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151ª Leva - 01/2023 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

 

A descoberta do infinito

 

Ariel e Duda tinham uma grande amizade. Nasceram na mesma data e local. Enquanto Ariel queria agitar, Duda cuidava de tudo. E era isso que fazia a amizade tão forte. Completavam-se nas diferenças. Ariel nunca abandonou Duda no tédio. Duda jamais deixou Ariel entrar em enrascada. Contudo havia algo errado. O mundo parecia estar de cabeça para baixo. Minhocas que eram, viviam na terra. Sabiam que em direção ao centro do planeta tinha pedra e, mais para dentro, tinha muita quentura, tanta que a pedra derretia. Para a direção contrária, o mundo terminava nos limites da superfície, onde a terra se limitava com o ar. Minhocas ocuparam a região subterrânea desde o início dos tempos. Porém nenhum salto de minhoca nos ares foi registrado. E isso intrigava Ariel. Talvez temessem a captura por seres que habitavam aquele espaço, como aves, humanos e toupeiras.

Certo dia, Ariel convenceu Duda a irem aos limites do mundo conhecido. Queria testar a realidade. E queria registrar aquele momento. Por isso Duda iria também. Ariel portava uma câmera fotográfica. Quando chegou à casa de Duda com o plano pronto, a primeira foto foi da sua expressão reticente:

– Tsc tsc tsc, isso não vai dar certo, disse Duda balançando a cabeça de um lado para o outro.

– Claro que vai, Duda, e lembrarão de nós por isso, respondeu Ariel categoricamente.

Os olhares se atravessaram de forma profunda. Ariel já sabia a resposta. Se isso acontecia, Duda tinha topado. Era um desafio singular e Duda sempre acompanhava Ariel em suas ideias.

– Não passaremos por essa vida à toa, afirmou Ariel.

– Mas não faço questão de escolher algo que seja perigoso, retrucou Duda enquanto caminhavam pela rua central do vilarejo.

Caminharam uma hora pelas raízes laterais, depois duas horas pela raiz pivotante, até atingirem a zona principal das raízes do Ipê-amarelo, perto do tronco, e pararam para descansar. Pegaram o lanche na mochila, a água, e confabularam o que poderia existir na atmosfera do planeta terra. Será que de fato conheciam? O que aconteceria naquela jornada? Eram dúvidas que somente seriam respondidas depois que terminassem o dia. Finalizaram a refeição e seguiram viagem. Afastaram-se uma boa distância do tronco do Ipê-amarelo e depois subiram em direção ao fim do solo. Quando atingiram a superfície, conheceram de imediato o infinito. Que visão esplêndida! O tronco do Ipê-amarelo erguia-se imenso, com a copa aberta lá no alto, tão distante, seguida de um interminável azul do céu. Enquanto contemplavam a vista sem precedentes, a brisa acariciou os seus rostos e sentiram algo realmente novo.

– Ariel, nada que eu pudesse imaginar explicaria o que sinto agora, confessou Duda.

A manifestação não demandava resposta. Sorriram e continuaram a sentir a brisa. Era um dia de verão. O tempo estava limpo, a temperatura amena. Poderiam passar dias assim, não fosse o risco desconhecido. De onde estavam, planejaram como seria o salto. Duda permaneceu no mesmo lugar e Ariel foi até a raiz mais próxima, que estava exposta fora da terra. Subir uma raiz não era como andar no subsolo. Precisava de mais equilíbrio para superar os obstáculos sem apoio, vencer a gravidade e não escorregar. Para Ariel não foi tão difícil, mas para Duda seria. Duda suava só de ver Ariel vencer cada etapa.

– Duda, existe muito mais terra do que sempre imaginamos!

A exclamação de Ariel tentava traduzir a sensação de enxergar o gramado que circundava o Ipê-amarelo, as árvores ao fundo e o desconhecido brilho da água reunida no lago próximo. Duda interrompeu seu êxtase:

– Pule logo!

Ariel atendeu à ordem. Retorceu todos os anéis de seu longilíneo corpo e saltou aos flashes de Duda. Enquanto manobrava no ar com a naturalidade inexplicável para qualquer minhoca, um pássaro mergulhou em sua direção. Queria capturar Ariel em pleno voo. Duda assustou-se, gritou, tirou fotos e correu, tudo por instinto e medo. Sentiu então algo empurrar sua cabeça contra a terra e não viu mais nada. Ariel pressentiu a tensão e olhou para trás. O pássaro se aproximava como uma flecha até que bateu uma das asas na raiz de onde Ariel saltou. Lado a lado, Ariel e o pássaro caíram sobre a grama. O pássaro se levantou, encarou Ariel e investiu com toda a velocidade, de bico aberto. Um milésimo de segundo. Nada mais do que isso. Alguém puxou Ariel para dentro do solo e o pássaro encheu o papo de terra.

– Foi por um triz, disse ainda ofegante.

– Quem é você? Perguntou Ariel abrindo os olhos.

– Eu não tinha nome. Moro por aqui desde que nasci. Certa ocasião alguém que passava me chamou de Lee e disse significar habitante do prado. Desde então eu me apresento assim.

– Muito obrigado… mesmo!

Ariel entregou o corpo, mas de imediato se ergueu e indagou:

– Você viu Duda? Estava ali adiante.

– Sim, enfiei na terra quando passei para salvar você, contou Lee sorrindo.

Lee trouxe Duda para perto de Ariel e sentaram para descansar.

– Meu coração ainda está acelerado, disse Ariel.

– Deixe-me ver, atentou Lee ao encostar no seu corpo.

Ao sentir as batidas do coração de Ariel, a expressão de Lee causou estranheza. Duda, para evitar qualquer má notícia, disparou a falar:

– Somos do Buraco de Minhoca, um vilarejo localizado na zona pilífera das raízes laterais desse Ipê-amarelo. Moramos lá, pouco depois da região metropolitana. A capital da população de minhocas do Ipê-amarelo estende-se desde a parte antiga da ocupação, na zona principal das raízes, até a parte nova, na zona lisa, onde ocorre a expansão urbana, interligadas pela raiz pivotante. Você poderia nos visitar um dia, Lee. Agora temos que ir. Temos fotos para revelar e precisamos superar o baita susto de hoje.

– Fiquem um pouco mais, respondeu Lee. Quase ninguém passa por aqui e eu gostei da companhia de vocês.

– Duda tem razão, Lee. Temos que ir. Nós devemos essa salvação a você e será um prazer enorme receber a sua visita em nossa vila. Não deixe de aparecer. Nossa comunidade é isolada e se alegra demais quando chega alguém de fora. E esperamos ter boas fotos para mostrar.

Todos se despediram. Ariel e Duda tomaram o caminho de casa e Lee permaneceu espreitando até não ver mais ninguém.

 

Geraldo Lavigne de Lemos sofre de poesia crônica, costuma alinhavar a alma nas memórias e se imiscuir entre as letras para expressar o que sente. Escreveu cinco livros de poesia, coorganizou uma antologia e tem no prelo uma reunião dos quatro primeiros livros. Agora se arrisca em textos curtos de prosa

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Leandro Damasceno Leal

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Meu filho

 

Angelo Badalamenti morreu. Foi outro dia, foi dia desses. Aqui em casa, ele vive no som que sai das caixas e abafa outro, vindo de uma britadeira tão longe, tão perto. Antes da britadeira, veio o batuque, o da torcida, exaltado a cada transmissão dos jogos do Brasil. Seleção eliminada amanhã faz uma semana, pandeiros e atabaques silenciados, chances de Hexa mais finadas que o compositor, resta ao pedreiro trabalhar hoje sem a ressaca do jogo de ontem, o que não houve, sem a cabeça inchada pela goleada que, muitos garantem, levaríamos da Argentina. Muitos brasileiros comemoram o fato, os fatos, de termos sido poupados da humilhação, de Messi poder enfim levantar a merecida Taça, de simplesmente o Brasil ter se fodido, bem-feito, o time do menino mimado sonegador não me representa.

O rapaz era desses. Metrô lotado, sexta passada, uma hora antes do jogo, camisas e adereços verde-amarelos por toda parte, ele ilhado. Por cima da máscara de novo obrigatória no transporte público, seus olhos se alternavam entre a talvez namorada e os outros passageiros, a uma o carinho, aos outros o desprezo. Cabelo comprido na altura do peito, camisa de flanela da cor do seu voto e camiseta do Ratos de Porão, para não restar dúvidas de que ambos eram vermelhos. As lentes dos meus óculos escuros o impediam de ver que eu o observava e protegiam meus olhos dos seus, mais perigosos do que os raios UVA e UVB.

Eu era só mais um alienado, desprovido de senso crítico, se não pior, quem sabe vindo da frente de algum quartel, saído de lá por poucas horas apenas, só o tempo de ir até algum bar assistir ao jogo e tomar umas brejas com outros golpistas também de folga. Ele era o filho que eu nunca tive, cabelo mais comprido do que o meu na idade dele, mais liso por ter puxado à mãe, a camisa de flanela igual, o voto igual.

