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148ª Leva - 03/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Larissa Mendes

 

Árdua tarefa tentar descrever um ser peculiar como Juvenil Silva. Aura despretensiosa de artista, veia de poeta, prosa (boa) de trovador. É alma pernambucana, carne de Carnaval, casca rachada de caranguejo. E por falar em prosa, como é bom debruçar-se sobre as reflexões nada juvenis do “compositor, tocador e cantante”, como define a bio de sua conta no Instagram. É bom ouvi-lo filosofar sobre os efeitos da pandemia em nós mesmos e sobre seus discos, ou melhor, sobre seus “álbuns de fotografias abstratas”.

Juvenil nasceu autodidata e já trocou uma bicicleta por um contrabaixo, quando criança. Iniciou sua trajetória na banda Canivetes, foi agitador cultural por uma década no A Noite do Desbunde Elétrico (conhecido como “o festival anual de rock independente ou a noite mais doida do ano”, em Recife) e atualmente concilia três projetos paralelos (Avoada, Dunas do Barato e A Banda dos Corações Selvagens). Além de seu trabalho solo, ainda comanda seu próprio selo musical e é idealizador de projetos como o Discos Offline ou Vende-se Música. É um acumulador de funções artísticas e um aglutinador nato.

Não é fácil também seguir trilhando um caminho musical há mais de duas décadas pela cena independente. E se tem uma coisa que Juvenil sabe, é ser livre, seguir como um pássaro seus próprios fluxos estéticos e não se dobrar a nenhuma tendência migratória. Talvez o artifício sejam as “canções coracionais” desse eterno psicodélico. Por ora, seus próximos voos reservam o lançamento do primeiro disco de seu projeto coletivo Avoada e de seu quinto álbum solo.

Esta conversa sem pressa, “sem relógios”, como o nome de seu single mais recente, reflete algumas considerações da mente criativa e do coração generoso desse sujeito consciente e engajado, amante das plantas, dos gatos e da arte – no sentido mais genuíno da palavra. Um encontro do Juvenil menino com o Juvenil maduro celebrado em nossa Pequena Sabatina ao Artista.

 

Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova

 

DA – Praticamente 9 meses (uma gestação inteira) separam o lançamento de Lonjura (2021), seu álbum mais recente, do seu retorno “oficial” aos palcos. Qual o impacto dessa distância (ou dessa “lonjura”) entre o lançamento do disco e a retomada dos shows com público?

JUVENIL SILVA – Pra ser franco, ainda não me sinto de volta. Não sinto esse “retorno oficial aos palcos”. Não como antes, talvez nunca seja como antes, talvez seja melhor algum dia, ou mesmo parecido. Mas no momento ainda me sinto dentro dessa “Lonjura”. Por exemplo, o EP foi lançado, mas nunca executado ao vivo. Nunca houve show de lançamento. De algumas pequenas apresentações que tenho feito, ainda não sinto algo forte, real, presente. Acredito que isso se deve mais a mim mesmo. Às vezes, a gente vai tão longe lá dentro que fica sem saber por onde, nem como voltar. Mas por ora, tô mais interessado em ir, seguir. Só pra ver no que vai dar.

 

DA – Apesar do isolamento social no qual foi concebido, o Lonjura teve inúmeras parcerias. Você ainda pretende fazer um show/turnê de lançamento? Ou você acredita que este EP em particular funcionou como uma espécie de registro, um recorte desse momento introspectivo pelo qual todos nós passamos (e ainda carregamos sequelas)? Qual o significado desse disco para você?

JUVENIL SILVA – Sim, meus discos são recortes do tempo, álbuns de fotografias abstratas. Espelhos emocionais do subconsciente. Sobre a produção do EP, é mais sobre um mergulho prazeroso nas possibilidades do que um aperreio com as dificuldades que o isolamento trouxe. Explorei ao máximo isso de gravar com vários músicos, cada faixa traz uma galera diferente e de lugares distintos. Algo que antes era mais resumido a ensaiar com uma banda e gravar. No período de isolamento eu me reconectei com pessoas que estavam perdidas nessa “lonjura”, que mais existe dentro de nós mesmos. Pois perdidos ficamos em nosso emaranhado universo de afazeres, demandas e péssima utilização de nosso tempo.

 

DA – Como você avalia o atual papel da arte e do artista diante dessa “poluição midiática”, calcada em excesso de informação e escassez de conteúdo, e ancorada em algoritmos, militância e inquisição virtual?

JUVENIL SILVA – Em relação ao papel da arte, acredito que é algo que deve ser livre de qualquer coisa. Por mais que na mídia a gente tem visto ela sendo explorada de modo tão engessado. É triste, o capitalismo sempre fez esse joguinho sujo. Se apropria de culturas, discursos, bandeiras… A qualquer custo. Mas a arte em si, (r)existe para além disso. Eu não tenho muita paciência para seguir tendências, só sigo um próprio fluxo de ciclos estéticos que vão deslanchando naturalmente. Por mais que, na maioria das vezes, aparentemente, eu esteja de ré na contra mão (risos). Sinto que vivemos numa espécie de saturação dos sentidos em relação à arte. Um tedioso fast food cultural. A gente come tão rápido que nem sente o gosto e depois vem outra coisa e depois outra, não se degusta e nem se absorve direito. Essa entrevista, por exemplo, a maioria das pessoas vai ler apenas a chamada da matéria, algumas vão até compartilhar mesmo sem ler, outras vão ler pelo menos o começo… (Oi pra você que leu até aqui!). Infelizmente, toda essa avalanche de informação não nos torna mais sábios e sim pelo contrário, é tudo tão ligeiro que nem temos tempo pra pensar direito.  E a festa continua, seja lá como a coisa esteja.

 

Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova

 

DA – O que nos reserva o próximo fluxo de Juvenil Silva? Um novo álbum, uma nova produção?

JUVENIL SILVA – Faz tempo que não lanço um álbum cheio, né? O “Suspenso” é de 2018. Talvez eu ande meio desacreditado desse formato. Não por ele em si, pois amo ouvir álbuns, mas pelo modo que as pessoas vêm consumindo música. Bem, tenho um disco guardado e pode ser lançado a qualquer momento. Em janeiro lancei um single dele, a faixa “Sem Relógios”. Na verdade, são 7 canções, daí existe uma dúvida em deixar como EP ou pôr mais músicas e fechar um álbum completo. Também estou imerso nas gravações do primeiro álbum do projeto coletivo “Avoada”. Ambas as produções serão lançadas ainda este ano. Acredito que o meu sai ainda este semestre e se chamará “Um Belo Dia Nesse Inferno”. Nome que seria do meu primeiro disco, lá em 2013. Não só o nome, mas também a estética. Pois desde o início eu queria lançar um disco de folk psicodélico, acabou que fiz algo mais rock psicodélico, folk rock… Mas agora vai. Recomeçando da maneira que eu iria começar.

