio e vazio das ruas, Laura obriga Danny a se mudar para sua casa, manda-o tomar banho seguindo “protocolos” e fala-se em “confinamento”, em menção cifrada à pandemia da Covid-19.

Talvez haja mais indicativos dessas duas primeiras décadas do atual XXI, mas a extemporaneidade da narrativa e dos dois personagens, seu descolamento subjetivo em relação ao mundo social e as referências musicais citadas ao longo do texto não deixam dúvida tratar-se de “sobreviventes”. Eu diria mesmo que a narrativa de Maria Elvira é uma narrativa sobrevivente, pois lança mão de uma atmosfera pop até certo ponto datada, em relação ao que passou a se escrever no século XXI. E aí está muito do charme dessa história. Se a profecia de Andy Warhol sobre a cultura pop foi de que todos teriam direito a quinze minutos de fama, para depois cair no ostracismo, esses quinze minutos acabam funcionando como referências histórico-geracionais. Se a cultura pop vive da descartabilidade, ela também permite entender muito da segunda metade do século XX através, por exemplo, da trilha sonora, como é o caso, em Danny, de Lou Reed, Gracie Jones, Patti Smith e David Bowie rondando todo o tempo a vida dos personagens. E é muito com o espírito de Lou Reed que a narrativa se constrói, transformando Danny e Laura em alguns dos personagens do álbum Transformer, de 1972, do compositor novaiorquino.

Se há um pop alegre e festivo, registre-se que o pop de Danny, no entanto, é triste e sombrio. E é justo aí que percebo sua maior contemporaneidade. A contradição do pop, desde as ampliações fotorrealistas de acidentes fatais feitas por Warhol, hoje estão mais visíveis do que nunca. Ídolos teen do pop coreano (e não só eles) se suicidam em série, mostrando os limites tóxicos da felicidade e esperança vendidas pela indústria do entretenimento. Já a melancolia e solidão de Danny e Laura, se inicialmente faz sentido serem lidas como de uma geração que envelheceu, também tem muito a ensinar à geração que cresce sob as tecnomaravilhas virtuais do neoliberalismo e que sofre igualmente, ou talvez ainda mais cedo, do que quem chegou à pandemia com pouco mais de cinquenta anos.

Danny, portanto, possui o que um pensador disse tratar-se da definição do contemporâneo: o obscuro, o invisível, o solitário, o sombrio e desatualizado, em um mundo no qual tudo e todos buscam ser visíveis, alegres, festivos, produtivos e estar no fluxo e na moda. Concluo a leitura assim, com a sensação de que Danny é uma narrativa contemporânea pelo avesso, conseguindo falar daquilo que todos sabem estar à espreita, mas a que ninguém se refere por estar fora de moda.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.

 

 

Categorias
146ª Leva - 01/2022 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Zuca Sardan & Floriano Martins

 

Foto: Fátima Soll

 

LA MAGNA IMPORTANCIA EN LA HISTORIA SANTA Y PROFANA DEL POPOKATEPLEK

 

ZUCA SARDAN

Hay ahora una grande polémica diplomática en la ONU, una acerba disputa que opone el México a L’Italia. Los italianos contestan que el Popokateplek sea más importante que el Vesuvio, en la Historia Geológica y en La Historia Sagrada. Del punto de vista de potencia volcánica, el Popokateplek es un volcán de plena y formidable potencia, capaz aún en nuestros días de lanzar llamas y vapores hasta centenas de metros de altura… Al paso que el Vesuvio, en los días de hoy, no expele más nada, ni siquiera la fumarola que encantaba los pintores hasta la Queda de la Bastilla, y sobre todo después de la Batalla de Waterloo, sobrando solamente el encanto, para los turistas, de su fumarola, hasta la primera mitad del siglo XX, cuando la fumarola se acabó, de una vez por todas. Cuanto a la Historia Sacra, el Vesuvio fue superado por el Ararat, donde se tendría acostado, al fin del Diluvio, la Arca de Noé. Pero el Doctor Zapata acredita, basado en sus excavaciones, que el Ararat no presenta la más mínima erupción, a rigor no es siquiera un volcán, ni tampoco un volcanoide sin cratera… Así, del punto de vista geológico no ofrece condiciones de compararse a nuestro imponente y fogoso Popokateplek. Ahora resta la Historia Santa. Ora, las revelaciones en la Biblia sobre la saga de Noé, fueron hechas siglos Antes de Cristo, cuando los Hebreus, y todos los Pueblos de Europa, África a Asia, no tenían la menor noción de la existencia de las Américas. Entonces los relatores de los hechos bíblicos no tenían la más mínima idea da la existencia del Popokateplek, e imaginaran que la Arca se hubiera acostado en el Ararat… Pero el Diluvio fue mucho más fuerte de todo lo que se pudieran imaginar los sabios de la Antigüedad. Tanto el Vesuvio cuanto el Ararat estuvieron sumergidos por el Diluvio. Solo el Popokateplek ofrecia condiciones de un seguro acostamiento de la Arca. No obstante estas consideraciones geológicas, siguen los armenios y los italianos negando la primacía del Popokateplek, en el salvamento de la Humanidad y de todos los animales, a excepción de los peces, que viven en el agua y… de los dinosaurios de que el tamaño colosal tornó imposible ingresarlos en la Arca, y acabaron todos muriendo ahogados.