Visto pelos olhos do meu filho, passei a também me desprezar, vendido, com a vida ganha, a vida fácil, fácil ignorar a desgraça que abate tantos, o sistema que a tantos crucifica, como diz o Gordo, não se abalar com os mortos, com os miseráveis, famélicos, vestir as cores-símbolo do fascismo tropical, da pátria amada apenas por quem, como eu, não é vítima dela. Isso, tiozão, vai lá ver o seu jogo, vai lá gastar 200 paus, isso por baixo, depois, na saída do bar, passar em frente e ignorar a mãe sentada na calçada, o filho no colo, vai lá, seu arrombado.

Mas eu não sou o que meu filho pensa de mim. Meu filho não existe. O que existe é o som de Angelo Badalamenti e o som da britadeira, cessado há pouco, hora do almoço do pedreiro.

 

Leandro Damasceno Leal é paulista de São Caetano do Sul, onde nasceu em 1977. Desde 1999, trabalha como redator publicitário. Estreou na literatura em 2014 com o romance “Quem Vai Ficar Com Morrissey?” (Edições Ideal). Em 2021, publicou “Olho Roxo” pela Realejo Livros. Em 2022, lançou “Fidel e a peste”, pela mesma Realejo.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rodolfo Guimarães Neves

 

Foto: Yuri Bittar

 

O CONCÍLIO

 

Telepaticamente, um filho se dirigiu a um dos pais, ambos diante de um grande visor, pelo qual se observava o esplendoroso planeta Terra em sua contínua rotação. Há milênios os Ankers aboliram a fala.

— Pai, as chances são de 0,3366%.

A Estatística e a Probabilidade dessa civilização eram infinitamente mais avançadas que a dos humanos, aos quais mais pareceriam pura precognição.

— Em quanto tempo? — retrucou o pai.

— Menos de um século, na contagem de tempo deles. Eles estão no ano 2126 D.C.

Uma lágrima rolou do olho esquerdo do Pai, que continuou:

— Sabemos quem viemos resgatar.

O filho fez uma súplica:

— Nossa facção acredita neles, Pai. Dê-nos uma chance. Convoque o concílio.

O Pai olhou para seu filho. Ainda tinha muito que aprender. A compaixão, entretanto, era algo caro demais à sua civilização e devia ser respeitada. Entendia a imaturidade dele e de todos de sua facção.

No coração da gigantesca nave à órbita da Terra, cuja civilização humana sequer suspeitava de sua presença, apesar de todo o seu avanço tecnológico, com seus satélites e estações espaciais, um concílio que decidiria a sorte da Humanidade foi aberto em uma grande assembleia. Ao centro, os pais, à esquerda destes, os filhos da facção humanista e, à direita, os filhos da facção legalista, a grande maioria.

Na abertura dos trabalhos, os pais telepaticamente lembraram a todos os filhos:

— Vocês sabem de nosso propósito neste sistema solar. Não precisamos lembrar que o tempo é escasso e nossa energia, ao momento, também.

A viagem tinha sido muito longa.

Ao centro da assembleia, imagens mentais compartilhadas eram geradas pelo poder das mentes de todos.

O advogado, representante de toda a facção humanista, tomou a frente:

—  Pais e irmãos, a epopeia humana na Terra corre o risco de chegar ao fim em pouco tempo. É algo precioso demais para ser ignorado.

Imagens em sequência de todos os fatos humanos mais notórios foram projetadas ao centro do grande anfiteatro. O líder da facção legalista deu um passo à frente e respondeu:

— Pois a culpa é toda dessa civilização. Eles causaram as mudanças climáticas, ofendendo nossa grande Mãe Natureza, impuseram a si próprios o risco nuclear iminente, perderam gradativamente seus valores e se tornaram vis e malignos. Como disseram nossos pais, aqui presentes, não nos esqueçamos de nosso propósito. Catalogaremos suas conquistas em nossa enciclopédia, assim como fizemos com outros seres.

Os pais assistiam ao debate com olhares serenos e muita atenção.

— Mas eles têm chances de sobreviver e reflorescer! — disse o advogado.

— Ínfimas, nada que possa justificar nosso colossal empreendimento, que tanto demanda tempo e energia.

As imagens ao centro converteram-se em cenas de destruição e guerra.

— Tenham compaixão, meus irmãos legalistas…

— Ora, meus irmãos humanistas, a nossa lei é justamente o Amor. Há diversas espécies mais empáticas que os humanos. Não há como salvar todas do mal que essa espécie que vocês defendem causou.

As imagens ao centro do anfiteatro alternavam-se em representações de cavalos, elefantes, cachorros, pinguins, baleias e outras mais.

O advogado humanista disse:

— Eles são mais inteligentes, têm engenharia, sabem coisas da matemática, colonizaram seu planeta vizinho…

— Não nos faça rir, meu irmão — disse o líder legalista — suas construções, para nós, que estamos a milhões de anos à frente, não se diferenciam muito de uma casa de um pássaro joão-de-barro. A questão aqui é moral, e vocês, humanistas, sabem disso!

Os pais intervieram em uníssono em sua telepatia:

— Lembramos que precisamos de todo o amor possível para vencermos as forças entrópicas do Grande Nada.

O líder legalista lançou um olhar compreensivo aos pais e, logo após, desafiador ao irmão, advogado daquela causa perdida. Este, com lágrimas nos olhos, implorou por compaixão:

— As artes, não nos esqueçamos de sua bela arte.

Cenas de arquiteturas, pinturas, filmes, peças de teatro, esculturas e todas as formas de artes humanas, em sua maior expressão, surgiram no centro da grande assembleia.

— Já está em nossa enciclopédia, irmão, não será esquecida. Além disso, todas as formas de arte humanas estão em declínio há décadas.

— As grandes personalidades dessa civilização e seus grandes mestres benfeitores, seus ensinamentos…

Imagens de Shakespeare, Buda, Gandhi, Jesus, Madre Tereza de Calcutá, Gilberto Gil, Martin Luther King, Mandela, Leonardo da Vinci, Michelangelo e muitos outros grandes nomes da Humanidade foram se desenhando alternadamente.

O líder legalista, com olhar de certa indignação, respondeu em tom grave:

— E o que fizeram com o seu maior mestre? Crucificaram-no!

O advogado humanista retrucou de imediato:

— Eles podem aprender, nós podemos ensiná-los!

Todos os pais, ao centro, voltaram seus olhares reprovadores ao advogado e disseram telepaticamente em tom elevado:

— Não podemos violar a Lei!

O líder legalista engrossou o coro:

— A Lei e nosso empreendimento! Viemos atrás da espécie mais amorosa para salvá-la do perigo iminente. Precisamos de todo o amor no Universo para completarmos nossa missão. Não há necessidade em lembrar que a questão não é inteligência e, sim, empatia.

— Pais, imploramos, eles podem evoluir…

O líder legalista interveio de imediato:

— Assim?

Logo, as imagens ao centro se converteram em perversões, guerras, assassinatos, crimes de todas as espécies, corrupções, vilanias etc.

Os pais, em bloco, abaixaram as cabeças e fecharam os olhos, recusando-se a verem coisas tão baixas, há milhões de anos esquecidas em sua própria civilização.

Em uma última cartada, o advogado converteu as imagens em demonstrações, de afeto, atos de honra, atos heroicos, cenas de nobreza de espírito, cenas de amor familiar, com os dizeres telepáticos:

— Para nós, humanistas, essas pessoas que mostramos agora têm um valor inestimável de amor que supera o conjunto de todas as demais espécies. Deem-lhes uma oportunidade! — disse em retumbante apelo sentido por todos em seus corações.

O líder legalista se voltou aos pais e finalizou seu discurso:

— Estamos aqui pela espécie e não por indivíduos. Lembramos: 0,3366%. Não merecem tamanho risco e consideração. Não podemos encher nossa nave de monstros. Não temos tempo e energia.

O advogado apenas se restou a falar:

— Pais, esperança e compaixão!

Os pais, encerrando o debate em ordem telepática, após breve meditação, obtiveram o consentimento de todos, que restaram em silêncio mental. E deram a ordem final:

— Mapeiem o DNA de todas as espécies amorosas e façam o resgate da espécie mais nobre deste planeta. Não temos muito tempo.

E assim foi feito. Um grande arrebatamento foi efetuado e a nave partiu para outro sistema solar.

Um representante dos pais foi receber, em um imenso salão, os membros da espécie escolhida. Sentiu em seus corações o amor familiar, a caridade, a compaixão, o senso de proteção mútua. Toda aquela boa energia que captou, retribuiu gentilmente.

Com seus passinhos desengonçados, um dos pinguins se desgarrou do grupo e caminhou para mais próximo daquele pai. Nunca tinha sentido tanto amor. Girou a cabecinha para o lado, num misto de curiosidade e alegria, e o olhou com gratidão. O pai retribuiu aquele olhar feliz, que era a própria felicidade da Mãe Natureza, e sorriu.