 

DA – Por falar em Avoada, esse não é o único projeto coletivo que você participa. Você ainda integra o Dunas do Barato e A Banda dos Corações Selvagens. Quais as peculiaridades de cada projeto e como você consegue conciliá-los com sua carreira solo?

JUVENIL SILVA – Esses projetos coletivos requerem um pouco mais de disciplina e compromisso do que meu trabalho solo, pois envolvem outras pessoas. São vários fluxos alinhados para que se possa fazer algo. Mas também é onde posso aproveitar minha versatilidade no exercício de compor. Na Dunas do Barato, eu trago um material mais voltado pra música brasileira, a banda tem bastante influência dos Tropicalistas. Na Avoada, usamos a canção como veículo de luta. O coletivo foi praticamente formado pra meter o pau nesse desgoverno e fazer isso usando a canção numa estética mais rural, regional, folk. Além desses projetos, que são autorais, tem A Banda dos Corações Selvagens, que faz uma releitura ácida e psicodélica da obra do Belchior, e também o trabalho com o selo Plurivox, com Tonho Nolasco, onde além de gravar e produzir nossas coisas, estamos fazendo a produção fonográfica de outros artistas. De alguma forma, minha carreira solo permeia tranquilamente entre tudo isso e mais um pouco.

 

DA – Como surgiu a ideia do selo Plurivox? Como funciona a captação de novos artistas para a gravadora? O estúdio já está finalizado?

JUVENIL SILVA – A Plurivox surgiu quando na pandemia comecei a aprender a gravar para fazer meus “Discos off line”, álbuns que gravei e não lancei, apenas vendi. Com a construção do estúdio, que ainda não terminou, e com a troca constante e experimentos com o músico e produtor Tonho Nolasco e a designer Natália Amorim, a coisa foi surgindo naturalmente. Além de gravar nossas coisas, começamos a produzir artistas próximos que admiramos. Até então lançamos alguns singles da Flor de Jacinto e Marcionílio. Outros artistas e propostas estão sendo avaliadas. Ainda esse ano teremos vários lançamentos.

 

Juvenil Silva / Foto: Raissa Vila Nova

 

DA – Seu projeto Discos Off-line funciona como um chapéu virtual enquanto o artista toca na rua e já rendeu 8 EPs. Como tem sido a receptividade do público ao projeto? Você pretende continuar com esses lançamentos ou, de repente, lançá-los em outra plataforma?

JUVENIL SILVA – Os Discos Off-line foram 8 ao todo, “Isolamento Acústico”, “Isolamento Acústico Vol 2”, “Não Amolem os Canivetes”, “Cinzas de um Ano Morto”, esses de 2020. Em 2021, teve “Calendário dos Sonhos”, “Farol das Esperanças”, “Coracionalismo” e uma versão diferente do “Lonjura”, com arte diferente e mais músicas do que o EP lançado. Esse projeto foi algo de guerrilha mesmo, algo emergencial e cumpriu bem o seu papel. Teve uma ótima recepção da mídia e do público. Saíram várias matérias sobre e muita gente comprou. O valor era espontâneo, às vezes compravam um disco por 10, 20 reais, mas, às vezes, 50, 100 ou até mais. Não penso em seguir com esse projeto, pois foi algo estratégico para esse período de isolamento em que não havia possibilidade para shows e outros trabalhos mais. Os Discos Off-line e editais, como o Aldir Blanc, me ajudaram a segurar a barra financeira desses dias impossíveis. Agora, mesmo ainda sentindo que não voltamos por completo com os shows, pelo menos existem possibilidades. Vamos a elas. Saudade da estrada… Cheguei até a fazer alguns shows em São Paulo, mas tenho tocado mais pelo Nordeste. Mas vamos em frente, seguindo e passando de acordo com abrir das porteiras.

 

DA – Qual a diferença do Juvenil do A Noite do Desbunde Elétrico (festival de rock underground de Recife) para o Juvenil de hoje?

JUVENIL SILVA – O Desbunde Elétrico era um festival que eu e uma turma de outras bandas fazíamos, começou em 2007 e foi até 2016, se não me engano… Ao passar dos anos, ficou sendo produzido mais por mim mesmo. Naquela época, eu tocava com a Canivetes, banda de rock sessentista e psicodélico, com a Dunas do Barato, que fazia um som mais tropicalista e, depois, meu trampo solo. A diferença de hoje em dia, além de mais de uma década de juventude (risos), é que eu era ainda mais maluco e despreocupado, com o tempo a gente vai ficando mais sério mesmo, percebendo o tanto de coisa que acontece ao nosso redor e dentro de nós mesmos. Isso dá pra ver bem nas letras que escrevo. Se comparar as de hoje em dia com as primeiras composições gravadas nas bandas e na carreira solo… Depois do golpe, Bolsonaro, pandemia, términos de relacionamentos e outros tantos traumas, ninguém é mais o mesmo.

 

DA – Entre lonjuras e avoadas, suspenso ou no meio de lugar algum, o que mais o estimula a seguir trilhando sua estrada musical?

JUVENIL SILVA – Desde que me entendo por gente, me sinto artista, desde os rabiscos mais bobos nos caderninhos… Depois do primeiro violão, pronto. Não tenho, nem quero saída. É o que amo e sei fazer… Esse foi o caminho que escolhi, mesmo com todos e tudo na vida tentando me afunilar para um outro caminho. Àquele que dizem ser o correto: estudar, ter um emprego fixo, casar, ter filhos e morrer temente a Deus. Pois é, fui criado em família evangélica. Temores, hipocrisia e promessas de um paraíso pós-vida, no qual toquei o foda-se e fui atrás do meu próprio paraíso, no aqui e no agora. E não existe outra forma de viver isso, sem o tesão e amor naquilo que se faz. Sejamos plenos, triunfantes e nada menos que isso.

 

Larissa Mendes já viveu dias impossíveis, mas hoje, na medida do possível, se considera feliz.

