Categorias
103ª Leva - 06/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como Sara F. Costa, Samuel Malentacchi, Ana Horta, Nilcéia Kremer e Floriano Martins. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de Geraldo Lima, Márcia Denser e Fernando Rocha. Há uma atenta leitura de Sérgio Tavares para o novo livro de contos de Luís Roberto Amabile. No quesito cinema, Larissa Mendes convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, Graccho Braz Peixoto entrevista o cantor e compositor Mário Montaut. Por meio das escutas de Gustavo Rios, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de Thiago Mourão, é alvo das anotações de Fabrício Brandão. Com a vigorosa contribuição da artista plástica Caroline Pires, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

 

 

 

Categorias
103ª Leva - 06/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Confabulário canino

Por Sérgio Tavares

 

 

 

Há uma corrente que defende que uma antologia de contos, mesmo de maneira involuntária, persegue uma unidade temática. Se isso for verdade, “O livro dos cachorros”, de Luís Roberto Amabile, deixa rastros bem delineados na sua forma de investigação.

Seccionado em três departamentos: “Orelha em pé”, “Cio” e “Dentes à mostra”, a obra é composta por narrativas mobilizadas pela literatura, pelo sexo e pela violência, respectivamente. Dentro dessas divisões, no entanto, os formatos são os mais variados. Fazendo uma alusão ao título, há animais de diferentes portes e aspectos. Contos maiores, contos menores, minicontos, frases.

Amabile também condiciona a estrutura a um exercício multifário. Alguns textos se resumem a um recorte de diálogos, do mesmo modo que, outros, a fluxos interruptos. Uma história se apresenta em modelo clássico para, em seguida, fracionar-se em duas colunas com mais de um relato. Há digressões, elipses. Vozes em primeira pessoa que passam para a terceira, depois voltam para a primeira. Um tipo de confabulário dissonante que encontra, justamente na irregularidade, a força sobre os assuntos a que se propõe literaturar.

Em “Sobre o não-dito”, que abre o livro, uma discussão a respeito do fazer ficcional vai se infiltrando paulatinamente no plano entendido como realidade, até arrevesar a história na própria história. A origem da autoficção é o que motiva “O frio”, texto seguinte, ao passo que “Espelho” é um jogo caricatural, uma ideia de paródia para um conto célebre do célebre escritor K., acerca de um homem e um inseto, ou uma amálgama disso.

Amabile joga a todo instante com a literatura e, automaticamente, joga com o leitor, que se vê numa zona de estranheza, levado a achar cômico algo que não deveria ser, mas sem entender o porquê da autocensura. “O herói peludinho” ilustra bem esse sentimento. Um adolescente feioso, gamado pela atriz Kim Basinger, começa a direcionar seus suores púberes a uma menina de sete anos. Não há gratuidade, mas a intenção já carrega o choque possível.

A narrativa também deixa mais latente a obsessão do autor: a cultura dos anos 80. Embora os eixos temáticos sejam bem definidos, paira sobre esses uma atmosfera oitentista, substanciada por referências a filmes, músicas e programas de tevê. Em alguns casos, estas ocorrem de maneira bem sutil (Piuí Abacaxi…), mas estão lá, para os olhos treinados, pulverizadas por todo o livro.

O excelente “Buraco”, no qual dois relatos vão se confrontando até um final surpreendente, inaugura a busca por inspirações mais umbrosas, da seara da perda, da detenção da infância, do desejo e da repulsa pelo outro. Um cenário mais nitidamente urbano também se mostra; um tipo de selva de pedra onde personagens animalizados perseguem outros a fim de saciar vontades e apagar solidões.

“Umidade”, um encontro entre balzaquianas à procura de sexo casual e um vendedor de guarda-chuvas, dá partida a um elenco de taras, compulsões e fetiches, cujo senso de utilidade é melhor descrito nas últimas linhas do conto “Fumaça”: “E gozavam. Depois fumavam (…) E conversavam. Quando a fumaça se dissipava, voltavam para seus lares e por algum tempo a vida parecia mais suportável”.