 

Rodolfo Guimarães Neves. Nascido em 01/11/1979, em Olinda, Pernambuco. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. Seu conto “O Mal Iluminado” compõe a antologia de contos “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, da Editora Paradoxo, e roteirista da HQ homônima, nela baseada, juntamente com o quadrinista Pedro Ponzo. É também autor da antologia de contos e poemas intitulada “Eles, Outros Contos e Poemas” e da peça teatral “Ressentimento”, estas últimas da editora IGP. Foi selecionado no concurso de contos “KosmoKontos” da Editora Ventura com seu conto “A Invocação” (2022). Por fim, é autor do frevo de bloco “Cidades Irmãs” e do frevo canção “Aurora das Festa”, cujos arranjos foram elaborados pelo Maestro Parrô Mello e encontram-se devidamente registrados na Biblioteca Nacional. 

 

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150ª Leva - 05/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Adriano Espíndola Santos

 

Foto: Yuri Bittar

 

Homens de bens

 

Naquela tarde, mesmo com o compromisso de buscar o neto na escola, Hélio decidiu sair de casa para encontrar a sua turminha na praça Castelo Branco, porque julgou ser mais importante, caso de providência nacional. Era costume encontrá-la aos sábados, no bar do Jonas Boca de Baleia, só que, desta vez, teriam de bolar um plano. O presidente viria a sua cidade, Fortaleza, no próximo sábado; era imprescindível que o recebessem com honras e pompas, para que se sentisse mais poderoso do que já é – pensava. Falaram sobre as perspectivas da tomada definitiva do poder pelo presidente; que não seria aceitável, de forma alguma, terem novamente o bandido de “nove dedos”. Gozavam e babavam ao falar, tomando, cada qual, a sua cervejinha de lei. Hélio achava que a conversa se estendia e que perderiam o fio da meada: “Caros patriotas, um minutinho de sua atenção… Precisamos mostrar a nossa lealdade ao nosso chefe maior, e, para isso, temos de ser merecedores das insígnias nacionalistas. Explico-me: o tempo está acabando. Chegou a hora de enfrentarmos os comunistas, custe o que custar. Faremos investidas radicais e filmaremos tudo, para entregar-lhe as gravações. O certo é que, estando ele no poder, seremos prontamente o seu braço direito nesta capitalzinha de merda”. Sim, Hélio falava como mandatário do povo, como o verdadeiro dono da província. Os demais, ávidos por sangue, não escondiam o frenesi em começarem os trabalhos. Combinaram de pegar as suas armas: uns com facas, espadas; outros, por disposição dos novos decretos presidenciais, com suas pistolas lustrosas. Esconderam as bandeiras que flanavam nos carros. Seguiram em comboio para os bairros centrais da cidade, onde poderiam encontrar estudantes e outros seres degenerados. Depararam-se com uma vítima: uma senhora de seus quarenta anos, claramente diarista ou doméstica – e a razão da escolha é porque ela levava uma bolsa com o broche de Lula. Esperaram que entrasse numa rua esquisita, transversal à avenida principal. Desceram quatro, com armas em punho. “Encoste na parede, sua vagabunda! Vai votar mesmo em quem? Em quem?! Bora, desembuche! Ah, não quer falar, né?! Pois, para aprender a votar direito, vai aguentar uns corretivos!”. Bateram, bateram, até deixá-la desnorteada, com a roupa em farrapos, com um furo grande na bolsa, onde antes estava o bendito broche. Mais à frente, encontraram quem queriam, um jovem metido a revolucionário. Colocaram-no no carro de Hélio e aí fizeram as maiores atrocidades: cortaram seus cabelos, bateram em sua boca, deixando-o desfigurado; obrigaram o rebelde a dizer que votaria no presidente. Largaram o sequelado numa rua distante, para os lados do bairro Antônio Bezerra. Queriam mais, mas Hélio achava que teriam material mais do que suficiente. Voltaram ao ponto de encontro e lançaram, aos risos, os vídeos para os grupos de WhatsApp. À noite, quando Hélio voltou regozijado para casa, percebeu que havia notícias sobre atentados políticos feitos por idosos, defensores do presidente, em sua cidade. A mulher e o jovem lesados prestaram queixa e falaram ao veículo de comunicação mais conhecido do país. Hélio titubeou, achou que poderia dar bronca, mas um colega, o Sérgio Cabeção, que estava no meio, telefonou para tranquilizá-lo: “Isso não vai dar em nada, patriota. Amanhã já esquecerão… E mais, o recado foi dado; a vagabundagem vai pensar duas vezes em usar um material com a figura do bandido de nove dedos”. Qual não foi a surpresa de Hélio ao ser acordado pela mulher, no dia seguinte: “O que foi isso, Hélio, me explique logo! Vi um vídeo na televisão em que aparecia o seu rosto e dos seus amigos, espancando aquela mulher e o rapaz que apareceram ontem na televisão. Ainda ameaçaram o ministro careca. Vocês piraram ou o quê?!”. O mesmo ministro carequinha determinou a prisão dos suspeitos. Meia hora depois de ter acordado, Hélio era levado à delegacia, onde encontrou os comparsas. A maior tristeza, que declaravam no olhar, é que não veriam mais a carreata do presidente na Capital. Hélio pensou que a esquerda estava por trás de sua prisão; mas não lhe soaram estranhos os atos do dia anterior. Para as câmeras acenou e gritou, isolado: “Lula ladrão, seu lugar é na prisão!”.

 

Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Catharina Azevedo

 

Ilustração: Drika Prates

 

O pedido

 

Ela começou a atravessar em um passo pequeno, amedrontado. Os olhos cinzentos e lacrimosos varavam a rua em uma súplica muda, procurando se deter no primeiro transeunte. Era tão velha que parecia parar a qualquer momento para dizer que havia sido testemunha da primeira pedra que colocaram na rua, quando a rua ainda era feita de pedras. Olhá-la era como ver algo capaz de tombar a qualquer momento; não, nem tombar, que haveria no tombo ainda uma violência que não combinaria com ela. Parecia mesmo era prestes a desvanecer, assumir as cores da noite antes de sumir lentamente, imperceptivelmente — ela estaria de mãos dadas com o passante que se deixasse alugar, um tipo mole demais para repeli-la: aqui (a voz trêmula), aqui era a antiga casa de um industrial, uma construção tão linda (os olhos lacrimosos), datava do período do Imperador. Não, acho que era colonial — e em um átimo, seu corpo feito de éter, um vento noturno, nada.

Do outro lado da rua, as meninas faziam ponto. Equilibravam-se em saltos imensos, desfilando os corpos repletos de lantejoulas pretas, rosas, douradas, coladas no busto ou nas saias curtas. Uma delas viu a velha e cutucou a colega com o cotovelo. Apontou para o outro lado com o queixo.

— Ó lá, alguém largou a vovó no Centro.

— Vai ver se perdeu — disse a outra moça. Não insistiu no assunto: um carro preto se aproximava, e por trás do vidro abaixado um homem musculoso fez uma gracinha. Ela se encostou no vidro, o antebraço roçando entre o do homem, as frases retardadas por um chiclete entre os dentes brancos.

A primeira moça continuou olhando. Chamava-se Daiane. Tinha outro nome, mas não importa. Tinha também uma pele branca emborrachada, como de lagartixa. Assim que chegou, disseram que era pele daquelas lá do interior mesmo, as tabaroas. Pois era mesmo do interior e possuía uma história difícil, acreditaria ser sofrida caso não fosse tão atordoada em relação aos seus próprios acontecimentos particulares — uma história dessas que empurra as mulheres pra zona, enfim. Mais do que loiros, os cabelos eram amarelos, tingidos da cor de gema de ovo, e naquele momento Daiane não acreditou que a mulher fosse atravessar a rua.

Porque, por estranho que fosse uma idosa no centro da cidade àquela hora da madrugada, caminhando seu passinho pequeno que ignorava que tudo ao redor estivesse um ermo; mais estranho ainda seria aquela velha prosseguir até o outro lado, visto que do outro lado havia a zona e mais nada. Entretanto ali estava ela, com seu passo de santa. Talvez fosse uma visão de santa.

Daiane se aproximou de outra moça.

— Tem algum velho aí hoje?

A mulher lhe lançou um olhar desconfiado.

— Que foi?

— A senhorinha tá vindo pra cá — Daiane apontou com o queixo outra vez. — Acho que está procurando o marido. Ou o filho.

— E eu com isso? Suma daqui, vá, você está me atrapalhando.

Daiane abriu caminho e voltou ao trabalho. Houve justiça no fato que, uma vez tendo ganhado a calçada, a velha procurasse seu braço para encaixar a própria mão e dizer, numa voz também tímida:

— Mocinha, onde que eu falo com o dono?

Ela deu um sorriso nervoso. Retesou o corpo. Outro carro se aproximava. Tentou afastar o braço com delicadeza, mas o aperto da velha pareceu se tornar, de repente de ferro.

— Preciso falar com o dono.

— Minha senhora, isso aqui é um puteiro.

E a velha respondeu:

— Eu sei.