 

 

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145ª Leva - 05/2021 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

JUVENIL SILVA – LONJURA

 


“E o médico perguntou: o que sentes? Sinto lonjuras, doutor. 
Sofro de distâncias”.
(Denison Mendes)

A frase perfeitamente aplicável a nossa realidade nestes últimos anos dá a tônica do que é transformar o sentimento de sozinhez em arte. E se “todo mundo é uma ilha” nesse período pandêmico, o criativo, multifacetado (e boa praça) artista pernambucano Juvenil Silva – que figura há praticamente duas décadas na cena underground – é um arquipélago inteiro. O “compositor, tocador e cantante” como define a bio do músico no Instagram, iniciou sua trajetória na banda Canivetes e hoje, além de sua carreira solo lançada com o álbum Desapego (2013) – sucesso de público e crítica – mantêm os projetos Dunas do Barato, Avoada e FREVO 70, ao lado de outros artistas. Juvenil tornou-se conhecido também – ainda que não se considere exatamente um produtor cultural – por comandar por 10 anos, em Recife, A Noite do Desbunde Elétrico, conhecido como “o festival anual de rock independente ou a noite mais doida do ano”.

Lonjura (2021), seu quarto trabalho solo, foi registrado à distância durante o início do isolamento social, praticamente sem ensaios e com músicos alastrados pelo país (e até mesmo no exterior, caso de Marcos Gonzatto da clássica banda curitibana Faichecleres, que participou de Londres). Transitando entre folk e pop psicodélico, o EP sucede os álbuns Super Qualquer no Meio de Lugar Nenhum (2014) e Suspenso (2018). As 6 faixas versam sobre a incerteza e distopia do futuro, mantendo o mesmo olhar crítico e sarcástico habituais na obra de Juvenil Silva, porém, desta vez, em uma atmosfera mais melódica e melancólica.

 

Juvenil Silva / Foto: Thaís Rodrigues

 

A balada, a la Jovem Guarda, Dias Impossíveis (olha, nesses dias impossíveis/onde o medo anda na moda/empatando a foda, risos, laços, nós/quero que você tome cuidado), parceria com o paraibano Seu Pereira, composta logo nos primeiros momentos de quarentena e lançada em março, elucida a aura pós-apocalíptica que tem pairado sobre nossos dias. A faixa ganhou ainda um simpático “videoclipe coletivo”, editado a partir de vídeos enviados por seus fãs. Alpinismo (e eu também já desci, já desci/e me esqueci como eram os sonhos/que mesmo com asas cortadas podia voar), outra parceria, dessa vez com Guilherme Cobelo, vocalista da banda brasiliense Joe Silhueta, é um folk animadinho que tece uma crítica à escalada social. Horários Bagunçados (ando com os horários bagunçados/tesão desregulado/cabeça sem lugar/gaveta que nem fecha/cinzeiro a transbordar/você me acalma) – talvez uma das mais belas canções do EP – aborda a nova dinâmica afetiva desses tempos obscuros.

A malemolente Regalia (na periferia não tem regalia/ você sabe, mas não sabe como é/um supermercado inteiro ele cabe na barriga/mas não cabe nem metade, da metade da metade, no meu bolso), primeiro single divulgado ainda em 2020, filosofa sobre o “idealismo burguês” e parece ter profetizado a alta dos preços. A balada Você Mulher (eu queria te dizer/coisa pra caramba/da minha cabeça/eu queria mesmo era saber/como você anda/tudo que fez hoje/e desde que nasceu) é uma sincera declaração de amor e saudade. Aliás, a canção recentemente ganhou um belíssimo videoclipe, ou melhor, “uma fotonovela audiovisual” escrita, dirigida e estrelada pela trans colombiana Ava Reyna Bárbara e composta por mais de 2 mil fotos. A dramática O Mal de Nós Mesmos (quem fica com cara pra cima não enxerga tão bem/quem cai com a cara no chão já percebe melhor) encerra o disco com um blues tropicalista num diálogo entre o bem e o mal que habita em cada um de nós.

Disponível em todas as plataformas digitais, Lonjura possui também uma “versão comercial” com três faixas bônus (para adquirir, basta entrar em contato através do Instagram do artista). Tal versão segue o projeto Discos Off-line, que já rendeu os EPs Isolamento Acústico Vol. 1 e Vol. 2, Não Amolem os Canivetes, Cinzas de Um Ano Morto, Calendário dos Sonhos e o novíssimo Farol das Esperanças. Trata-se de discos que não são lançados nas plataformas de streaming, disponibilizados exclusivamente via e-mail com as faixas em wav/mp3 e encartes com fotos e letras mediante o “pague quanto puder/quiser”. Vale ressaltar ainda que além do EP, Juvenil acaba de lançar, em parceria com o jovem músico Tonho Nolasco, o selo musical Plurivox.  A dupla prevê o lançamento de novos artistas tão logo seja concluído seu estúdio que está em fase final. Cria, agrega, resiste e voa, Juvenil, que “voar não se limita em romper as nuvens”.

 

 

Larissa Mendes também sofre de lonjura, Dr. Juvenil. Inclusive de lonjura dos editores Fabrício Brandão e Leila Andrade, que me impedem de abraçá-los pelos 15 anos de arte, cultura e Diversos Afins.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

ARRETE – SEMPRE COM A FROTA

 

 

Não faltam mulheres protagonizando uma cena e mudando rumos e paradigmas, seja na música, no mundo da arte, na política ou em qualquer área da vida social. Mas quando estas mulheres chegam a ser vistas e reconhecidas, podemos saber que há uma longa trajetória de luta, afirmação e busca por reconhecimento para que chegassem a ocupar este lugar. É a velha história de que as mulheres precisam estudar, pesquisar, se especializar e falar grosso três vezes mais (no mínimo) do que os homens para serem reconhecidas. Se for mulher e da periferia, então, a questão se aprofunda ainda mais.

A trajetória de Ya Juste, Nina Rodrigues e Weedja Lins, que compõem o grupo de hip hop pernambucano Arrete, não é diferente. Vindas de uma longa estrada de criação e produção no hip hop nordestino, o grupo lançou em 2017 o seu primeiro disco: Sempre com a frota. As MCs estão na estrada desde o começo dos anos 2000, tanto como MCs, quanto como pesquisadoras da cultura popular nordestina e, no caso de Weedja, também como dançarina de break.

O Arrete começou em 2012 e leva o nome do primeiro single que lançaram: “Arrete não”. O single foi divulgado através de um clipe, produzido, gravado, editado e locado pelas próprias Ya, Nina e Weedja na comunidade em que moram, Cajueiro Seco, em Jaboatão do Guararapes, município da região metropolitana do Recife. Esse primeiro single foi um anúncio e uma mostra do tom e da estética do grupo, tanto visual, quanto musical.