O vazio anímico também dá o tom da parte final, imantada por cenas de violência. “O que acontece no tempo de um tiro?”, reverbera a voz do conto “Gatilho”. Uma combinação de mínimos mecanismos para gerar uma tragédia, mas um intervalo. Todos os personagens estão ali, esperando para matar ou para serem mortos. Uma multiplicidade de mortes, como as descritas no conto “Como estou dirigindo?”, em que um taxista vai narrando causos de crimes durante uma corrida em que leva dois namorados, até mesmo aquela que pode servir para a literatura.

Com uma linguagem ágil, coloquial e bem polida, Amabile trafega por vários estilos, apostando na inventividade em detrimento da forma. “O livro dos cachorros” pode não ter raça específica, mas não deixa dúvida sobre o pedigree de contista do autor.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

 

Categorias
102ª Leva - 05/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

Após nove anos de trajetória, percebemos que os caminhos culturais são definitivamente recompensadores. E o mais relevante disso tudo está representado nos encontros que aqui ocorreram. Nem de longe foram poucos e estão dispersos por todas as frentes da revista. Aos poucos, poetas, fotógrafos, contistas, artistas plásticos, músicos e outras tantas vozes foram nos ajudando a compreender melhor o significado de tocar adiante um projeto editorial. Agregar pessoas em torno de um objetivo comum é algo bem mais valioso do que um mero inventário numérico de feitos expostos. Não está na quantidade de palavras e imagens o impacto maior, mas sim na intensidade com a qual nossos sentidos são surpreendidos pelos arremates dos criadores. Durante toda a nossa jornada, as janelas poéticas têm sido importantes veículos de divulgação de autores das mais diferentes estéticas e estilos. No que se refere à prosa, há também uma imensa gama de contistas que, com suas visões de mundo, constroem múltiplos modos de se erguer histórias. Um dos cadernos mais valiosos do nosso trabalho é o de entrevistas, pois ali se insere um amplo espectro de escutas, fomentado pelo diálogo com criadores dos mais variados campos artísticos. E todas as conversas servem notadamente para compreendermos os elementos motivadores do trabalho de cada autor. No quesito resenhas, a adesão de colaboradores se multiplica vigorosamente nos campos do cinema, música, teatro e literatura. Num propósito de harmonizar textos e imagens, o papel de artistas plásticos e fotógrafos é fundamental para a completude de um projeto que pretende ser também visual. E, para que os caminhos continuem, outros encontros são necessários. Por agora, as veredas da poesia trazem versos de Susanna Busato, Ricardo Paião, Carla Diacov, Matheus José Mineiro, Camila Charry Noriega e Michelle Mendonça. Numa entrevista conduzida por Sérgio Tavares, a escritora Nara Vidal faz importantes considerações a cerca do ofício literário. O escritor Anderson Fonseca destaca importantes obras de Franz Kafka, Pascal Bruckner e Augusto Monterroso. Quando o assunto é construir narrativas, presenciamos as instigantes linhas de Rodrigo Melo, Priscila Lira e João Bosco. Dando seguimento às suas investidas cinéfilas, Larissa Mendes convida-nos a assistir o filme húngaro Deus Branco. No terreno da música, acolhemos o esmerado texto de Graccho Braz Peixoto sobre o mais novo disco do cantor e compositor Mário Montaut. Dialogando com as expressões de agora, a fotógrafa Ana Pérola Pacheco expõe imagens marcantes de seu trabalho com a luz. Assim, uma outra edição surge, plena em descobertas e gratidão. Eis a 102ª Leva!

Os Leveiros

Categorias
102ª Leva - 05/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Há a infância da vida e a infância da memória. A primeira cabe aos vivos, a segunda cabe aos mortos. Todavia não a morte do corpo, a decomposição da matéria, e sim o cumprimento de um estágio, o tempo incinerado de uma existência, onde as lembranças perdem tiras da sua pele original que são preenchidas pela invenção. “Lugar comum”, seleta de contos com a qual a escritora Nara Vidal estreia na literatura adulta, está repleta dessas recordações entretecidas pelo novelo do encantamento que, paradoxalmente, ao se metabolizarem em ficção, passam a ser os registros mais fiéis do olhar de uma menina, a que ainda corre descalça pelos quintais com cheiro de bolo no interior de Minas Gerais.