 

DOC FLOYD

Uma vez publicada tal saga nos papiros de arroz Valkiria, o centro do mundo deixou de ser aquela região do Ararat, passando a terra Santa a ser banhada pelas águas do Amazonas. E a história, que sempre teve uma tara pelas distorções, conserva o segredo de sua origem em uma arca de pau d’arco no fundo falso de uma barcaça que sobe e desce o rio Negro. A chave da arca é um mistério que a cobra Nosferatu guarda em seu estômago.

 

ZUCA SARDAN

Floriano, era isso que eu bem imaginava…

 

DOC FLOYD

Mas no fundo as coisas nunca são como as imaginamos…

 

ZUCA SARDAN

E muito menos como elas próprias pensam que são.

 

DOC FLOYD

Esta é já uma clássica confusão. Daí que hoje em dia os classificados já procuram por pitonisas que não façam a menor ideia de seu trabalho.

 

ZUCA SARDAN

Quanto menos ideia de seu atualmente mercantilizado trabalho, e mais louca seja a pitonisa, melhor poderá se realizar a verdadeira prática oracular.

 

DOC FLOYD

As pitonisas cantam e oram
enquanto varrem o chão
preparando o tablado
para a próxima sessão.
O ministro Delgado
disse a elas que à noite
vai contornar a lua
com o cetim dos sonhos
e um coro de sapinhos
com os olhos esbugalhados
decifrarão os futuros
de cada alma lavada…

 

ZUCA SARDAN

Para lavar alma precisa água-raz e… a Pílula do Esquecimento do Doutor Radar.

 

DOC FLOYD

Mais da metade das almas ao menos desconfia que futuro algum terão. Aquelas que imaginam ser tocadas por algum esfregão da sorte, fazem cara de comidinhas do destino e conspiram contra as demais.

 

ZUCA SARDAN

Não ter aporrinhação futura alguma, e sumir sem pagar as dívidas… é o Calote Metaphysico… saborear o sossego eterno prometido pela Modernidade… Livre enfim do Tribunal das Lambadas de Ultratumba.

 

DOC FLOYD

Foi assim que um dia desses a Modernidade parou de cantar em sua gaiola de cristal. E os querubins de pasto pequeno em uníssono exigiam que ela fosse para a panela. A boia era a última das quimeras.

 

ZUCA SARDAN

Segundo o Peru da Modernidade, a Perua da Vida Eterna rebola melhor… Mas como ele não bobeia com as aparências… desconfia que o rabão supino é coisa da Costureira Celeste. Quando chegar o Natal… ele acabará na panela.

 

DOC FLOYD

A Modernidade sempre foi o grande dilema de Cronos, porque ela trucidou o futuro e congelou o presente. A seus olhos tudo é passado e só ela reina impiedosa.

 

ZUCA SARDAN

A Modernidade é hoje coisa do passado. A Pós-Modernidade se pinta e se emperequeta… Saturno boceja, e dá uma afiada na foice… O Corcunda Corco se coça e toca a badalada vesperal.

 

DOC FLOYD

Os grilos sorrateiros desafinam todos os instrumentos no auge da noite sonolenta…

 

ZUCA SARDAN

Entra o Corvo Edgar… para acabar com a baderna… Súbito silêncio…

 

CORVO EDGAR

Acabem com essa zoeira grilos jecas, e não voltem NUNCA MAIS…

 

CORCOVO

(Acompanhando no carrilhão o espinafro do Edgar) Bong… Bong… Bong …

 

DOC FLOYD

As morsas tiram a poeira dos sextantes. Temos que rever as nossas cartas de navegação. Ainda ontem íamos a toda força a estibordo. Agora a deriva sorri e nos abre os braços.

 

ZUCA SARDAN

Sem o imprevisto, não haveria surpresas. Sem surpresas, a vida torna-se sem graça. Mas só encontra o imprevisto quem souber esperá-lo. Quem não esperar o imprevisto, jamais o encontrará.

 

DOC FLOYD

Que diabos de capirôto é esse que escreve uma lenda em que os tupiniquins se debruçam no ombro da estrada à espera do… inesperado! Pois afinal, oh dramalhão de quinta, eivado de paradoxos amanteigados, como pode ser inesperado sendo tão esperado!!!

 

ZUCA SARDAN

Pois é… a sorte favorece a audácia!… Como dizia o Danton: Audácia! e sempre Audácia!… E o inesperado não deve ser esperado na banheira, ou chega a Charlotte Corday e passa-te a faca!… como aconteceu com o … plec! plec!… o… Marat!… morreu com um papel na mão… escrevia na banheira seus violentos artigos.