 

Arrete / Foto: divulgação

 

O disco veio cinco anos depois, gravado entre 2016 e 2017 e lançado em julho deste último ano com o apoio do Funcultura. Segundo as próprias integrantes do grupo, o processo de criação do disco expressou os anseios delas em relação à música que queriam fazer e à forma como equilibrariam a arte com a vida pessoal – as paixões, a família, a maternidade, as amizades, etc. O álbum agrega composições engavetadas e composições novas, que fizeram com que o trabalho tivesse uma coesão entre a estética e a personalidade de cada uma. O nome do disco é o título de uma das composições de Nina, que é também uma das faixas com o instrumental mais pesado e sóbrio. A letra traz os parâmetros de uma ação e existência ética no mundo: “hip hop incendeia no ritmo e poesia/ na filosofia com a frota sem censura/ então assuma agora/ postura, ideologia/ sem hipocrisia, falsa conduta”.

A faixa que abre o álbum, “Poetizar”, dá o tom da mistura sonora que o disco traz aliado à poesia das meninas. Sons tradicionais da música popular nordestina, como o pandeiro e a viola – que são, inclusive, citados na letra -, aliados à guitarra distorcida, compõem essa abertura em que as MCs se identificam e definem seu lugar de fala:  “Somos versos mais que prosa/ somos todas muito caras/ Esse é o projeto Arrete/ poetiza nordestina com orgulho/ pernambucana da terra de Aruanda /trago as guerreiras de lança”. E ao longo da letra outras muitas referências à cultura regional vão sendo invocadas, costurando as influências que as próprias meninas trazem em sua trajetória artística e de vida, que vão do cenário do manguezal e do canavial à influência de Luiz Gonzaga, “trilha sonora do nosso povo”. E definem: “arquitetas de uma grande e intensa batalha […] seguirei sempre com a frota, com as mais finas rosas e com a mais forte prosa”.

“Arrete não”, o single lançado em 2012, vem no disco com uma batida eletrônica que mescla o brega e o hip hop. Na letra, assim como em “Sempre com a Frota”, que dá nome ao disco, há uma espécie de manifesto: “Queimei as pestanas pra fazer o som do bom/ se tem o dom/ prove e mostre o do bom/ não arrudeie/ com fala solta nesse vento/ se for pra provar/ tem que ser só no talento/ tô com a gota serena/ pra esculhambação […] Ideologia/ o que te falta nessa vida”. A letra é recheada de expressões locais e do sotaque regional.  A expressão que dá nome à faixa já é um exemplo. O verbo “arretar” significa fazer voltar; fazer parar; ou parar o movimento. Mas como expressão quer dizer abusar; irritar; tirar do sério. “Arrete não” seria, assim, algo como “não perturbe”: “Arrete não/que o bonde aqui é bravo”, dizem as meninas. O disco todo é permeado por esse vocabulário idiomático, o que pode dificultar o entendimento de algumas letras para um público não nordestino, mas não impede que o resto do Brasil compreenda, mergulhe e escute essa cultura. É uma forma de fazer conviver, inclusive, a riqueza da linguagem que configura nossa formação cultural dentro de um país continental, que não pode ter uma única imagem para se representar.

Já “Le Plaisir” é uma das composições novas, feitas para o disco. A música fala de amor e o som se aproxima de referências do hip hop brasileiro contemporâneo, como o feito por Tássia Reis, por exemplo, explorando ritmo e balanço mais lentos. A faixa é outra que ganhou clipe com roteiro, direção, fotografia e figurino executado pelas próprias MCs, que convidaram estudantes de dança da Universidade Federal do Pernambuco para fazer dialogar o break com a dança contemporânea. O cenário também foi desenhado por elas mesmas e é composto por diversos objetos que remetem às famílias de cada uma. Como os quadros do pai de Yanaya, que é artista plástico, as madeiras que fazem referência ao avô carpinteiro de Nina e os vinis. O título e os versos em francês também vêm da descendência de Ya. Elas falam que se remetem muito à família no trabalho porque a família foi sempre muito presente para elas no processo artístico.

O ragga aparece nas faixas “Faya” e “Bang Bang”, somando no arco de referências sonoras que o Arrete agrupou neste seu primeiro disco: o brega, o eletrônico, o hip hop, os sons de viola nordestina, pandeiro e de guitarras distorcidas (mescla que outrora havia irrompido no movimento manguebeat) etc.

 

Arrete / Foto: divulgação

 

Todo o instrumental do disco foi feito pelos músicos Riva Le Boss e Felipe Maia, que conseguiram traduzir as influências das integrantes do grupo. Ya diz que gosta muito do ragga, do rock dos anos 70; Nina, de música popular nordestina e de música pernambucana; e Weedja soma com o rap old school, gangsta e também com o brega. No leque de influências contemporâneas, elas citam os conterrâneos Flaira Ferro, Juliano Holanda e Johnny Hooker. Além da nova cena do hip hop brasileiro que, felizmente, agrega cada vez mais mulheres, como Flora Matos, Karol Konká e a já citada Tássia Reis.

Por fim, é preciso destacar que o Arrete reúne em seu projeto todas as linguagens da cultura hip hop, acompanhadas nas batidas pelo DJ Rimas.INC e por dançarinas convidadas.

Com pouco mais de seis meses de disco lançado, o Arrete já fez inúmeros shows em Recife e pelo interior. Ao longo do carnaval foram duas apresentações: no som na rural na Cena Peixinhos e no palco do Rec Beat no domingo, dividindo a programação com Larissa Luz, Lucas Estrela, Don L, Javier Díez-Ena e Dj Flavya. Além das músicas do disco, aproveitaram a ocasião para mostrar um novo single, “Não te quero mais mizéra”, feita pelo DJ Rimas.INC, com produção de Patrick Torquato, que pesquisa e defende a música periférica, empoderamento e combate aos preconceitos em seu trabalho. Assim, na expressão, nas linguagens artísticas que agrega, no vocabulário, nas expressões, no sotaque e no timbre, o Arrete é uma amálgama de valores e postura estética, cultural e política.

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

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118ª Leva - 03/2017 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

HELTON MOURA – CÍRCULO

 

Há quem considere o tempo senhor de um tudo. Entre memórias, gestos e ações, a vida vai moldando seus caminhos. E sempre fica a sensação de que jamais teremos o controle absoluto das coisas. Se de um lado está o passado com suas imagens já estabelecidas em nós, do outro surge o presente enquanto possibilidade de renovação. Diga-se de passagem, é neste último que as rotas podem ser alteradas, seja para transformar parcial ou inteiramente o imprevisível palco da existência.