Reconstruir esse mundo, portanto, é a forma possível de enxergar o presente, mesmo que o olhar dependa do filtro da escrita, pelo qual a vida vai incorporando detritos de fingimento que desgastam o verniz da realidade. Olhar além de si, além do território, além da concretude. Interiorizar-se para ocupar espaço. O escritor não deve ser produto do seu meio, mas criar um meio que seja produto da sua imaginação.

Nara sabe e trabalha muito bem isso. Há cerca de quinze anos residindo fora do Brasil, compreende que a literatura é o seu elo com a pátria-mãe. As palavras, que se estrangeiram cotidianamente aos seus ouvidos, resistem em português no papel, onde também ganham relevo dissabores e constatações desprazíveis da nação pretérita que sequer o desterro pode relevar. Assim, o livro se desenvolve sobre dois eixos de significação. As narrativas da criança, edulcoradas por laços familiares, pelo passeio por reminiscências dotadas de cheiros, sabores e quimeras, e as narrativas da adulta, embebidas por tonalizações mais retintas, ora melancólicas ora ásperas, o travo do desenfeitiçamento natural ao caminho rumo à finitude, pontuado por perdas, autoenganos e certezas incontornáveis. A qualidade literária, contudo, é singular em ambos os casos. O requinte da linguagem, o domínio técnico.

Reconhecida autora de livros infantis, Nara tem plena noção de que a única maneira de conquistar o leitor é dizendo a verdade; de modo que entrevistá-la é a oportunidade de ouvir verdades, de todos os tipos e tamanhos. Sem condicionantes e com uma “mineirice inglesa”, ela fala sobre a transição do olhar pueril para o adulto, as visitações às memórias, o uso da literatura nas escolas, o conflito entre educação e leitura, o mercado e os prêmios literários, a importância do conto, a relação entre produção e maternidade e a percepção estrangeira sobre a literatura brasileira. “Existe interesse, mas até onde vejo, me parece muito limitado e ainda visto como exótico”. Um papo sem lugar-comum.

 

Nara Vidal / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – Na apresentação de “Lugar comum”, o escritor Alonso Alvarez chega à conclusão de que o livro tem “o gosto de vida”. Entretanto, é uma ideia de vida construída através de um mosaico de lembranças, de pequenos registros de um olhar infantil que naturalmente mistura realidade e fantasia. Voltar a esse tempo não seria mais contar histórias de uma personagem que a da menina Nara?

NARA VIDAL – Gosto muito da ideia embaralhada de ficção. “Lugar Comum” é muito pessoal, mas é ficção. Quis muito provocar o meu leitor com esse conceito de sonho, memória, mentira. Eu sou uma contadora de mentiras. Acho difícil relatar um fato sem que ele adquira acessórios no meio do caminho e vire uma baita invenção. A aleatoriedade das histórias no livro tem esse propósito de confundir até certo ponto. Falo muito de mim e falo de quem inventei, essa menina tão recorrente dentro da narrativa. Alguns contos escapam claramente da memória infantil. Foram esses que me deram mais condições criativas, feito “A caminho”, “A notícia” e “Vida de escritor”. Mas mesmo elementos relatados da minha infância vêm revestidos do distanciamento do tempo e do lugar. Eu não teria condições de criar esse mosaico de lembranças, ao qual você se refere, se não tivesse saído da origem. Falo de um lugar comum mas que não existe mais pra mim porque é todo feito de memória cada vez mais apagada, mais distante, que adquire, portanto, certo romantismo.

 

DA – Um lugar comum no qual a menina, na casa da avó, vê os primos chegarem “feito torneira aberta” e, ao lado da irmã mais velha, mostra que estão ali “pra brincadeira. Da séria”, como lido no conto “O táxi”. A maioria das narrativas é mobilizada por esse circuito de passagens, de toques, de cheiros e de sensações. A leitura aparece lá para o final, contudo focada numa experiência marcante, um encontro com um “livro de gosto ruim”. Como a literatura surgiu para você e qual foi o grau de contundência?