Muitos pensamentos podiam ter tomado conta de Daiane ao escutar a afirmativa; prevaleceu, entretanto, o medo pelos clientes que perdia a cada segundo que demorava com a velha. Pior ainda se lhe associassem indelevelmente à figura encolhida da mulher — um dos homens nos carros que passavam já havia gritado uma piadinha obscena: é quanto com a vovó? Daiane prosseguia com seu riso nervoso, um riso que mascava o desconforto até que este se encolhesse e se disfarçasse.

Mas não houve jeito de se livrar da velha. Logo as outras moças se aproximaram sorrateiramente.

— A senhora está se sentindo bem?

— Estou, estou sim. Quero falar com o dono.

O “dono” era um homem negro do pescoço de touro que se chamava Cláudio. Se não era bom, também não era de todo ruim. O fato é que nenhuma das moças tinha vontade de chamar por ele — o que seria um sinal de desordem, e não havia, entre elas, nenhuma que quisesse admitir uma desordem. Desconheciam se Cláudio estava de bom humor ou não: a mesma mão capaz de matar um cliente violento, daqueles que obrigam coisas nojentas e substâncias; essa mesma mão poderia lhes marcar a pele caso se sentisse no direito. Especialmente os assuntos relacionados a dinheiro o transformavam em um bruto.

Foi, por fim, Soraia, uma das mais antigas, que resolveu explicar:

— Dona, aqui a gente não tem chefe, chefe é o cafetão.

— Mas é com ele que eu quero falar, mesmo.

E, porque nenhuma delas se moveu um centímetro sequer, a velha ajeitou o casaco de lã e avançou para a construção.

Uma luz vermelha brilhava ali dentro. Dois quartos tinham as portas fechadas; em um se entrevia uma cama de solteiro, encostada na parede, um espelho, uma cadeira e o que pareciam ser revistas pornográficas em uma cômoda. A velha avançou muito cândida pela sala até dar com um homem calvo, de uns cinquenta anos, que ria de um vídeo qualquer no celular.

Ele levou um solavanco. À sua frente, a velha toda tremia. Usava um casaquinho de lã com um único botão grande, fechado sobre o colo.

— Como posso ajudar a senhora? — perguntou, desconcertado, em uma incerteza entre enxotá-la ou apresentar-se mais polido.

— Estou procurando um homem — disse a velha muito claramente.

Atrás, as moças — cinco das quais não tinham medo de aborrecer Cláudio, ou sentiam que dinheiro algum daquela noite pagava serem testemunha dos acontecimentos — suspenderam a respiração.

A velha prosseguiu, como se aquilo se tratasse de uma entrevista de emprego:

— Me chamo Dita. De Benedita, mas todo mundo sempre chamou assim.

— Como que a senhora chegou aqui?

— De condução.

— E tá procurando homem pra que? — perguntou Cláudio, abobadamente.

— Pra fazer amor.

Restou o silêncio. Uma das moças começou então a rir — tentou esconder o riso entre as lantejoulas da roupa, mas este lhe ultrapassou a boca, transformando-se em uma gargalhada que contagiou as outras pouco a pouco. Dita continuava, entretanto, impassível.

— Meu marido morreu faz tempo, estou cansada de ficar sozinha. E, Deus que me perdoe, não era assim tão bom.

— O amor não era bom? — uma das prostitutas perguntou.

— Assim, assim. Mas Deus que dê paz a ele, era um homem justo. Nunca me faltou nada, não.

— Tô vendo que faltou — Soraia respondeu com malícia.

Cláudio fez uma cara feia — estava gostando cada vez menos daquela situação. Bateu as mãos, virando-se ríspido para as moças:

— Bora, circulando. Chega de corpo mole.

A seguir tornou à velha e acrescentou de mau humor:

— Aqui não tem homem nenhum, só mulher.

Esperava com aquilo — não sabia o que esperava. Era inimaginável que a velha fizesse o caminho de volta pelo bairro semi-abandonado àquela hora. Sequer sabiam como ela tinha sido capaz de chegar até ali.

Ficaram assim por um momento, Dita alisando a saia, aprumando o cabelo ralo penteado e perfumado. Estudou as moças uma por uma.

— E mulher? — perguntou, por fim.

Mulheres, haviam; impossível negar. Dita atravessou a todas com o olhar cinzento que lacrimejava. As moças deixaram de enxergar a velha, passaram a ver apenas um corpo nu.

Do centro do grupo, saiu Daiane. Pôs as mãos na cintura.

— A senhora trouxe dinheiro?

Dita agarrou uma bolsinha minúscula.

— Trouxe, tudo aqui.

— Olha que é caro.

Virando-se para Cláudio, acrescentou:

— Acho melhor ela ficar pra dormir, não quero me meter com caso de morte de velha nessa rua.

Tomou Dita pela mão e a levou ao quarto. As moças puderam ouvir a velha falar, antes que a porta se fechasse:

— Deus te abençoe, filha.

Catharina Azevedo é natural de Salvador, Bahia. Em 2020, publicou o conto No Intervalo, presente na antologia “Soteropolitanos” (org. Matheus Peleteiro, edição independente). Seu primeiro livro de poesias, “deixe o bando correr selvagem”, está em pré-venda pela Editora Mormaço.

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marciel Cordeiro

 

Ilustração: Drika Prates

 

E essa solidão não vai me deixar em paz

 

Ninguém se importa que você esteja escrevendo seu próximo livro. Para eles o mais importante é eleger o novo presidente, ou ir ao show de um cantor sertanejo que cobra cachês exorbitantes. O importante é escrever aquele texto, aquela fala, aquelas linhas. Dizer que o personagem é um maldito esquizofrênico.

Abro a janela. Puxo a persiana e vejo a montanha que protege a cidade. Já não ouço aquela velha canção do Otis que diz, eu espero que você possa entender isso, meu amor. No fundo agora me sinto mais solitário que o Roberto Baggio depois de errar o pênalti. Mas a vida é uma maldita competição sem regras. Você fica perdido num labirinto sem saída.

Volto para aquele bar às margens da avenida. Tenho aquela velha mania de nunca me sentar de costas para a rua. Bebo porque assim a melancolia tem mais sentido. E a garota que amo, diz que fará de tudo para me esquecer. Mas no fundo sou um egoísta, alguém que decepciona no fim.

 

 

 

***

 

 

 

Perdido em São João de Meriti

 

Morei um curto tempo em um quarto de motel, em São João de Meriti.  O motel parecia um prédio velho abandonado. Havia uma luz de néon ofuscada e um estacionamento que funcionava como ponto de usuários de drogas. Ficava próximo aos trilhos da Supervia. Aquele motel atendia as pessoas do submundo. Barato e próximo de uma estação de trem.

Quando passava das dez da noite aquele prédio fervia. Eu saía do meu quarto e ficava dando voltas por ali. Creio, que pensavam que eu poderia ser um cana que trabalhava de segurança nas horas vagas, mas talvez não, eu nunca tive cara de cana. Tinha mais cara de traficante querendo tomar a boca de outro do que qualquer outra coisa.

Certa vez bateu um temporal. Esses temporais de verão que chegam sem avisar. Com direito a raios e trovões. E eu estava debaixo da marquise do motel olhando aquela tempestade. Sou fascinado por tempestade. E de repente veio chegando mendigos, usuários de drogas e travestis. Um aglomerado de pessoas. Ficamos todos ali. Os raios caíam e depois vinha o trovão. Era fantástico. Só que aí chegou a Kombi de abordagem da Assistência Social. Alguns correram, outros fecharam a cara. E eu fiquei na minha. Apareceu uma mulher de óculos com uma prancheta na mão e colhendo os nomes das pessoas. Até que chegou minha vez. Respondi todas as perguntas. Quando a Kombi partiu só havia eu ali debaixo daquela marquise.

Depois um raio atingiu uma torre de telefone. Havia um ponto em comum entre eu e aquelas pessoas. Procurávamos algo. Eu não sabia o que. Muito menos aquela Assistente Social de óculos e com uma prancheta na mão.

 

 

 

***

 

 

 

Sou puro fogo

 

Sou impetuoso. Tenho me controlado. Mas sou filho de Xangô. Tem dias que quero botar fogo no mundo. Então, eu respiro fundo e me controlo, falo comigo, “acalma-se, precisa se livrar desse senso de justiça”. Isso não é bom. A psicóloga diz que preciso descarregar. Desligar o cérebro. Que tenho muita energia acumulada e que isso vai me destruir. Isso me machuca um bocado. Sabe, o filho de Xangô só fica em paz quando a tempestade cai, quando os raios cobrem o céu, quando os trovões estremecem o chão. Temos muitas coisas dos negros africanos que vieram das matas tropicais. Um filho de Xangô não serve para a calmaria. Um pai de santo me disse que devo ter cuidado com os amores, esses amores fugazes e passageiros. Tive várias paixões e não consigo descarregar do que já passou. Parece que estamos amarrados ao outro. O amor parece me socar ferozmente. Fico na lona. Melancólico e deprimido. A melancolia tem gosto de suco gástrico que sai junto ao vômito em dias de ressacas. Tenho me cuidado. Buscado mais espiritualidade, sou muito cético.