Mudam as estações e chega um momento em que a nossa intensidade e rapidez acabam cedendo lugar a uma necessidade de quietude. Deixamos de lado a verborragia de outrora e passamos a uma condição de estarmos mais abertos à escuta e a uma atitude mais contemplativa das coisas. É então, que amanhece em nós, os tais seres adultos tão embaraçados com questões cotidianas, uma vontade pura de libertação. E falar em pureza implica aliviar as bagagens da caminhada até aqui. Sugere desprendimento e evoca a aparição da porção mais pueril que possa brotar de cada um.

Tudo o que acabo de dizer acima ganha sentido quando escutamos um disco como Círculo, mais novo trabalho do cantor e compositor pernambucano Helton Moura. Ora, vejamos, o artista em questão muda radicalmente seu caminhar para agora nos conduzir por vias através das quais a leveza se faz senhora. Acostumado a intensidades vocais e textuais presentes em sua trajetória, todas elas a representar uma habitual inquietude, Helton agora resolve trilhar um caminho inversamente proporcional ao seu natural desassossego.

Círculo é muito mais do que a continuidade de uma carreira. Assinala, como confessa o próprio artista, uma necessidade de dar vez e voz ao silêncio, algo que numa leitura apressada poderia soar um tanto paradoxal para alguém como Helton. O fato é que o cantor ignora o ritmo frenético e incessante que sempre fez parte de sua vida para buscar abrigo num ambiente musical marcado fundamentalmente pela leveza e serenidade.  É nesse novo momento que a matéria-prima das canções aflora suas sublimes possibilidades.

Helton Moura / Foto: arquivo pessoal

Estamos diante de um EP com cinco faixas completamente voltadas para o frescor que a redescoberta da vida foi capaz de proporcionar a um artista como Helton. De todas as composições, Canção parece resumir bem o significado do disco, pois traz a referência maior que perpassa o presente do artista, qual seja calar a voz para ouvir pacientemente o que o silêncio tem a dizer. No fluxo poético da música, os sentimentos privilegiam tudo aquilo que não foi dito ou, quiçá, ficou pelo caminho e por dizer.

Quando escutamos a canção que dá nome ao álbum, percebemos que ela é uma espécie de ode ao desejo de leveza. Algo como seguir em frente sem as amarras que teimosamente nos impomos. Mais adiante, são os apelos de Singela que tomam conta dos ambientes. Nela, um convite à reflexão aponta para o caráter cíclico da existência, este sempre envolto em perguntas e respostas, mas que, ao fim e a cabo, retoma a origem das coisas num movimento inerente à condição humana.

Ao dedicar uma das músicas a sua filha, Pra Juju, Helton enaltece a sua busca pela serenidade. E há muito mais dentro dessa atitude, cujo principal efeito é o que leva o artista a penetrar numa dimensão pueril e dela retirar um novo aprendizado para seguir vivendo. Mas eis que, encerrando o EP, chegamos até ogisnoc oãn ue euq a, faixa que é o inverso de A que eu não consigo, a qual é reproduzida de trás pra frente. O mais curioso é pensar que este último ato do disco soa realmente como uma oração. É, na verdade, um elo com o próximo álbum do cantor, que trará a canção em seu andamento normal e encabeçando o trabalho.

Falar de Helton Moura é apresentar todo um universo que compreende uma vida voltada para diversas frentes da arte. Natural de Arcoverde, o cantor também se dedicou ao teatro, à poesia e ao cinema, além de trazer em si um componente performático em muitas de suas aparições. Seu lirismo peculiar o tornou conhecido como uma espécie de trovador contemporâneo. Círculo instaura uma nova fase nessa múltipla expressividade do artista, tão acostumada a torrentes de manifestação. O que está reservado para o hoje é um misto de superação de barreiras pessoais, revelações e descobertas intimistas e, o mais importante, a afirmação de um desejo de olhar tudo com suavidade.

 

 

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

A História da Eternidade. Brasil. 2014.

 

A História da Eternidade

‘Não sei mais o que é amor, só sei o que é desaforo’.
(Personagem Querência)

Em tempos de ascensão do cinema argentino e breve entressafra de bons filmes nacionais, eis que surge um sopro de esperança [ou um oásis] vindo diretamente do sertão nordestino. Com 20 anos de carreira como cineasta e 14 curtas no currículo, A História da Eternidade marca a estreia do pernambucano Camilo Cavalcante na direção de longas-metragens. Apesar do título homônimo de seu curta de 2003 – um falso plano-sequência de 10 minutos que também passeia visceralmente pelos dramas do sertão –, o diretor garante que os enredos não têm correlação imediata. Aqui a trama gira em torno de três mulheres de gerações distintas: Querência (Marcelia Cartaxo), mãe que acaba de perder o filho e vive a dor do luto – e também é alvo do cortejo de Aderaldo (Leonardo França), o sanfoneiro romântico e cego da vila (abre essa porta, deixa o meu amor entrar pra tomar conta de tu, criatura!); Dona Das Dores (Zezita Matos), idosa-religiosa que mora longe da família e vibra com a estadia inesperada do neto Geraldo (Maxwell Nascimento), vindo de São Paulo; e por fim, Alfonsina (Débora Ingrid), adolescente que sonha em conhecer o mar e divide-se entre tratar do austero pai Nataniel (Cláudio Jaborandy) e dos irmãos e admirar o excêntrico tio João (Irandhir Santos), artista que definitivamente destoa do restante do vilarejo.

A História da Eternidade
O sanfoneiro Aderaldo (Leonardo França) em cena de A História da Eternidade / Foto: Divulgação

 

Produção independente – escrita e dirigida por Cavalcante –, financiada por editais e incentivos públicos, A História da Eternidade foi bem aceita por público e crítica. Recebeu mais de uma dezena de prêmios em festivais, entre eles o de melhor filme brasileiro e prêmio do público na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e as principais categorias do 6º Festival de Paulínia, ambos em 2014. Rodado na comunidade de Santa Fé, próximo à Petrolina (PE), cujo único contato com o exterior é de fato o orelhão que aparece no filme, a fotografia árida confere uma atemporalidade ímpar e uma beleza imensurável ao lugar. Apesar de se tratar de um filme feminino em sua essência e com protagonistas que ilustram bem as figuras sertanejas, quem rouba a cena é mesmo Irandhir Santos – vide Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda. Suas declamações e performances são impecáveis, sobretudo quando coloca o toca-discos na frente de casa e dubla a música Fala, dos Secos & Molhados, encarnando uma espécie de Ney Matogrosso dos confins. Vale ressaltar que a trilha sonora é assinada pelo compositor polonês Zibgniew Preisner, conhecido pelos filmes do cineasta Krzysztof Kieslowski em sua trilogia das cores: A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1994), e pelo sanfonista Dominguinhos, em um de seus últimos trabalhos.