NARA VIDAL – Não sei se sua leitura é incrivelmente atenta ou se foi uma coincidência levantar o fato do conto “A leitura” ser o penúltimo do livro. Ninguém havia notado isso ainda, eu acho. O posicionamento daquela história ali, no fim, tem o significado particular e expressa o meu atraso para com a literatura. Enquanto crescia, durante a ditadura dos anos 80, não tive livre acesso aos livros da escola, da biblioteca. A figura da bibliotecária era feito um obstáculo a ser quebrado. Nada ficava nas nossas mãos. Escolhas aleatórias não eram permitidas. Faixa etária era seguida rigorosamente. Uma professora contava um capítulo de um livro uma vez por semana e me lembro disso com gosto. Meus pais, professores, estavam sempre envolvidos com as Letras, mas demorei a pegar gosto, seguir o exemplo. Fiz Letras porque gostava de escrever. Lembro-me das provas e dos livros de provas. Tudo era muito rigoroso, com propósito de notas. Não gostava daquele limite. Não conseguia sentir prazer naquela rigidez. No entanto, havia ali, do lado de fora da minha casa, no passeio, os casos. De adultos a crianças, todos nós contávamos histórias e era ali que eu me envolvia com a literatura, com as fábulas das quais gostava muito. A história, o conto, sempre me interessaram. A leitura da literatura chegou tardia, talvez no segundo grau, quando tinha relativa escolha, mas sempre com o propósito do teste, nunca pelo prazer, pela arte só. Na Faculdade de Letras, a literatura veio com força e de maneira irreversível, quando me deparei com professores como Edimilson Pereira, Godofredo de Oliveira Neto, Eucanaã Ferraz, Ana Cristina Meirelles, Ronaldo Lima Lins e Gloria Sydenstricker. Tudo foi muito impactante para mim e foi ali que disse sim para a literatura com comprometimento, com prazer, com até certa maturidade, já que antes a imposição me distraía e me excluía desse envolvimento.

 

DA – Você cita um equívoco que penso preponderante para entender o desinteresse de muitas crianças pela literatura: a obrigação da leitura com o único propósito de fazer prova. Isso é devastador para a relação entre livro e leitor, para o tempo de sedução que cabe ao texto. Outro caso é a aplicação de obras que não fazem parte do universo da criança, com uma linguagem erudita e temas alheios ao contexto em que vive. Você não acha que, ao invés de fomentar essa ladainha conveniente de que o Brasil é um país de não-leitores, não deveria se repensar o programa escolar, dar-se conta de que autores como Eça de Queiroz, Aluísio de Azevedo e José de Alencar, embora notáveis e imprescindíveis, não são os mais adequados para implementar o processo de introdução à leitura nas escolas?

NARA VIDAL – Falar desse assunto é o mesmo que mexer numa caixa de marimbondos. É um tema polêmico porque, no geral, a qualidade da educação pública, e muitas vezes a particular, é precária. Sem dúvida há professores que, além de qualificados, são comprometidos e apaixonados pela sua função. Mas isso é raro. Uma profissão maltratada e vista com descaso por todo governo que entra e sai não tem como oferecer qualidade. Esse é um dos pontos fundamentais, básicos. Em relação à introdução da literatura especificamente, muitas vezes isso ocorre com falhas que são passadas feito herança, feito tradição. Eu me lembro muito claramente do dia que fui apresentada a José de Alencar e sua Iracema. Batia muito sol na sala e senti uma vontade incontrolável de dormir. Nada do que era dito fazia sentido algum. Nós, alunos, não tínhamos referência de nada que se relacionasse com o texto. Não sabíamos nem mesmo o que era uma graúna! Foi uma experiência penosa, não menos solene. Eis um dos grandes problemas: a grande literatura é apresentada de uma maneira tão preciosa, tão erudita, que ali mesmo, naquele início já cria distanciamento e exclui muitos leitores. É como se aquela experiência fosse para poucos e raros. Minha filha, que estuda numa escola pública da Inglaterra, já ouviu falar de Shakespeare, Roald Dahl, por exemplo. Mas você veja que nada é apresentando de maneira cerimoniosa. Os livros e as histórias desses autores são naturalmente inseridos no dia a dia e identificados e aplicados em assuntos diversos. Depois, mais na frente, vão ouvir de novo sobre os mesmos autores e, quem sabe, até ler suas obras na íntegra. Aí, já terão outra bagagem e poderão identificar uma leitura diferente daquela de início.  Há iniciativas no Brasil que tentam implementar planos assim e sinalizar uma mudança. Já é um passo e tanto pra frente. Eu acredito que seja possível introduzir gentilmente as nossas literaturas brasileira e portuguesa clássicas aos leitores iniciantes. Mas é preciso fazê-lo com democracia. É necessária uma visão além do texto. Propor discussões e temas que cercam “Iracema”, por exemplo. Podemos falar do “descobrimento/invasão portuguesa”. Podemos falar de tribos, línguas e culturas indígenas. Podemos atrair o leitor e indicar que aquela literatura, mesmo sendo grande e rica, é uma leitura acima de tudo e pode ser compreendida porque é embasada por elementos que podemos reconhecer no nosso cotidiano. Mas fazer isso sem reconhecer os professores através de salários altos, ou pelo menos justos, não será possível.