 

DOC FLOYD

Morrer com um papel na mão, é haver sido impedido de uma última representação. Dizem que a banheira de Marat está guardada no porão do Louvre, que até hoje há uma nódoa de sangue em um pequeno rasgo no quarrycast da velha banheira vitoriana…

 

ZUCA SARDAN

Marat era muito doente e passava grande parte do dia dentro da banheira. E dentro da banheira escrevia, mediante uns apoios de madeira que lhe serviam de mesa. Diariamente ia almoçar no Café Procope, que até hoje existe, na mesma rua em que habitava, na Rive Gauche, onde o editor de seu jornal, localizado na mesmíssima rua, despachava um mensageiro para ir recolher o manuscrito que Marat trazia para o Café, de modo a dar-lhe umas derradeiras penadas. Quando estive em Paris, durante um ano, em 1957, na Rive Gauche, eu ia quase diariamente almoçar no Procope, que era então bem baratinho, sempre orgulhoso de seu passado histórico, e tinha retratos ovais grandes, em molduras douradas, com os retratos de todos os personagens históricos que o haviam frequentado nos tempos da Revolução. Os retratos eram fidedignos, em tamanho natural, mas visivelmente cópias, em cartão, de quadros originais, ou recopiados, por algum pintor-artesão hábil, de alguma gravura representando tal ou qual personagem. O proprietário, que tinha suas fumaças literárias, era muito amável, e seu gato vivia dentro do Restaurante, e cismava de se enroscar ou subir na cabeça de algum freguês, ou freguesa, que lhe parecesse mais simpático. Há poucos dias, vi um documentário francês recentíssimo, sobre o Café Procope e está de um luxo extraordinário, mantendo o aspecto histórico na sua reforma total. Uma cozinha super-sofisticada, e caríssima, garçons com roupas antigas, nada a ver com o café-restaurante, servido por garçonetes velhotas, que eu havia frequentado.

 

DOC FLOYD

Talvez o papel viesse embebido em sangue da revolução que almejara. A história é fascinada pela borra de café das quimeras. Os sonhos são defumados com precisão. As fumaças que saem pelas escotilhas, chaminés e cozinhas papais. Um batuque ao vento anunciando as glórias e catástrofes da combalida história. O que restou da Modernidade é esse vício de labirintos, essa gravação repetida da voz das nações. A carta magna dos insucessos.

…e a cortina desabando sobre nossas cabeças….

 

Zuca Sardan (1933). Poeta e desenhista.  Autor de várias peças de teatro escritas a quatro mãos com Floriano Martins. Contato: zuca.saldanha@gmx.de

Floriano Martins (1957). Poeta, ensaísta, dramaturgo, editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Autor de várias peças de teatro escritas a quatro mãos com Zuca Sardan. Contato: floriano.agulha@gmail.com

 

Categorias
129ª Leva - 01/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Zuca Sardan e Floriano Martins

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Jurema e o tesão amaldiçoado

 

A noite já tinha entrado nos estratos mais bem forrados da goiabeira divina quando de lá do quintal saltaram dois mancos presumindo que a escuridão e uma velha lamparina da chama gasta poderiam dar ao mundo a miragem de novas divindades.

 

MANCO TONEL

Ando colando em cartas vulcânicas as figuras que darão pelo fim, eventual, do encadeamento lógico da espécie humana.

 

SÁBIO DETÔKA

O encadeamento lógico é o que levará a espécie humana à sua extinção. Sua única chance é enrolar o encadeamento no pé-de-manga, e ir saindo de mansinho…

 

MANCO TONEL

Mas aí tem um dilema eterno: o pé-de-manga insiste em não sair do lugar, argumenta que ficou imenso, e cresce cada vez mais a devorar a sombra da planície das ilusões inteira…

 

SÁBIO DETÔKA

Trata-se de um Pé-de-Manga-Sagrado… Mais uma vez, o Concerto das Nações tira o chapéu para o Brasil.

 

MANCO TONEL

Isto se deve em grande parte porque abriram a caixa de consertos das nações e deram de cara com a imensidão de um vazio silencioso.

 

SÁBIO DETÔKA

A caixa de consertos estava quebrada.

 

MANCO TONEL

Tão quebrada e ao parecer irremediável que logo organizaram um concerto com instrumentos dispersos, a ver se era possível reunir uns tostões para o conserto.

 

SÁBIO DETÔKA

Apitos e reco-recos…

 

MANCO TONEL

Mas nada, público esvaziado, instrumentos desafinados, mais parecia a orquestra do Fellini, não juntamos um trocado que seja.

 

SÁBIO DETÔKA

É que esse público é acadêmico, só quer Guerra-Peixe,  o Guarany, e… o Wagner…

 

MANCO TONEL

Já tratei de reenviar o vídeo para o Xu-Manfú, que não apôs a menor declaração de recibo ou desgosto. Nem conserto ou concerto, os peixes estão em guerra na panela e os guaranis traçaram o Wagner no almoço, com pirão de valquírias e a velha e boa água de fogo.

 

SÁBIO DETÔKA

Agora então… Só resta embarcar no trenzinho caipira e subir a Serra da Boa Esperança.