A História da Eternidade
João (Irandhir Santos) em performance de Fala (Secos & Molhados) / Foto: Divulgação

 

Dividida em três atos circulares (Pé de Galinha, Pé de Bode e Pé de Urubu), A História da Eternidade faz um recorte original de uma região bem peculiar do Brasil, porém opta por focar outras aflições e não o sofrimento oriundo da seca. Apesar do gigantismo da paisagem e do povoado inóspito (o que dizer do televisor e da poltrona quase sempre vazia no meio do nada?), a estética de Cavalcante parece aprisionar os personagens – comumente eles são filmados através de grades de janelas, como se fossem jaulas – numa alusão à ‘eternidade’ do título. O que voa ali são só os pássaros e a imaginação. E ainda assim, não por muito tempo. O amor assume vertentes de romantismo, desejo, saudade, veneração, tentação, penitência e tragédia. Talvez seja o tal ‘amar…esquecer…desamar’, a que João se refere em determinado poema. Assim, de mansinho, como chuva que chega sem avisar, A História da Eternidade entra para o rol dos pequenos clássicos nacionais e acaba de vez com a estiagem do nosso cinema.

 

Larissa Mendes, cidadã-cinéfila, atualmente habita o sertão catarinense.

 

 

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94ª Leva - 08/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Dizer que Pernambuco, com sua multifacetada expressão artística, ocupa um lugar mais do que especial na cena cultural brasileira é revisitar uma condição que certamente muitos já sabem de cor. Desde manifestações populares até os ímpetos mais modernosos, a música daquele estado guarda relações cada vez mais universais e reforça uma dinâmica que vai de dentro de si para o mundo. Com os matizes peculiares de suas paisagens, a cultura pernambucana pode falar de suas ambiências a qualquer habitante desse nosso complexo planeta. E o interessante é perceber que, apesar das distâncias geográficas com outros recantos mundanos, o espírito das coisas vividas e manifestadas na via musical pode perfeitamente comungar com o pensamento de quem quer que seja.

Por trás das cortinas da virtuosidade, a capital Recife abriga artistas também comprometidos em não somente expandir as fronteiras de seus trabalhos, mas principalmente dotá-los de uma consciência crítica capaz de repensar o caos. Nesse aspecto, os chamados independentes, dada a sua condição de desbravadores de espaços, conhecem com propriedade o significado do que seja resistir ao tempo e aos ditames dum modelo fonográfico desgastado e desigual. E assim vão conduzindo seus trabalhos, tendo como mote a coerência presente em suas trajetórias pessoais. Um dos novos representantes dessa perspectiva lúcida de manifestação é o cantor e compositor Ricardo Chacon. Integrante de uma geração disposta a arregaçar as mangas e viver intensamente o ofício musical, Chacon traz em si uma visão bastante aguçada dos temas que compõem seu meio. Quando nos concede a entrevista que agora segue, sabe falar não somente dos caminhos que o motivam a seguir adiante, mas sobretudo da forma como vislumbra um cenário ideal para si e seus pares.

Em 2008, Ricardo Chacon, ao conceder, juntamente com Piero Bianchi, uma entrevista para a Diversos Afins, já dava mostras dos voos que pretendia alçar com sua carreira. Àquela época, o assunto girava em torno de seu primeiro disco, Terra Papagali Coffee Shop, trabalho que marcou de modo especial sua caminhada pelo fato de representar um consistente resumo de brasilidade. De lá para cá, outros trabalhos se desenvolveram, a exemplo do EP Chacon (2010) e o single Nonsense (2012). No meio dessa jornada, há que se considerar também o projeto conduzido com a banda Nós4. Mas ao chegarmos ao momento presente, vemos um artista profundamente comprometido com novas maneiras de se comunicar com o público. E isso fica bem claro quando escutamos Chaka Nigths, álbum que acrescenta ao rock do artista recifense uma pitada de psicodelia. Tal como é possível perceber do seu testemunho, Chacon se mostra pronto a dar continuidade a seu caminho. Com opiniões sinceras, enxerga seu tempo nitidamente, certo de que, apesar dos entraves vividos, elegeu a melhor maneira de respirar o ar que lhe foi confiado pela vida. Por aqui, fica o testemunho de toda essa atmosfera.

 

Chacon, divulgação - por Bruno V. Guimarães
Ricardo Chacon / Foto: Bruno V. Guimarães

 

DA – Antes de se chegar num determinado estágio, um artista sempre traz na bagagem as vivências de outras eras, sobretudo quando elas apontam para um projeto consistente já realizado. E aqui podemos falar na experiência marcante com o disco Terra Papagali Coffee Shop, álbum que revela virtudes duma brasilidade. Qual o legado maior desse trabalho para sua carreira?

RICARDO CHACON – A musicalidade do disco, acho, foi o maior legado deixado. A junção dos ritmos, os artistas que reunimos. Acho que a própria parceria musical entre mim e Piero, o momento que a gente vivia musicalmente, acabaram contribuindo para isso. Ousamos fazer esse disco, usamos as nossas economias e montamos uma viagem incrível, levando sempre conosco uma base gravada ainda em Recife. Foi um trabalho bastante rico, muito percussivo, muito brasileiro. Acho que o aprendizado desse disco, de todo o processo de gravação, é o que trago comigo.

DA – Depois do Terra Papagali Coffee Shop, a sua afirmação enquanto músico ficou impregnada de desafios mais complexos? 

RICARDO CHACON – A gente sempre busca algo novo, criar algo diferente, e depois do Terra Papagali busquei me encontrar, achar minha música ainda mais. O processo de gravar um disco é algo que consome você de uma forma, que você quer fazer aquilo novamente. É sempre um desafio expor algo, colocar para fora as músicas. Há sempre um grande aprendizado por trás disso.

DA – Ao chegar em Chaka Nights, seu mais novo disco, você aposta num caminho mais ligado ao rock, sobretudo com uma atmosfera de nuances psicodélicas. Como se deu o processo de concepção do álbum

RICARDO CHACON – Tive a ideia de fazer esse disco em 2010, mas não tinha dinheiro. Então gravei um ep com quatro músicas, chamado EP Chacon. Montei uma banda e fizemos alguns shows. Então, começamos a trabalhar novas músicas nos ensaios, junto com a banda, e foram surgindo os primeiros arranjos, até gravarmos o primeiro single, Nonsense. Foi uma fase difícil, porque fazer disco sem apoio e sem grana é muito desgastante. Consegui terminar o disco com muita dificuldade. E o som dele tem muito a ver com o momento e com os músicos que me ajudaram na produção. Busquei parcerias para as letras, já que não quis, nesse disco, escrevê-las. Foquei mais nos acordes, os poucos que eu sei…

DA – Diante daquelas dificuldades que você passou, infelizmente comuns à maioria dos artistas, esse disco surge como uma espécie de tentativa de se manter firme no ofício?