 

DA – Concordo plenamente. Sem um embasamento contextual, a identificação torna-se alheamento e, daí, as consequências são o desinteresse e o trauma. Contudo, assim como ocorreu comigo, essa experiência ruim não arrefeceu a chama da escrita. De onde vem esse desejo de contar histórias, e qual é a primeira lembrança de ter escrito algo que lhe desse orgulho ou, ao menos, coragem para tornar público?

NARA VIDAL – Tenho escrito cada vez mais contos. Tenho muitos na “gaveta”. Nos contos gosto tanto da história embrulhada neles quanto da passagem de palavra por palavra até o fim. É uma atividade que me dá muito prazer, escrever contos. Com o livro “Lugar Comum”, eu senti vontade de compartilhar as histórias e criei uma página no Facebook com o mesmo nome. Foi interessante observar as leituras que eram feitas. Mas você mencionou uma palavra importante pra esse processo de escrita e leitura: coragem. Falta-me certa coragem na maioria das vezes e vou te contar que já enviei muito material com pseudônimo. O motivo disso é insegurança. Insegurança que é, aliás, poderosa ferramenta do escritor. Sem ela não há melhora, não há procura, não há investigação nem releitura. Já publiquei coisas movidas por pura ansiedade e que não publicaria hoje. Mas não me castigo por isso. Tudo faz parte de um processo e esse é o meu. E há coisas que escrevo que sinto vontade de contar. Com coragem, compartilho.

 

DA – Mas você concorda que um autor nunca caminha sozinho? Há um dado momento do percurso literário que a presença de alguns autores consagrados passa a ser fundamental, não como destino, mas feito bússolas com as quais o texto vai adquirindo compatibilidade, feições estruturais, e todo novo livro, de alguma forma, acaba por fazer parte desta gestação abstrata, uma amálgama de referências de maior ou menor intensidade. Em qual momento você encontrou os escritores que caminham contigo até hoje, e quem são eles?