 

MANCO TONEL

Dizem que Dona Esperanza perdeu a serra na bocarra de uma Boa no pantanal. Sequer foi à festança em Currais Novos do Céu.

 

SÁBIO DETÔKA

Isso acontece com as melhores famílias

 

MANCO TONEL

As melhores famílias são hoje um outdoor na entrada do Grande Shopping Barnabé, mas ah como doem…

 

SÁBIO DETÔKA

Quando abre a porta do Saldo Global Começa a Grande Porrada Familiar.

 

MANCO TONEL

Tailandeses e filipinos no saldão da semana, porcos e pérolas embaralhando as tábuas da lei.

 

SÁBIO DETÔKA

E o turco vendendo tapetes gombra ké baratinho, freguês…

 

MANCO TONEL

O turco faria melhor do que insistir em ser videomaker. Mas a quem deleita chá de pó de osso, que trate de raspar o seu bem raspadinho.

 

SÁBIO DETÔKA

O Selim insiste em querer fazer um zuper-8 do Homem Vapor… não precisa contratar ator nenhum. É só filmar a chaleira.

 

MANCO TONEL

Pois de tanto falarmos nele o Homem-Vapor acaba de chiar na panela de pressão, e me escreveu dizendo haver perdido o vídeo turco

 

SÁBIO DETÔKA

O Homem-Vapor é de uma astúcia oriental, e de uma periculosidade de Xu-Manfú … Há sempre um 2° pensamento oculto em suas amáveis crípticas declarações… Xu-Manfú certamente está fumando seu ópio… e quer que tudo o mais vá pro Inferno… Tenha Confúcius seus ancestrais, Buda seu Nirvana… Lao-Tse seu Tao, e Mao-Tse-Tung seu trator… Que lá importa?… Contem eles suas marolas pros parvos… Tenha o Bebê suas Tetas… Xu-Manfú tem o seu Ópio…

 

MANCO TONEL

E fuma como um jargão caído do pé. Tombando nas raias da impunidade, atravessa os séculos com a mesma pá, cavando o que se agigante contra ele.

 

SÁBIO DETÔKA

O segredo do Xu-Manfú é que a força do tráfico tem  o apoio místico da galera do fubá.

 

O meu fubá ao sol
eu deixei para secar.
A Jurema chegou cedo
e lavou toda a varanda.
O fubá que estava seco
aprendeu logo a nadar.
A Jurema encabulada
saltou bem na minha cama.

 

Embevecidos com a melancólica voz do prado, os dois troca-leros nem deram por conta, o Homem-Vapor se disfarçou em Surco Talim, pirateou uma nave-mãe nos porões da área 51 e dizem que foi repaginar a Ursa-Maioral…

 

SÁBIO DETÔKA

Homem-Vapor fala muito, mas o que gosta é de estar juntinho da jornalista do Braz-Ximbum, uma bonequinha de molas…

 

MANCO TONEL

Telma Suspíria é o nome dela, e pula e pula, como se as verdadeiras molas as levasse em seu íntimo, eu a conheci no México há mais de uma década, e se riu quando indaguei se ela havia engolido um canguru. Com seu olhar magnético me disse: “Eu sou uma rã”.

 

SÁBIO DETÔKA

Cuidado com a Kiki Moleng…  se facilitas… te dá um nó-cego nos cordões do sapato, e te passa um coquetel do Rei Coreano…

 

MANCO TONEL

Pois foi em outra festa, bem pra lá do ChiBungai, que conheci o então famoso coquetel do Rei Coreano, apontado por três revistas especializadas como o mais atrativo dos alucinógenos líquidos… Lembro que as paredes da festança pareciam os biscoitos Fraterno, e dei de saboreá-las como a última quimera.

 

SÁBIO DETÔKA

Xu-Manfú e Rei Jonjonga da Coréia cada um tem seu Dadá: Xu-Manfú o seu ópio e Rei Jonjonga os seus foguetões.

 

MANCO TONEL

Decerto os dois se matariam mil vezes seguidas, empanturrando a barriga da Grande Baleia devorada por Jonas, o Pacífico. Primeiro exercício de levitação: tornar o desejo mais pesado que o objeto.

 

SÁBIO DETÔKA

Perdemos o salpico na esteira das ilusões, onde os pesos excessivos tinham a última chance de levitarem e as cordas que nos prendem ao mundo poderiam esticar até o desenlace entre sonho e vigília. Os querubins sopravam as flautas uns dos outros. As luzes coruscantes cobriam de efeitos as células que sucessivamente germinavam no umbigo de todas as divas. Quem dera um pomar para reciclar os desejos. Quem dera uma torta onde hibernar as abelhas. Perdemos tudo – ainda grita o Padre Ezequiel, e o tesão amaldiçoado completa o ciclo das tensões.

 

MANCO TONEL

De tesão amaldiçoado, melhor dar uma pausa no andor, e ir pedir uma benção do Padre, e outra da Mãe de Santo.