RICARDO CHACON – Eu precisava fazer esse disco e passar por todas essas dificuldades. Tudo para eu aprender cada vez mais e entender também o mercado atual. Como havia dito anteriormente, era algo que precisava fazer e fiz. Não pretendo passar por isso, sozinho, novamente. Um dia espero ter um bom material para mostrar para os meus filhos, e que outras pessoas também possam conhecer mais os meus trabalhos.

DA – Na sua tentativa de entender o mercado musical, a que conclusões chegou?

RICARDO CHACON – Percebo uma dificuldade muito grande de se conseguir meios que te deem acesso a recursos para financiamento dos projetos. Desde o Terra Papagali, buscamos participar dos editais, mas pelo menos aqui em Pernambuco sempre são as mesmas pessoas que conseguem ter acesso ao recurso, pessoas e produtoras que vivem de todos os anos “arrumarem” um projeto para obter o recurso, enquanto outros artistas que não têm certo perfil são ignorados pelas curadorias, muitas delas viciadas em aspectos que acabam desmotivando jovens produtores e músicos. Poucas bandas, com bons trabalhos, é verdade, quase todo ano aprovam recursos, às vezes altíssimos, e muitas vezes nem dão continuidade ao projeto. Em Pernambuco, é absurda a forma como as curadorias trabalham, sem levar em consideração o esforço de quem nunca conseguiu qualquer recurso público e sempre fez tudo do próprio bolso. Repito, apenas poucos têm acesso, os mesmos iluminados, escolhidos por critérios duvidosos e mil interesses. Pessoas e produtoras que todos os anos aprovam projetos e vivem dos recursos que deveriam ser mais democratizados.

DA – De alguma forma, a cena musical de Recife, quiçá Pernambuco como um todo, está dividida em antes e depois de Chico Science?

RICARDO CHACON – Chico, sem dúvida, resgatou algo muito forte, principalmente nos músicos da nova geração. Não muito diferente das grandes cidades, surgiu um movimento muito forte de novos artistas com diversas linguagens, num primeiro momento seguindo o formato de banda com percussão de maracatu. Mas junto com ele veio Mundo Livre, Otto, Eddie, China. Não menos importante, temos a influência gigante de Alceu e Lenine, que também sempre estão por aqui. Pernambuco é realmente um estado em que a todo o momento surgem novas bandas, buscando o que Chico fez: criar uma música, uma identidade, uma batida que é nossa, com nosso sotaque. Hoje o experimentalismo e a psicodelia estão superando um pouco o uso das alfaias, que passaram a soar meio clichês. Também tem muitos grupos que tocam música instrumental, naquela linha mais de trilhas de filmes. Pensar no movimento mangue é pensar muito plural porque também impulsionou novos cineastas e designers, ou seja, realmente revolucionou. Desde lá, ainda não houve outro movimento que realmente tenha causado tanto impacto, mas continuam tentando. Enfim, esse nosso país continente e seus diversos estados e culturas e “personalidades”.

ChakaNights, a banda - por Tiago Calazans
Chaka Nights, a banda / Foto: Tiago Calazans

DA – Somos um país que carece de vanguardas?

RICARDO CHACON – Fabrício, eu sinceramente acho que não. O que falta é espaço mesmo para essas vanguardas. Em algumas situações, também acho meio forçado alguns movimentos, repetições apenas do que já houve. Volta e meia, aparecem “novos baianos” (não necessariamente baianos), mas sem uma qualidade como os originais. A mídia e os espaços estão voltados para músicas de momento e de jabá. As rádios, que sempre foram canais de escoação de novas músicas, hoje estão também voltadas às músicas internacionais. O que resta ainda são festivais e editais. Mas como te falei, a mentalidade radical dos curadores em busca da “vanguarda” acaba por tirar a oportunidade de pessoas com talento em favor de outras que não são de verdade como aparentam ser. Não acredito que isso seja um problema apenas daqui de Pernambuco, onde muitas bandas e artistas bacabam desistindo de criar por falta de apoio. Se houvesse realmente uma política de incentivo que acabasse com a mamata que alguns têm de todo ano aprovarem algo, artistas e produtores viciados nesse esquema, outros que nunca tiveram acesso poderiam ter vez. Às vezes, ou melhor, muitas vezes, você até consegue fazer um disco, mas falta grana para uma divulgação, prensagem de cds, ou para fazer uma tour por algumas capitais. Hoje, os artistas autorais são verdadeiros heróis. Poucos mesmo ganham algo com sua arte, tendo que tocar na noite ou trabalhar no comércio, ou qualquer bico que aparecer. Nunca irei achar isso normal. Nosso país é desumano, as políticas públicas são logo corrompidas, sempre em favor de poucos. Quem já sabe como usufruir delas, não cede para os novos. E por isso nossa música está enfraquecida. Pouca coisa nova realmente aparece e tem continuidade muito por conta disso.

DA – Diante desse cenário, e como costumamos testemunhar o vaivém de ciclos, acredita que chegaremos num ponto no qual um novo e alternativo modelo possa surgir?

RICARDO CHACON – Como te falei, existem tentativas como foram o fora do eixo, coletivos, etc. As vanguardas sempre irão surgir ou, neste momento, estão acontecendo. Mas o mercado mudou, tudo caminha para novos modelos de distribuição dos discos, das músicas. Hoje é só jabá, muita grana para as assessorias caríssimas te divulgarem e pouca demanda, a não ser que a música toque numa novela da globo ou que a banda apareça em um dos seus programas. Mas às vezes nem é o que realmente almejamos. O que realmente queremos da música é podermos pagar nossas contas dignamente e ter apoio, sem cartas marcadas. Ou será que é só no futebol que acontecem os 7 a 1 da vida? Não, definitivamente.

DA – O fato de voltar a tocar na noite trouxe outros sentidos para sua carreira?

RICARDO CHACON – Eu, na verdade, sempre toquei na noite, foi a minha escola desde sempre. E assim toquei meus projetos paralelos, sem precisar de grana pública, principalmente durante a Nós4. Depois que a banda parou, em 2012, foquei no meu novo disco e busquei trabalhar mais nesse mercado, mas não tive apoio na minha cidade. Os festivais daqui não me deram espaço pelo preconceito. Preferiram artistas que forjam uma vanguarda, alguns até sem disco gravado, ao invés de valorizar o meu esforço e ouvirem meu trabalho, sem qualquer recalque. Por isso, em 2014, foquei em reconquistar meu espaço na noite pernambucana. Precisava voltar a ganhar dinheiro para pagar as contas. Mas a obra está aí. Quem sabe um dia irão ouvir melhor o Terra ou o Chaka Nights, sem qualquer preconceito porque não faço a linha vanguarda forçada. Sou de verdade.