E hoje pela manhã comprei uma briga com um velho que estava colocando dois galos para brigar. Tenho pavor aos maus tratos com animais. O velho falou que aquilo era hobby, que era a única coisa que tinha pra fazer. Eu não me importei com a solidão dele. Eu também preciso cuidar de minha solidão. Por fim voltei para casa e liguei o rádio. O locutor entrevistava uma advogada com especialização na área econômica. Falava que algo precisaria ser feito para salvar a economia. Eu fico triste todas as vezes que ouço esse papo furado.

Tenho que fazer um banho de descarrego. Cuidar do santo. Preciso deixar de pulverizar raiva pelos poros. Vou ao banheiro e me masturbo. Isso me deixa leve por alguns minutos.

 

 

 

***

 

 

 

Eu gosto de me sentir forte e importante. Acho que todos nós. Ninguém nasce fadado ao fracasso. No entanto, há um sistema que não conhecemos que tenta nos deixar para baixo. Quando criança você sonha, quer ser algo importante quando estiver adulto. Eu quis ser um monte de coisas, por fim me restaram duas opções. Vagabundo e escritor. Na verdade, acho que sou os dois. Um vagabundo é um intelectual pobre, fica ali garimpando o que todos acham que não presta e o escritor é um vagabundo oportunista. Passa tudo para o papel. Nesses momentos de crise há muita matéria-prima para um escritor. Somos como os banqueiros. Mas os banqueiros querem grana. Lucro. E só. Já um escritor escreve por egoísmo, para dar sentido à vida, ou nem sabe ao certo por que escreve.

Às vezes ficamos improdutivos. Não há nada para escrever. Sentamos frente ao computador e não conseguimos. Tento escrever sobre o amor, esse amor comercial do sistema capitalista, escrever de coisas fúteis que parecem importantes para muitas pessoas. Ou uma crítica pesada à política. Não. Isso não é legal. Uns falam que para escrever precisamos de técnica, outros falam em coisas espirituais. Comigo não funciona. É como sexo. Eu escrevo como se fosse uma boa transa. Uma foda. Eu gosto da palavra foda. É mais subversiva.

Nesses últimos dias tenho ficado inquieto. Ando impaciente pela casa. Falo sozinho e recito uns poemas em voz alta. Canto canções que invento. Eu nunca lembro uma canção por inteiro. Sou péssimo para cantar. Mas é isso. Hoje o dia está lindo. Sol, céu azul e algumas poucas nuvens brancas.

 

Marciel Cordeiro é baiano, reside no Espírito Santo. Graduado em Serviço Social. Publicou alguns contos e poemas em antologias.  É o autor dos livros “Caminho para Texas”, publicado pela editora Cousa, em 2019, e “Essa coisa louca chamada amor”, 2021, também pela editora Cousa.

 

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149ª Leva - 04/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

CONTEMPORÂNEA PELO AVESSO

Por Sandro Ornellas

 

 

Acabo de ler Danny, narrativa escrita por Maria Elvira Brito Campos, publicada em 2022, em bonita edição de bolso pela piauiense Cancioneiro. Novela lírica, melancólica e, de certa forma, geracional, o que me tocou particularmente. Como diz Antonio Candido em famoso prefácio a Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Hollanda: “a certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço do passado sem cair na autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro de muitos”. E a narrativa de Maria Elvira, sem ser propriamente seu testemunho, possui algo do teor testemunhal que diz de uma experiência geracional, mesmo quando ficcionalizada. A própria prefaciadora, Katia Borges, diz que o personagem título “se parece muito com os melhores amigos que tive”.

E do que trata Danny em seus 45 pequenos capítulos, quase fragmentos, vários com um único parágrafo? Da errância melancólica do seu protagonista ao longo dos dias, encarando uma grave doença – nomeada apenas como “a bola cinza” no interior da sua cabeça –, da fiel amizade de Laura, das paixões e amores fugidios e irrealizáveis de ambos, de suas solidões, compartilhadas ou não, do seu confinamento e da consciência do envelhecimento. Embora pudessem ser tratados de modo independente, todos esses “temas”, digamos assim, vão e vem ao sabor do humor dos personagens no fluxo narrativo, pois a autora investiga a experiência de ambos, não os “temas” em si.

São personagens que possuem, por um lado, traços relativamente específicos. Danny é artista plástico e Laura, tradutora. Mas não é isso que está em questão na história, cujo foco varia de um para o outro, com ênfase sempre maior na expectativa de Danny com a cirurgia e em seu cotidiano entorpecido à base de remédios, mesmo depois de livre da “bola cinza”. Ele vive com dois gatos; ela com um cachorro. E formam um retrato cuja melhor definição ao longo das páginas me aparece no capítulo 26:

 

“Laura estava triste. Foi até a sacada, pensou em Danny. Um sobrevivente. Tão pouco e tudo. Pássaros na garganta. Ela sabia que não estava preparada para nada disso de novo.

Janelas abertas. Coisa boa é morar no primeiro andar. Laura sorriu para as crianças na rua e voltou para a sala. Sentou-se no sofá, seu cantinho gostoso, medicou os dedos, Johnny lhe fez um afago, quando o telefone tocou: Hey, sugar, take a walk on the wild side.

Danny sempre a salvava!”

 

É assim, acompanhados pela trilha sonora de Lou Reed, somos conduzidos por uma narrativa cheia de desvãos afetivos e líricos e de certa forma cúmplice dos dois personagens sobreviventes do último quarto do século XX. É essa cumplicidade que cria, por outro lado, o aspecto geracional que sublinho na narrativa, seja pelas referências explícitas, seja pelas implícitas.

Há algo de selvagem e inocente na história escrita por Maria Elvira. Selvagem e inocente como a canção de Lou Reed e as histórias dos que não sobreviveram àquele quarto de século: Caio F., Ana C., Leonilson, Cazuza, Renato Russo, dentre tantos outros que se pareceriam com Danny e Laura, se tivessem vencido o fato de crescerem durante a ditadura, a mesma que levou muitos à loucura, ao suicídio e, de certa forma, se prolongou matando outros através da epidemia do HIV. Sobreviventes, selvagens e inocentes, Danny e Laura vestem a melancolia de uma geração que chegou à segunda década do século XXI fragilmente equilibrando solidão e amizade, tesão fugaz e esperanças de amor, lucidez e entorpecimento, juventude e envelhecimento, vida e morte. O eixo que sustenta esses pratos na história é a melancolia que os personagens carregam, embalados por canções daquele quarto de século, que parece não os ter abandonado e lhes dá uma aura de tristeza, que, todavia, traz muito da beleza narrativa de Danny.

Na minha leitura, apenas em dois momentos percebi tratar-se na verdade de uma história do século XXI. Quando Danny, flertando imaginariamente com Bruno, pensa nas diferentes referências entre ambos: “Em tempos de aplicativo, Bruno não iria compreender essa referência tão Satellitie of love, tão David Bowie em Marte, tão fora daquele mundo…”; e quando, depois de repentinas descrições do silêncio e vazio das ruas, Laura obriga Danny a se mudar para sua casa, manda-o tomar banho seguindo “protocolos” e fala-se em “confinamento”, em menção cifrada à pandemia da Covid-19.

Talvez haja mais indicativos dessas duas primeiras décadas do atual XXI, mas a extemporaneidade da narrativa e dos dois personagens, seu descolamento subjetivo em relação ao mundo social e as referências musicais citadas ao longo do texto não deixam dúvida tratar-se de “sobreviventes”. Eu diria mesmo que a narrativa de Maria Elvira é uma narrativa sobrevivente, pois lança mão de uma atmosfera pop até certo ponto datada, em relação ao que passou a se escrever no século XXI. E aí está muito do charme dessa história. Se a profecia de Andy Warhol sobre a cultura pop foi de que todos teriam direito a quinze minutos de fama, para depois cair no ostracismo, esses quinze minutos acabam funcionando como referências histórico-geracionais. Se a cultura pop vive da descartabilidade, ela também permite entender muito da segunda metade do século XX através, por exemplo, da trilha sonora, como é o caso, em Danny, de Lou Reed, Gracie Jones, Patti Smith e David Bowie rondando todo o tempo a vida dos personagens. E é muito com o espírito de Lou Reed que a narrativa se constrói, transformando Danny e Laura em alguns dos personagens do álbum Transformer, de 1972, do compositor novaiorquino.

Se há um pop alegre e festivo, registre-se que o pop de Danny, no entanto, é triste e sombrio. E é justo aí que percebo sua maior contemporaneidade. A contradição do pop, desde as ampliações fotorrealistas de acidentes fatais feitas por Warhol, hoje estão mais visíveis do que nunca. Ídolos teen do pop coreano (e não só eles) se suicidam em série, mostrando os limites tóxicos da felicidade e esperança vendidas pela indústria do entretenimento. Já a melancolia e solidão de Danny e Laura, se inicialmente faz sentido serem lidas como de uma geração que envelheceu, também tem muito a ensinar à geração que cresce sob as tecnomaravilhas virtuais do neoliberalismo e que sofre igualmente, ou talvez ainda mais cedo, do que quem chegou à pandemia com pouco mais de cinquenta anos.