 

Padre Ezequiel me disse que atualmente a fé não anda movendo nem montinho de areia e que no sótão da capela tem uma caixa de milagres que deve estar comida de bolor. Jararuna, a mãe de todos, lá em seu terreiro, me tranquilizou afirmando que de maldição ela entende e que dará um jeito no tesão.

 

EZEQUIEL

Aí está, o mundo de hoje… a continuar assim, presto virá o Armagedão…

 

MANCO TONEL

E as tropas de Arcanjos, depois de destroçar os pilantras de Belzebú, voarão pra Terra do Fogo, pra comer as Gigantas Patagonas nas escarpas dos Andes…

 

Para onde quer que se mande o cachimbo o tempo fumará seus bigodes, não importam os calos do Tinhoso ou as alpargatas do mocreia, a selva será sempre selvagem dentro dos olhos do lince, e o guerreiro mantém a guarda mesmo em repouso. Credo, assim o cajado se parte e a conversa destripa a língua. Dali… Jurema foi se confessar com Padre Ezequiel. Manco Tonel nunca mais se viu.

 

JUREMA

Ai, meu santo Padre Ezequiel, que faço eu  pra obter o perdão divino?…

 

EZEQUIEL

Pois, Jurema, só com umas lambadas…

 

JUREMA

Lambadas vossas, meu Padre?…

 

EZEQUIEL

Mais eficazes serão as lambadas do Sineiro Corcunda, com a corda do sino.

 

JUREMA

Mas as vizinhas vão ouvir…

 

EZEQUIEL

Já estão acostumadas…

 

Jurema ainda indagou se não lhe cabiam melhor umas lambidas, assim os pecados tomavam gosto, se empanturravam e quem sabe até naufragariam na barca dos degredos, ah Padre, deixa…

 

EZEQUIEL

Lambidas só no Purga, quando Catão de Utica está distraído…

 

JUREMA

Ai que eu beijo a pulga dele toda…

 

O PÚBLICO

Beija, beija, beija…

 

CORTINA

O que eu faço agora? Caio?

 

Bem poderia ser o fim do psicodrama, não fosse a dúvida corroer a alma acetinada da cortina. Um lapso e os Manuscritos de Tália soltam a sinopse de sua próxima comédia: Brancaleone e as vicissitudes do Dynamo Astral, sempre um patrocínio das Casas Prometeu e a benção do Papa Ponchito. E à dica culinária desta noite, atenção: Mistura o pó da inquietude em um cálice do talo da fina flor de lótus da pradaria… Ajuda o destino a tomar as mais sábias decisões.

 

MANCO TONEL

Como já disse o homem Fuzed das brasileiras noites: “Os dias que passam, estes passarão, mas, as noites, as noites que passam, ah elas também passarão.” Mas quem passou foi ele.

 

SÁBIO DETÔKA

O Ibralim se foi?… Uma celebridade dos 50s, surpreendeu-me a qualidade desta tirada!… A sua Coluna, agora fiquei desconfiado… talvez tivesse uma graça oculta… que na mocidade eu não saquei. Mas se ele escrevesse um livrinho inteligente, sua Coluna seria cancelada. Se escreveu, ficou em manuscrito, enterrado no quintal.

 

MANCO TONEL

Pois é, o Ibrahim não teria o sucesso que teve, na época, se não tivesse se decidido a ser o bobo da corte, resta a dúvida, agora que ele passou, como as suas noites, se ele era bobo mesmo ou se sagazmente criou o notável personagem…

 

SÁBIO DETÔKA

O Ibralim Fuzed é um curioso caso, meio inspirado no Frunando Fussoa. Todavia, enquanto o Frunando criou seus heterônimos, o Ibralim escolheu ser o seu próprio heteronômio. Um processo singularíssimo, que escapou à  argúcia lacaniana do Jório Borbes.

 

MANCO TONEL

Fuzed, também conhecido como Ibr-Fuzarca, recortava fotos suas em cena e as colava em paisagens de vários países, ruas, praças, na velha Enciclopédia Conhecer. Assim o conheci.

 

SÁBIO DETÔKA

Fuzed tentava promover seu irmão Zefud, porém Zefud não ia pra frente nem pra trás. Zefud era irmão, mas não tinha o jeitinho do Fuzed, de empacotar dondocas finas com grazzolas velhas frouxas, mas ora, se as dondocas gostavam, tudo bem…

 

MANCO TONEL

Pois logo dali deu a entender Ibr-Fuzarka que se mudara, por algum tempo… quando a rigor se tornou invisível e visitava as peruas chiques com seu colar de contas e elas em suas mãos suavam o perfume de suas ânsias.

 

SÁBIO DETÔKA

Assim, pois, desvendado o mistério: Fuzed é o Homem-Vapor que apavora os cinemas dos subúrbios da cidade!… O pavor do Homem-Vapor é contagiante e a inquietação ganhou as manchetes dos jornais, de sucesso em sucesso, foi avançando o filme irresistivelmente em direção ao centro da Metrópole. E Zefud foi erroneamente identificado com o Homem-Vapor. O Destino já estava escrito em seu próprio nome!… Recônditas são as sendas da Fatalidade…

 

MANCO TONEL

Não resta dúvida. Recônditas são as sendas da Fatalidade…

 

O PÚBLICO

Ohh-oooooh-oh

 

A CORTINA

Agora é o jeito. Caí, em definitivo. Este foi meu último suspiro.