DA – Há planos concretos para um possível retorno da Nós4?

RICARDO CHACON – Nada concreto, apenas sondagens.

DA – Muitos artistas, sobretudo os independentes, têm aderido à prática do crowdfunding como forma de bancar seus discos e projetos. Mais do que uma perspectiva de sobrevivência, essa realidade aponta para uma negação ao modelo imposto pela indústria fonográfica tradicional? Há muito mais por trás disso?

RICARDO CHACON – É um modelo interessante para quem tem um público ou para quem consegue de alguma forma mobilizar uma galera, principalmente através das redes sociais. Mas para a grande maioria é difícil mobilizar e arrecadar a quantia suficiente. Mas não deixa de ser uma alternativa de conseguir o recurso.

DA – No caminho que vai do homem ao artista Ricardo Chacon, quais sentidos melhor definem a música em sua vida?

RICARDO CHACON – Eu tenho plena ciência da minha escolha, de seguir esse caminho de incerteza, mas também de um prazer que nunca encontrarei fazendo outra coisa que não seja cantar e estar no palco. Neste caminho, a persistência e a paciência são extremamente importantes. Como te respondi certa vez, meu trabalho não para por aqui. Estarei sempre em busca de um aprendizado maior e da verdade no meu trabalho, mesmo que isso não signifique sucesso para os outros, mas para mim estarei realizado.

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91ª Leva - 05/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

NAÇÃO ZUMBI – NAÇÃO ZUMBI

 

 

Veias, coração, desejos, legado. O trecho de Cuidado, faixa do oitavo álbum da Nação Zumbi parece sintetizar a capa e o sentimento presente no mais recente trabalho da banda. Vinte anos depois do icônico Da Lama Ao Caos (1994), o sexteto pernambucano afaga as cicatrizes deixadas pela prematura morte de seu idealizador Chico Science, em 1997, e lança um disco calcado nos primórdios do manguebeat. Com uma roupagem solar e dançante, Nação Zumbi (2014) traz 11 faixas inéditas, depois de um intervalo de 7 anos desde Fome de Tudo (2007) – hiato este marcado por projetos paralelos de seus integrantes, pelo lançamento do DVD Ao Vivo no Recife (2012) e do duelo Mundo Livre vs. Nação Zumbi (2013), no qual a trupe comandada por Fred 04 canta músicas do grupo de DuPeixe e vice-versa.

Produzido por Kassin e Berna Ceppas, o conceito do novo álbum parece inspirado na passionalidade narrativa de Nelson Rodrigues. Isso talvez explique a visceralidade que permeia toda a obra. A matriz manguebeat eternizada por Science é mantida, porém, vez ou outra, pop e rock se fundem de maneira exótica, o que pode causar certa estranheza aos fãs mais radicais, ávidos pelo compasso dos tambores. Como frisou o vocalista em uma entrevista, ‘é um caminho diferente para a mesma casa’. Distribuído pelo selo Natura Musical/SLAP (Som Livre), o trabalho está disponível em diversas plataformas digitais, incluindo o canal oficial da banda no YouTube. Todas as composições são assinadas por Jorge DuPeixe (vocais), Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo), Pupillo (bateria) e pelos percussionistas Gilmar Bola 8 e Toca Ogan.

 

Nação Zumbi / Foto: Divulgação

 

Cicatriz, faixa de abertura e primeiro single do disco, fala das marcas estampadas na derme da nossa vida (fica bem desenhado só pra ser bem lembrado/risco do erro malvisto, malquisto e mau-olhado). Os versos crus de Bala Perdida relatam a fração de segundo que separa a vítima do sobrevivente (vi quando você passou/pra se esconder em outro alguém/senhora bala, me deixe passar/logo eu que sou pacífico/senhora bala, me dê licença/eu não sirvo pro seu destino não). Defeito Perfeito tem uma levada funk e os sempre potentes riffs das guitarras de Lúcio Maia. O Que Te Faz Rir ensina, entre outras coisas, a manter ‘a leveza num dia de cão’ e conta com os backing-vocals de Laya Lopes (cantora da banda cearense O Jardim das Horas) e de Lula Lira, filha de Science.

As três canções seguintes compõem o momento mais suave do álbum. A primeira delas é a ‘ciranda que não para’, A Melhor Hora da Praia, balada com arranjos de cordas e participação de uma onipresente Marisa Monte. A cereja do bolo (ou o caranguejo do mangue) fica a cargo da onírica Um Sonho (estão comendo o mundo/ pelas beiradas/roendo tudo/quase não sobra nada), onde DuPeixe empresta toda sua verve melódica, até então pouco explorada, para cantarolar sobre um doce devaneio. Os versos de Novas Auroras (feliz pelo que ainda não veio/saudades do que nem foi/esperando o melhor dos agoras/nem temos o antes e já queremos o depois) encerram o bloco analisando nossa insatisfação com o tempo, ou com o ‘Hoje, Amanhã e Depois’, parafraseando a canção de Futura (2005).

Se Nunca Te Vi (vivo na promessa de encontrar você/me perco na incerteza disso acontecer) aborda a busca por alguém idealizado, a intensa e belíssima Foi de Amor – já presente em shows da banda antes do lançamento do álbum, inclusive em sua apresentação na edição brasileira do Lollapalooza deste ano –, compara o amor a ‘uma droga mais que letal/quando não mata, aleija/faz esse temporal/não tem nem contraindicação/dependendo da dose/acelera e racha o coração’. As sirenes de Cuidado (quando você não ouve seus passos/você perde o chão) anunciam uma espécie de indie-rock preventivo que deságua na explosiva Pegando Fogo, encerrando o álbum com todo o amor e fúria dos mangue-boys.

É bonito de ver que, duas décadas depois, como profetiza Mateus Enter, faixa que abre Afrociberdelia (1996), o coletivo permanece ‘com Pernambuco embaixo dos pés e a mente na imensidão’, fazendo um som vibrante, renovado e sem síndrome de underground. E se ‘você dá um passo à frente e não está mais no mesmo lugar’, nada mais justo que todos os caminhos levem à Nação Zumbi.

 

 

Larissa Mendes é uma mangue-girl do oeste catarinense.