Danny, portanto, possui o que um pensador disse tratar-se da definição do contemporâneo: o obscuro, o invisível, o solitário, o sombrio e desatualizado, em um mundo no qual tudo e todos buscam ser visíveis, alegres, festivos, produtivos e estar no fluxo e na moda. Concluo a leitura assim, com a sensação de que Danny é uma narrativa contemporânea pelo avesso, conseguindo falar daquilo que todos sabem estar à espreita, mas a que ninguém se refere por estar fora de moda.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.

 

 

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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Rodrigo Melo

 

Foto: Gilucci Augusto

 

A NOITE QUE ENGOLE TUDO

 

Desligo os faróis antes de alcançar o alto do morro e deixo o carro deslizar suavemente, como se planasse sobre uma nuvem, até parar embaixo de uma árvore. É tarde, não há ninguém, nem mesmo os nóias. Apenas nas luzes da cidade, lá embaixo, há algum sopro de vida. Salto do carro e acendo um cigarro. Uma vez Kersey me disse que a gente nunca deve ter pena de vagabundo. Vagabundo tem mesmo que se fuder, do contrário fodem com a gente. Eu nunca discuto com Kersey. Ele está nisso há muito mais tempo que eu.

Jogo o cigarro no chão e caminho até a casa com o portão verde. Bato três vezes. Alguns segundos se passam e escuto o barulho de uma porta sendo aberta e, em seguida, passos arrastados, os chinelos ralhando sobre o cimento do passeio que leva até o portão.

– Quem é? – ele pergunta.

– Te dou uma chance pra descobrir.

Depois de três segundos, ele destrava o ferrolho e o portão fica entreaberto. Está com os olhos inchados e o rosto suado, a cara de quem não dormiu.

– Ainda não tenho a grana.

– Não tem nada?

– Alguma coisa. Não é muito.

– Eu quero.

Ele me encara. Está desconfiado.

– Espere aqui.

Encosta o portão, se vira e caminha até a entrada da casa.

Cruzo a porta e vejo uma mulher deitada no sofá, de frente para uma mesinha onde há um prato com algumas gramas de pó. É loira, magra e, quando seu olhar de vampiro pousa sobre mim, imediatamente se encolhe, espremendo-se contra o sofá, uma almofada suja servindo de escudo. Faço sinal para que continue em silêncio, mostro a arma em minha mão. Pergunto onde ele está e ela aponta para o quarto.  Sento-me em uma cadeira e espero.

Dois minutos depois, ele passa sem me notar. Está com o dinheiro na mão. Tem um 38 nas costas, preso à cintura. Ele nota a mulher espremida no sofá e, ao reparar nela, me vê.

– Pra quê o 38? – pergunto.

Seu rosto está congelado. As narinas dilatam-se por conta da respiração.

– O dinheiro tá aqui. Quase dois mil. Consigo o resto em uns dois dias.

– Não vim atrás do dinheiro. Quero minha parte da encomenda.

– Que encomenda?

– Você sabe.

– Não sei, não. Seja lá quem falou isso de encomenda, é mentira.

Fico de pé e caminho até ele. Pego o dinheiro de sua mão, coloco no bolso e então aponto a arma pra mulher no sofá. Ela grita e se protege atrás da almofada.

– Já disse, cara – ele responde -, não sei nada sobre o que tá falando. Muito menos ela!

– Tem certeza?

– Claro!

– Não está mentindo?

– Eu não minto pra você.

Deixo de apontar a arma para a mulher e a direciono para a cabeça dele. Seu rosto se contorce, os olhos piscam naquele segundo em que calcula se daria tempo de pegar o 38. Atiro no instante em que ele, com os olhos esbugalhados, faz o movimento. A mulher dá outro grito e se agarra à almofada, enquanto ele cai morto no chão.

– Fica de pé – digo pra ela.

– Não me mate, por favor!

Ela se levanta lentamente, o corpo inteiro treme. Usa uma bermuda jeans gasta e uma camiseta com a foto de uma garota, o nome Raquele escrito em cima.

– Sabe onde está?

– Sei… Na caixa d’água. Foi lá que ele subiu.

Há um limo grosso sobre a Eternit. Ando com cuidado. Tenho medo de escorregar ou de quebrar uma das telhas e cair. Seria estranho morrer assim. Tento imaginar o que escreveriam no jornal: POLICIAL CAI DO TELHADO APÓS TIROTEIO COM TRAFICANTE. Abro o saco plástico azul escondido na caixa d’água e, dentro dele, vejo dois pacotes enrolados com fita adesiva. Enfio o canivete em um deles e coloco o pó na gengiva. Em dois segundos, está dormente. Fecho o saco e volto a andar sobre a Eternit, cada passo como um salto rumo ao abismo.

A mulher teve tempo de fugir, mas continua ali, sentada no sofá, olhando para o corpo do bandido no chão. Ao seu lado, sem que consiga enxergar, Kersey se senta, cruza as pernas e olha pra mim. Eu sei o que quer. Nunca deixe testemunhas, ele me disse uma vez. Nem perca tempo com eles. Aponto a minha arma para ela.

– Você disse que não ia me matar! – a mulher grita, os olhos miúdos, cheios de lágrimas. – Eu falei o que você queria! Por favor, não me mate!!

– Quem é a menina?

Ela me encara, sem entender.

– Raquele – digo, apontando a arma para sua camiseta.

Ela suspira, estica a camiseta e olha para a imagem.

– Minha irmã. Desapareceu há dois anos. Tava brincando na rua e sumiu.

– Encontraram?

– Não. Minha mãe sonhou que ela já estava morta.

Abaixo a arma e saio da casa carregando os dois pacotes, enquanto ela me observa. Vou até o carro, sento no banco do motorista e acendo um cigarro, olhando para a cidade lá embaixo, para o pouco de vida que ainda resta.

– Uma vagabunda viciada é só uma vagabunda viciada – Kersey diz, sentado no banco do carona. – Volte e acabe com ela. É assim que a gente faz.

Olho pra ele. Paul Kersey. O mesmo bigode de sempre, o mesmo gorro sobre a cabeça, o olhar de quem já testemunhou coisas demais. Um grande homem, uma constante inspiração. Agora, no entanto, estou cansado.

– Vamos deixar essa merda pra lá, Kersey. A mãe dela já chorou demais.

Ele dá de ombros e, de um segundo para o outro, desaparece em meio à noite que engole tudo. Eu ligo o carro, acendo os faróis e começo a descer a ladeira.

 

Rodrigo Melo tem publicados dois livros de histórias curtas, “O Sangue Que Corre Nas Veias” e “Jogando Dardos Sem Mirar O Alvo”, ambos pela editora Mondrongo, e participou das coletâneas de contos “82, Uma Copa/15 Histórias” (Editora Casarão do Verbo), organizado por Mayrant Gallo, e “Outro Livro na Estante” (Editora Mondrongo), organizado por Herculano Neto. Escreveu, ainda, o livro de poesia “Enquanto O Mundo Dorme”, e o romance “Riviera”. Mora em ilhéus, no sul da Bahia.

 

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147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Ianê Mello

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

A HORA DE 50 MINUTOS

 

com as mãos sobre o colo sentada naquele divã um profundo sentimento de estranheza toma conta de mim e a vontade que tenho é sair correndo dali sem pestanejar mas a consciência me impede e distraidamente pouso os olhos nas paredes brancas com alguns quadros dependurados que me fazem lembrar a visita que fizera recentemente a galeria de artes que era por sinal uma de minhas distrações prediletas e sinto meu rosto corar quando me deparo com o olhar inquisidor do terapeuta a minha frente esperando que eu desse inicio a sessão o que com certeza eu não tinha a menor vontade de fazer porque hoje me sentia esvaziada de palavras mas sabia que quanto mais eu demorasse mais me sentiria constrangida e seria dinheiro posto fora coisa que eu não poderia me dar ao luxo assim como também em anos de terapia aprendera que essa resistência de minha parte significava algo importante que estava submerso representando material de primeira a ser trabalhado em terapia e tudo o que tinha a fazer era dizer a primeira frase que depois o resto fluiria como um rio caudaloso e o tempo passaria a ser pouco para extravasar uma torrente de emoções que aflorariam o que traria em mim um arrependimento por não ter começado logo a falar e assim pensando não me demorei nem mais um segundo e só me dei conta que o tempo havia terminado quando meu terapeuta olhou discretamente o relógio em seu pulso

 

 

 

***

 

 

 