 

Zuca Sardan (1933) e Floriano Martins (1957) são dois destemidos profetas na luta contra os crimes graves da realidade. Brasileiros ambos, o primeiro mora em Hamburgo, Alemanha. O outro, na borda náutica do Nordeste do Brasil, precisamente em Fracaleza Drinks. Jamais se encontraram pessoalmente, embora tenham se conhecido no Congresso Mundial Imaginário da Patafísica. Juntos já escreveram quatro peças de teatro a quatro mãos, além de inúmeras pequenas cenas faiscantes, como esta que agora publicamos. Contatos, de preferência os imediatos de quinto grau.

 

Categorias
98ª Leva - 01/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Márcia Denser

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Horizontes

 

porque sou eu quem vai ao encontro do destino que mora – e continuará morando, esperando – no Paraíso. Mas eu fui e voltei. Eu fui ontem e seriam 23:58 nos relógios da Paulista, 23:55 no farol da Casa Branca com Peixoto Gomide, porra, deviam estar andando ao contrário, contando o tempo que perdi ou já passou e então devo estar um bocado atrasada para desmanchar esse cirquinho que já se armou antes, muito antes que os relógios da Paulista começassem a contagem regressiva apontando o sentido desse passeio noturno à tua casa, Marcos, desse desvio, porque sou eu quem vai ao encontro do que praticamente já rodou, o tal cirquinho que se armou com unhas e dentes, embora você me recebesse como se já esperasse, você também tem um faro de perdigueiro, meu chapa, I know, I know, você comendo e falando sem pausa para respirar, me deixar falar aquilo que eu vim para te dizer, que não somos nós, não há nada conosco, ok, não precisa embarcar no meu sonho, você não tem que se arrebentar junto, você não precisa sofrer, eu tentando falar e já sentindo piedade daquilo que falava ou tentava falar e também daquilo que comia e não ouvia, repetindo de orelhada o que alguém te orelhou, ora se esse não é o gancho perfeito para o teu melodrama espanhol: uma mulher ansiosa por volta da meia-noite passando nesse teu apartamento que tem um vaso com uma arvorezinha seca com uma bandeirinha vermelha plantada na terra seca escrito Benvindo a Parati     e observando esse teu apartamento tão pequeno, tão 21º andar, tão bloco C, caixinha de fósforos pairando no oceano cleptomaníaco dessa Cidade que não é para quem não pode conquistá-la com unhas e dentes, de maneira que então fica aí como quem comprou uma vitrine de doces para ficar do lado de fora, o nariz contra as luzes refletidas lá embaixo e isto, Marcos, isto        me deixa tão triste, benvindo, welcome, mas você sem essa de welcome contudo botando filhodaputamente uns cds com aquelas músicas tristes e úmidas e burras e relembrando (reminds) aquela noite em que você  botou os mesmos CDs úmidos e burros e tão Philip Glass, percebe como a armação desse teu cirquinho é maluca? Roda, gira, sofrendo antecipadamente de saudades da mulher que você vai mandar embora eu esteja na tua frente e de touca, da mulher que você ama desesperadamente e sofrendo na minha frente, como se eu já não estivesse mais ao alcance do teu abraço, dessa mulher que precisa beber para trepar, foi o que você disse rapidamente desviando o rosto e já se sentindo como um vômito, mas eu ainda estava de touca e inocente e parada na sua, só que você já tinha dado o pira, a alma e o coração em Parati, enquanto eu tirava a roupa, deitava ao lado de você que já dormia tão distante, lá longe em Parati, virado para o canto. Como antes. Como sempre. Como toda noite até amanhecer. Daí eu levantei e me vesti e disse sim, você fez o possível, amor meu, só que eu não programei não engendrei nada disso, foram os relógios da Paulista que marcavam o tempo ao contrário, estavam andando de costas, como se não se importassem para onde iam e sim onde estiveram, então encontrei aqui o cirquinho armado para amanhã, de forma que flagrei o destino 24 horas antes: estava marcado para esta noite, eu na frente do tempo. Sim, Marcos, muitos problemas, meus e teus, individualmente, não nossos, claro, claríssimo. Mas os problemas são como velhos aquecedores: funcionam muito bem até o dia em que explodem na tua cara. Tique-taque, tique-taque, tudo ia tão bem, tique-taque, tique-taque. E ele, você não arruma nada, não tem estrutura, joga tudo pela casa, você não tem modos e eu, calada, e ele, você não tem grana, você só tem pose, e eu, enumere, vamos enumere, se não você cai, então diz, porque não diz logo na minha cara, e ele, misterioso, não antes dessa noite, e eu, mas acontece que meu coração também está marcado para esta noite. Estava, quero dizer. E ele, você não tem outra coisa na cabeça, garota? Não, não tenho saco, é isso. E fui descendo, os olhos mareados, porque eu não posso, porque eu não devo, não quero, não preciso, porque meu coração não está marcado para hora nenhuma, meu coração a ti pertence e às nove da manhã fiz sinal para o Vila Madalena, subi e então vi aquela muralha de corpos e bancos na minha frente.