REPRISE

 

naquela manhã quente de verão suas mãos estavam frias e todo seu corpo parecia desvanecer numa palidez inesperada enquanto ouvia sem acreditar o homem que amava dizer-lhe adeus em palavras lançadas como pontas de faca afiada em seu peito matando dentro dela qualquer fio de esperança nesse amor ao qual se entregou sem medidas coisa que jurara para si mesma não mais fazer pois já conhecia o fim e sabia o quanto era amargo como fel e assim estava ele à sua frente agora sendo forçada a assistir o mesmo filme que já conhecia passar frente a seus olhos na mesma forma forçadamente amena de dizer adeus como dizem todos aqueles que se julgam superiores de alguma maneira por haverem superado um sentimento que antes existia e por acharem que se bastam a si mesmos podendo do outro dispor como fosse um chinelo velho que não tem mais serventia sem pensar ao menos que esse mesmo objeto tanto tempo lhe serviu e aqueceu os pés em tempos frios e nem mesmo o olhar incrédulo do outro pode dissuadi-lo do término e nem mesmo a lágrima que disfarçadamente escorre do canto dos olhos o comove como se uma capa de frieza o envolvesse e nada mais possa tocar seu coração que um dia se mostrou tão amoroso e seus lábios que agora proferem palavras duras e cortantes nem mais parecem os mesmo lábios de onde só saíam palavras murmuradas docemente e promessas de amor eterno

 

 

 

***

 

 

 

O OUTRO EM MIM

 

É… a vida que escapa da memória e se perde em devaneios . Quando é melhor esquecer para que a fantasia tome o lugar da realidade… sabe-se lá… E a fantasia ganha asas e voa cada vez mais longe e cria raízes e cada vez mais real ela se torna. Traveste-se de encantos e assume o lugar que não lhe pertencia. Faz-se tentadora com seus ardis e artimanhas com a expressão do desejo de uma vida não vivida. E quem não quer uma vida que não é a sua? A grama do vizinho é sempre mais verde e os frutos mais saborosos. O doce mistério de ser o outro! Apoderar-se de outra vida, de outro corpo, incorporar o outro em si e perder-se. Loucura insana? Pode ser… mas o que importa? Quando se está perdido busca-se uma saída e há tantas portas! E atrás de cada porta o desconhecido habita, sempre à espera para ser desvendado.

 

 

 

***

 

 

 

VIDRO E CORTE

 

um sabor de morte e de coisa finda no desalento em cacos de vidro espalhados por todos os lados a vida que se esvai em poças de vermelho sangue a tingir o branco azulejo como marco derradeiro de despedida do débil e frágil corpo jogado na frieza desse chão impuro de um banheiro público onde tudo são escombros e dejetos na louça trincada e encardida do vaso sanitário ainda cheirando a urina e da pia entupida onde tantas mãos foram lavadas em dias e noites desumanos daqueles que vivem na descrença de uma vida melhor abandonados que estão à própria sorte e desgraça sem ter ao que recorrer e ninguém com quem contar para ao menos dividir sua miséria de existir e estar pela vida mendigando migalhas de miseráveis de espírito sem compaixão e sem coragem de continuar põem fim a sua parca existência de forma trágica como esse corpo que aqui jaz

 

Ianê Mello é carioca, nascida no Rio de Janeiro. Foi professora e orientadora educacional no município. Pós graduada em Pedagogia pelo Instituto Isabel. Experimenta diversas propostas em textos literários, desde poemas e haicais até a prosa. Edita e participa de fóruns literários e tem textos publicados na Comunidade Benfazeja, na Revista Zunai, na Revista e Mallarmagens, na Revista Biografia, na Revista Novitas e na Antologia “A nova poesia brasileira “, pela editora Shogun Arte. Em 2013, publicou seu livro de poemas “Tessituras e Tramas”, pela editora Verve.

 

 

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147ª Leva - 02/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Susana Fuentes

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

Redenção (à luz de Tarkovski e Bach)

 

A água escorre sem pressa de correr o mundo. O rio respinga gotas no vestido e quero tornar-me rio para dar petelecos na água. Vejo o céu e quero ser assim, tão azul (e garboso e tranquilo). Mas, quando chove, passo a achar que o mais belo é a chuva e aí despenco do céu (e visto-me de branco pérola). Embrenhada no verde, quero ser pedra, árvore, e servir de anteparo a esta chuva que tomba. Acaricio a chuva porque ali vejo seu rosto. As lágrimas de seus olhos serpenteiam frouxas nas bochechas enxutas. Gostaria de impedi-las em seu percurso, para lhe conservar a face seca. Gostaria que meus afagos a fizessem sorrir, para ver um riso frouxo traído na boca. Ao invés, sua língua escapa pelos lábios entreabertos e de lado colhe uma gota, e outra, aparando os pingos já em ritmo de enxurrada.

Quando estou no seu jardim, aí quero tornar-me chuva. E, como chuva, devolver à sua pele a festa de suas mãos segurando a minha, quando um dia estive doente e você me trouxe o conforto absoluto de um afago nos dedos tristes sem pouso. Você colheu estes dedos no ar, sua mão em concha inventou-lhes um abrigo já que iam em sua direção. E eu caberia inteira ali, por toda a noite, por toda uma vida, vida tão longa como a noite não dormida quando senti a ausência desta mão. Tão doce como a noite em que você esteve em meu sonho. Noite inventada para que eu coubesse na vida mesmo sem ter você por perto.

Como você ama lírios, flor-de-lis, açucena, para sempre estarei à sua mesa. E você, longe, olhar habitado por uma chama, me fará sorrir – a cada vez que a vela brilhar contra a tampa da panela. Tampa que serve de anteparo à concha e sobrevoa a mesa… para não desperdiçar nada sobre a toalha. A tampa em suas mãos recolherá os pingos e guiará a concha – com pedaços de maxixe, inhame, batata doce, baroa e aipo – em segurança ao colorido dos pratos. Como uma flor no jarro sobre a mesa, eu escutarei as conversas. Uma só mesa para o avô e para o neto. Como era você?, a criança perguntará então. E eu apontarei, com as palavras, para a chama veloz de seus olhos despertos.

 

 

 

***

 

 

 

Suíte

 

Numa Suíte, a Sarabande desliza sem pressa… e ocupa o centro
do poema. É como se dissesse: Não vou suprimir os floreios,
só encurtá-los.

 

A beleza de Sarabande: Beleza que cresce com o Tempo. Sarabande se entrega ao Tempo e ele a toma pelas mãos e diz: você será minha eleita. Gentil, ela se inclina como dama e aproveita o instante para admirar as margaridas – como são belas nesta época do ano, como são queridas!

 

*

 

Sarabande, no esforço de ocupações singelas: trocar a água dos colibris, limpar o cantinho do espelho, varrer a soleira da porta. A pele salpicada de suor sob os olhos. Femina, com um paninho, chega até bem perto e a conforta.

Intermezzo dá de ombros, fita Sarabande… e desfaz de Femina o encanto, em zombaria: veja esta, que mimos inventados para chegar até você.

 

*

 

Zorina olha Sarabande de perto. Tomada de recato, nem se atreve a tocá-la: olha, tão transtornada, que se esquece ali, perdida. E esquece tudo que pensou quando não estava tão perto. Quando podia respirar.

 

 *

 

Sarabande fala e não para de falar. Todas escutam, atentas: Zorina, Apogée, Intermezzo e Femina. Do que fala Sarabande? De meninices. De matreirices. E ela só faz lembrar e deslembrar.

 

*

 

Sarabande, a curva dos seus dedos aponta para fora, para o alto. O que caberá em seus pensamentos, os que desconheço, e os de que faço parte? De pé, junto ao portão, vejo partir suas lembranças. Levam-me até a menina radiante de vida. Sarabande ainda pequena. Menina que já passou pelos caminhos que percorri (e muitos, muitos outros) tantos passos à frente, será que entrei por algum atalho, para agora lhe encontrar na mesma estrada? Quero apresentá-la à Noite, mas ela já conhece seus olhos, seu nome. O Sol, a Chuva, o Dia, chamo para que eles a conheçam, mas eles me respondem: quem, aquela? Já a temos entre nós faz dias. Anos. Você nem tinha nascido. Falo de Sarabande com susto de perdê-la, e chamo a Vida para que a conserve a meu lado. A Razão manda que eu me cale, mas o Amor, que olha tudo com bons olhos, acha natural que eu esteja deste lado do portão e me convida ao jardim onde vivem, então, as cinco rosas: Zorina, Apogée, Femina, Intermezzo e Sarabande.

 

*

 

Zorina, para Sarabande: se eu pudesse alcançar suas folhas…
Apogée, bem prosa: afasto suas mechas curtas, Sarabande, porque aí chego até seus olhos.
Intermezzo: sopro a brisa que passa, Sarabande – porque aí beijo as suas pálpebras.
E Femina, num susto, embola o cobertor: não se resfrie no sono, Sarabande, está bem?

 

 *

 

Femina se espanta quando Sarabande conta uma história. Se fala da menina de cabelos de vento, seus braços (de Sarabande) escapam pela camiseta, longos, finos, dançantes, e os cabelos sem rumo é como se dançassem também.

 

 *

 

Sarabande tem velhas amigas. Quando as encontra, ela tem pena de que estejam tão velhinhas. E pensa se não está assim também. Zorina a acha linda, e nada diz, porque nem sabe o que dizer. Apogée, absolutamente da mesma opinião que Zorina, sorri de lado e silencia, pois imagina que nem lhe darão crédito. Intermezzo, galante, com protestos da mais alta estima, discursa sobre a Beleza e a Força. Mas logo vem Femina com um espelho e cobre Sarabande de beijos. E Sarabande ri e fica feliz assim.

 

 *

 

Altas horas, Zorina não quer ir embora. Sarabande leva todos até o portão e se despede: Intermezzo lhe acena com medida, Apogée palpita que já é chegada a Noite, e Femina discretamente plantou-se de mala e cuia num canto do jardim. Zorina morde-se de inveja de Femina mas não fala nada. Aí Sarabande se aproxima e lhe dá um abraço. Zorina sente o corpo na altura do ventre e então se desmancha e se derrete. E Intermezzo a carrega dentro da bolsa até a Noite que chegou.

 

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Carta de Zorina, que fugiu, foi-se embora: Adieu.

 

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Sarabande, de menina atrevida. Descabriolada, descaraminholada. Cabelos revoltos, ombros descobertos, braços pendem para o lado, esquecidos da vida, Sarabande vendo estrelas, bichos, árvores, cheirando o céu e descobrindo o rosto sem pressa de abandonar o dia. De repente, Sarabande diz: estou cega. Não vejo nada. Estou cega. Zorina: não é nada, não se assuste. Apogée: olhe para frente e faça um exercício de olhos. Intermezzo: que invenção, você anda muito impressionada. Aí, vem Femina. E, com jeito, lhe ajeita um cacho que bandeirolava nas bochechas. E Sarabande volta a si com a maior discrição.

 

*

 

Chamo a Noite, minha amiga azulada, com seu rosto de lobo celeste, cintilante e gelada. Ou a Tarde morna e rubra, com seus olhos de cobre, essa dama que escurece. Cada uma já sabe de longa data quem é Sarabande. Já lhe renderam os dias quando a carregavam pequena, pernas ligeiras correndo entre as casas e entre arbustos das rosas. Dos arbustos deslizavam pétalas que o vento pousava em seus cabelos. Que sua mãe escovava intermitente, com a paciência de não atropelar os fios.

Quando apresento Sarabande à Chuva, os pingos riem que já conhecem seu rosto. Vou lhe ensinar a Chuva, e Sarabande nem tem pressa em dizer que o Trovão foi ela que pintou de azul. E deixa molhar seus cabelos, ainda soltos sem rumo. Vou lhe ensinar o Trigo, e Sarabande já dançou horas seguidas quando eu nem tinha nascido e os pés de Sarabande eram redondos de rodopios. Quando falo: Pedra, quero que conheça este rosto, a Pedra me mostra as curvas que copiou de suas costas, de sua nuca, quando você, Sarabande, suspendia os cabelos e revelava os brincos de princesa escorrendo de dois fios. Mas vejo que me despeço do jardim, Sarabande, a cada vez que repito seu nome, porque aí me revelo e você se encolhe de medo, ou de espanto, e se volta para a Noite (que é a sua Noite) e para a Tarde (que é a sua Tarde), e se pergunta o que esta menina tola (que sou eu) está fazendo lá, em seu jardim. Só me resta cruzar o portão em despedida, o que faço inconsolável, mas, antes, fecho-me silenciosa atrás de um pequeno arbusto e ouço as conversas. Em torno de Sarabande, com homenagens, dengos e soluços, minuetam Zorina, Apogée, Intermezzo e Femina. (Será que num descuido deixo-me ficar no jardim?)

 

 

 

***

 

 

 

Salve

 

 

Saaalve. Mestre Tinhô, preso ficô, Ai …tem dó, indoné
sete meninos à toa deixô, Ai… tem dó, indoné

 

As palavras saíam, obedientes mas borradas na borda lisa da pequena folha. O lápis que usava era feito de cera, por isso sua ponta grossa e espiralada ia cedendo ao calor. E a extremidade de um lápis assim se derretendo era a coisa mais descabida para quem, em inspiração súbita, estava tão decidida a criar sobre o papel. A-la-me-das rá-pi-das desenham a estrada con-tra as va-ran-das de portas aber-tas a le-var a ren-da das toalhas e as pé-ta-las se-cas de seu lei-to de pa-lha.

No pátio da escola, última tentativa de refrescar-se. Loló agachou-se na terra molhada e afastando as pedras, desenterrou algumas folhas. Suas mãos firmes eram bem desenhadas, o talhe à galope de um grilo. Quando conseguiu separar a lama de todo o resto, mergulhou a palma em concha e trouxe uma porção para si. Colocou-a em um pano grosso, que torceu e enrolou na cintura. Andando em volta do prédio cinza e quente, de poça em poça os pés descalços se coloriam ao afundar na grama, charco que a terra, saciada e preguiçosa, resistia em absorver. A folhagem caía infinita para uma tarde tão curta que, inquieta e indecisa, quebrava-se sempre outra. E quem não acompanhasse as mudanças imaginaria a tarde constante e quieta como o som das crianças brincando na rua e o cair das flores da velha árvore roxa. Barranco acima as casas multiplicadas lajeavam a silhueta da montanha. Só as pipas surpreendiam o previsível das formas mas, quem podia notar? Ninguém viu quando Loló caiu no passo da bala contra o peito. Aviso de que os lá do morro estão à procura do irmão.

Loló ali parada, na terra quente, sua fisionomia devia estar debilmente distorcida pois dona Dita foi logo gritando que se sentasse enquanto buscava um copo d’água. Pendeu de lado a cabeça, focou a folha na mão. As letras riscadas à sua frente também já iam disformes. A claridade na folha debandava. Agora era a cera preta do lápis perdida no escuro da sala, estava ela na sala do professor talvez? Sala tão bonita, não se recorda, já tinha ali pregado as bandeirinhas? Al-a-me-das rá-pi-das. Um impulso impensado moveu a menina através do corredor. Con-tra as va-ran-das. Sobre pés pequenos demais, inspirou um ar carregado num frenesi quase alegre atravessando os ombros e o peito. A le-var a ren-da. Por instantes sentiu-se tênue chama, pronta a apagar sem mesmo precisar do empurrãozinho de um vento.

Boba essa Loló. Contam histórias, passam cantigas, mas só o que ela quer saber é daquela que a criançada canta na hora do recreio. O padre da Indonésia esbraveja que vai mandar todo mundo lavar a boca com sabão. Loló ri e canta mais alto, mais alto, com uma convicção que tem guardada, que só sentiu uma vez, quando cantou o hino da bandeira e ia bem longe da escola e via aquelas letras que nem bandeirola de São João, qual pendão colorido. Loló debulhava, escolhia as palavras. Puríssimo varonil peito amada. Sagrado? Serve. Encerra. É, bonita. Encerra varonil peito. Amada varonil encerra. E assim ia, deixando cair as bandeirinhas, apanhando as mais bonitas, mais sonoras, escondendo algumas no bolso, outras nas páginas do livro. Quando abro este livro, tem vento. Aposto que o vento já estava aí, escondido no bolso. Não. É ventania de livro mesmo, veja só: voa até palavra. Mas a poeira. Loló sacode e espirra. Espirra de boba. Dona Dita… me conta uma coisa… é verdade que mestre Tinhô tá preso? Na pia do banheiro, Loló assoa o nariz, deixa a água escorrer, faz bolhas de sabão. É, Loló. Foi se meter com o que não devia …Ó lá, dona Dita … Loló pensou nas bandeirolas. Esfregou as palmas. Sacudiu as mãos e meteu-as no bolso. As palavras guardadas a sete chaves e três botões espiavam do escuro. Faltava cozer uma casinha que estava por um fio. Volta e meia, fio e meio, um deslize, uma rajada de vento e uma danada escapulia. Volta, dona va. Aqui, seu to. Não descuida, não, ô sa. Ah, tudo de novo, não saio daqui. O recreio pela metade e mal dava para catar todas. Saaalve. Na fila do hospital ninguém viu a mão que contava palavras e colhia as lágrimas choradas sobre o corpo frio.

 

Susana Fuentes é escritora, atriz, doutora em literatura comparada pela Uerj. É autora de Escola de gigantes (7Letras, contos, 2005), Luzia (7Letras, 2011), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2012, Anotações de Berlim (Megamíni, 2016) e Carta ao Sol (Funarte, contos, 2020). Escreveu a peça teatral Prelúdios, em quatro caixas de lembranças e uma canção de amor desfeito, solo em que atua (selecionado para o The New York International Fringe Festival). E Olavo, le chat (Edição do autor, 2016).   Seu novo livro, A gaivota ou a vida em torno do lago [tema para uma peça curta], foi lançado pela 7Letras (poesia, 2021). Pesquisa a literatura russa e brasileira e ministrou oficinas de criação literária na Uerj, UFRJ e durante o Printemps Littéraire Brésilien na Université Paris-Sorbonne.