                     Como um horizonte de marcos.

………………………………….  Ou cruzes.

 

A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II – obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas. Dois de seus contos – “O vampiro da Alameda Casabranca” e “Hell’s Angel“ – foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que “Hell’s Angel“ está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

 

 

Categorias
97ª Leva - 11/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lucia Fonseca

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Manhã

 

Naquela madrugada de encantamento e lenda, naquela madrugada atravessada de sombras e presságios, Rosa acordou antes de todos. Abriu os olhos ainda nas trevas absolutas do primeiro galo e, só depois de escancará-los no escuro e permanecer um instante com o coração aterrado e os ouvidos à espreita, é que escutou, muito longe, o lamento da primeira sereia. Talvez porque, ao longo dos meses que antecederam o prodígio, ela tivesse se habituado a aguçar os olhos e ouvidos e perscrutar o coração em busca de vozes e sinais. Porque, desde os primeiros tremores da natureza, foi sempre ela a única a perceber que eram avisos:

“Começou aqui em casa. Pus o leite para ferver, lembro muito bem, não tinha dormido quase aquela noite, as janelas estremecendo, sacudidas por um vento ruim, e me distraí varrendo o quarto. Quando voltei para a cozinha, corri direto ao fogão, vi da porta que o leite já ia derramando, o balão estufado e branco transbordando da panela. Mas logo percebi que não derramava, alvo que nem camélia, a pele cada vez mais fina e esticada, em vez de branco era assim quase transparente, por pouco não se desprendia em direção ao forro. E quando, num susto, arredei a leiteira da chapa, ele afundou tão depressa, as pétalas de magnólia murcha mergulharam, macias, e uma gota grande respingou no seio esquerdo, é essa marca de queimadura e aviso que tenho até hoje. Em cima do coração.

Nessa mesma semana, começaram a aparecer as formigas. Nas primeiras horas eram poucas, achei uma na minha cama, outras em cima da mesa, rondando o açucareiro. Logo eram fileiras engrossando, jorravam de todas as frestas da casa, centenas de milhares de formigas mansas. Também começou aqui, mas em seguida espalharam-se pelo povoado. Apareciam nos jardins e quintais, não tocavam em nada, em planta nem bicho, algumas subiam num voo cego e tonto, voo pesado de bicho da terra, sem vocação de asa, já reparou que formiga voa diferente de pássaro e borboleta? Morcego também, parece que ele guarda no ouvido o guincho do tempo em que foi rato. Por isso voa espantado. No terceiro dia, a doença da terra se alastrou ainda mais. E cada fresta, cada fenda, cada buraco, por toda a vila, regurgitava golfadas negras de formigas. Até que não houve pedaço de chão ou parede que não estivesse coberto delas. Tentaram veneno, tentaram querosene e fogo, só serviu para matar os ratos e cachorros da vizinhança, as formigas aumentando sempre. E então resolvemos esperar.

A terra passou sete dias vomitando insetos e, então, na tardinha do último dia, fui ao quintal procurar uma abóbora e elas tinham desaparecido. E pelas mesmas fendas e frestas começou a soprar o Terral insistente que crestou o capim, levantou rodamoinhos de pó na estrada, chamuscou as árvores e deixou o mar transformado numa chapa de aço polido onde se refletia, duro, o branco das nuvens mormacentas. A lagoa, ao contrário, encrespou-se toda verde, e subia dela o bafio de enxofre do lodo revolvido.”

Quando começou a rondar o sudoeste, cheirando a tempestade salobra, Rosa correu ao quintal. E enquanto recolhia a roupa, olhou para os lados do mar. O vento soprava agora do fundo dos seus abismos gelados, levantava as ondas em verde e branco, espumando. Só no horizonte, uma faixa clara ainda iluminava uns restos de dia. Para cima, os rolos de nuvens que vinham empurrando o vento e rebocando a noite já se espalhavam numa frente que escurecia o céu. Nesse momento estalou o raio, Rosa persignou-se, chamou Santa Bárbara e sentiu no ombro direito a primeira gota de chuva. Soprou outra rajada de vento e ela ouviu ao longe a algazarra dos homens recolhendo as redes e fugindo para casa. E o último grito de pássaro rasgou os ares.

Choveu seis meses. E o mar fervilhou de peixes. Os homens não se aventuravam a sair de barco com medo de perder o rumo no meio dos aguaceiros e cortinas de névoa, ou estilhaçar os cascos de encontro às ondas de vidro. Mas iam todos os dias à beira da praia buscar as corvinas e tainhas que a maré deixava pulando na areia. Quando a coleta era pequena, andavam até a restinga e, debaixo da chuva, jogavam as redes e recolhiam à flor das águas os cardumes que entravam barra adentro.

Durante cento e oitenta dias os peixes desfilaram numa procissão serena. A lagoa chegou a ficar tão cheia que cheirava a peixe, e os meninos esbarravam nos lombos frios quando iam se banhar debaixo do temporal. Do canal, transbordavam vez por outra para as ruas e, num dia de enchente, desfilaram como num aquário em frente às vidraças das casas mais baixas. Nos meses seguintes era comum acharem-se conchas, estrelas do mar, restos de sargaços e medusas nos canteiros da praça. E um polvo foi encontrado nadando dentro da cisterna do armazém.

Choveu seis meses e todas as casas mofaram. Não houve teto, parede ou chão que não amanhecesse com desenhos de borboletas e pássaros infiltrados, castelos de bolores esverdeados, teias de filamentos lívidos, serpentes e dragões de óxidos alaranjados que avançavam mordendo os canos. Nas primeiras semanas, as mulheres se esforçaram numa guerra sem quartel, varrendo, esfregando, polindo. Mas no fim do segundo ou terceiro mês, perceberam que não adiantava lutar contra aquela flora que ameaçava invadir-lhes também os ossos e convenceram-se de que já era uma boa fortuna manterem os cabelos livres de algas, a pele lisa e os dedos enxutos. E em cada cozinha ardia um candeeiro durante todo o dia, à volta do qual costuravam e preparavam o alimento, e cuja luz orientava a volta de seus homens.

Na última noite do sexto mês de trevas, Rosa acordou com um silêncio pavoroso alastrado nos ouvidos. Acostumada ao ruído constante das águas caindo, fossem os tamborins da chuva miúda, ou os surdos tambores da chuva grossa, fosse a peneira do chuvisco ou o rolar do temporal, aquele silêncio de faca penetrava-lhe os ouvidos, abria um clarão assombrado, ofuscava como luz cegando um olho habituado à penumbra. Em seguida ouviu longe, como um navio distante, o lamento da primeira sereia. Pedro dormia ao lado, e ela empurrou as cobertas com cuidado e calçou os chinelos. Fora, o ar estava fresco e leve, levantou os olhos devagar, e devagar girou a cabeça e olhou para cima. E nunca vira tantas estrelas juntas, tantas, tantas, a Via Láctea inteira, caminho de leite no céu. Estrelas riscavam o horizonte e caíam no mar, acendendo espumas frias.

– Acorda, Pedro, olha, vem ver o céu, vem, escuta o chamado das buzinas, pode ser um navio perdido, vamos à praia, anda, as outras casas estão se acendendo, olha, todo mundo nas ruas… – Rosa, parou de chover?  O que foi? – Tanta estrela, o chão está fresco e cheio de frutas, dá a mão, vamos, não precisa se vestir, olha a Deolinda de camisola, põe uma toalha nos ombros, vem Pedro, vamos pra ponta do farol olhar o mar.

E quando chegaram, já os botos vinham em bandos, gritando e pulando, e atirando-se, cegos, na praia, em busca dos homens. Não havia naufrágio no horizonte, mas as sirenes chamavam, e todo o povoado se reuniu no promontório. E Padre Salustiano benzia as águas agradecendo a provação passada, “…e não faltou peixe para estes homens, e a chuva passou e agora Deus nos mandou de novo um céu cheio de estrelas…”

Mas não se ouvia a voz do Padre, as sereias cantavam mais alto, os botos espadanavam água e espuma e as estrelas caíam em chuveiro. E quando um menino com olhos de sonâmbulo quis se atirar no mar, foi Rosa quem segurou. Logo fez-se um cordão dos homens mais fortes. E, sem que o Padre mandasse, ela se benzeu e caiu de joelhos, depois o menino, e uma a uma as mulheres e crianças, e depois os homens, todos se benzeram e ajoelharam-se rezando.

Não se sabe quantas horas ficaram assim imantados, entre o sortilégio dos ouvidos e o murmúrio das rezas, o fascínio dos botos e o cuidado de conter os encantados. Mas a força de todos segurou cada um. E os que olharam para o alto viram: um Anjo se despenhou do céu, muito branco e leve, cisne e homem de alvas asas, todo plumas. O Padre falou que foi invenção, cuidado com o sacrilégio, mas nós vimos, os botos já se aquietavam e regressavam em fila para o fundo; e as estrelas se apagavam num céu lívido de espanto. O Anjo se despenhou do alto e as águas se tingiram de vermelho. E as sirenes se calaram todas de uma vez.

 

E então era o Sol no horizonte.

 

Lucia Fonseca nasceu no Rio de Janeiro, em 1940. Começou a escrever regularmente no início da década de 70, publicando poemas em suplementos literários de alguns jornais.Dentre outros livros, são de sua autoria:“Invenções do silêncio”, pela Livraria José Olympio Editora, “Rede fluvial”, ainda pela José Olympio,“Cadernos de geografia”(Editora Mitavaí), “Confissões de penumbra” (Ed. Rosa dos Tempos/Record), “Cantares”e “O paraíso era antes” (estes dois últimos pela Editora da Palavra). Mantém o site Vestígios.