NARA VIDAL – De certo! Antes de sermos autores e escritores, somos leitores. Pelo menos deveria ser assim. Eu li uma entrevista do Milton Hatoum em que ele dizia que a meta diária dele era escrever dez linhas e ler cinquenta. Faz todo sentido, não? Há muita confusão em relação à produção escrita, mas continuo achando que a preparação para um bom texto precisa ser a leitura, não necessariamente a própria! Eu tive um período muito ambicioso na faculdade de querer escrever poesia. Lia Baudelaire, Mallarmé, Florbela Espanca… Sou apaixonada por Shakespeare, particularmente seu material menos conhecido: os sonetos. Na conclusão de qualquer texto meu, tento achar algo aproveitável de forma atemporal. Mesmo que limite períodos históricos, o que geralmente acontece, gosto de procurar uma leitura que independa de condições. Sou louca por Macbeth. Aquela tragédia nunca saiu de moda. Há tantas interpretações para os personagens, que uma releitura é possível com frequência. O alfinete de Shakespeare espeta em todos os defeitos do ser humano dentro daquela peça. A ambição, a covardia, a família, o papel dissimulado e manipulador da mulher por trás do homem, a vingança, a loucura, a vaidade. Ainda dentro do teatro, que tanto gosto, Moliére, assim como Shakespeare, me interessa profundamente. O disse-me-disse, os desencontros cômicos, são elementos que tentei empregar, claro, dentro da minha capacidade, nos meus dois livros adolescentes.  E claro, há autores que eu leio e admiro, aprecio seus estilos, suas técnicas, suas narrativas de força, impacto. Rubem Fonseca é um deles. Gosto particularmente dos seus contos. Guimarães Rosa me envolve com sua narrativa poética, com seu neologismo feito de terra batida. Gosto do João Carrascoza pela delicadeza do simples. Gosto do Godofredo de Oliveira Neto pelo refinamento nos seus romances. Lydia Davies pela narrativa extra curta e humor. Neruda e Bilac para falar de amor doído e/ou platônico. Sylvia Plath me intriga. Confesso que não consigo ler nada dela sem, de imediato, relacionar à sua vida breve e trágica. Tenho lido alguma coisa do poeta inglês Philip Larkin, coisas escandalosas para uma para uma moça de passado católico! Ivan Lessa tem sempre minha leitura. Temos em comum, Londres, a Inglaterra. Seu sarcasmo, humor e certa melancolia nas crônicas sempre me fisgam. Sinto-me em boa companhia quando fala da sua desistência e impaciência em relação ao Brasil. Agora, aqui no final, me dei conta de que você me colocou num mato sem cachorro, já que falar dos escritores preferidos e que nos acompanham é algo tão injusto quanto impossível.

 

DA – Pois é. Mas, além da armadilha, fica essa bela estamparia de nomes, não? Penso que a percepção sobre um bom autor se inicia por suas referências, e as suas são de alto quilate. Também sou fã de muitos desses nomes. Agora, interessante citar o Lessa, pois vários contos de “Lugar comum” têm mesmo esse travo, esse olhar meio zombeteiro, meio amargo, sobre relações de brasileiros com territórios estrangeiros. “Estreito de Dover”, por exemplo, narra a viagem de uma família mineira pela Europa, até se deparar com a “inteligência” de um banheiro público alemão. Ainda que conduzido com leveza, é um texto com um teor bem ácido. E isso acaba por tornar o livro um tanto agridoce, concorda? Há os contos da infância, recheados de passagens edulcoradas, e os contos adultos, marcados por esse sarcasmo impiedoso, esse certo desencanto.

NARA VIDAL – É interessante que o meu editor, o Marcelo Nocelli, que escreve lindamente, notou qualquer coisa do Lessa nos meus textos quando apresentei a ele o original do livro. Os textos que estão mais distantes daqueles da infância são mais amargos sim. Parece-me natural que seja assim. Só a infância pode suportar, em vivência e em texto, a doçura. Depois ela passa a enjoar, enojar. É preciso usá-la e prová-la com parcimônia. Há também enorme falta, saudade nos textos: minha mãe. Ela foi uma mulher muito culta, atenta às artes, sensível. Sexta-feira era dia de folga dela, na escola. Na folga fazia faxina. Elis enquanto limpava a sala, Chico a cozinha, Betânia nos quartos. Era uma força da natureza aquela mulher. Fez um buraco quando foi embora. Os textos adultos relembram sua presença e lamentam sua ida. Vamos guardando a doçura da lembrança numa caixa dentro do armário e o sarcasmo, o desencanto, certa amargura vão ocupando seus espaços também grandes. Mesmo na ficção, esse processo de vida vai formando nossa escrita, criando certas características. Mas o bom humor salva. Vide Lessa!

 

DA – Mas é importante salientar que, há quase 15 anos, você está fora do Brasil. Como este olhar estrangeiro, essa ambientação fora da pátria, teve influência na sua literatura e o quanto isso é/foi importante para o fortalecimento do seu processo de escrita?

NARA VIDAL – No que se refere ao processo criativo, a minha distância geográfica do Brasil talvez tenha mesmo impulsionado a minha escrita. A minha permanência aqui promove a mim diariamente pontos de vista e um olhar estrangeiro em profundo exercício. Veja que, em setembro, faz quinze anos que eu cheguei em Londres e ainda hoje procuro manter meu olhar de fora. Ainda tenho certa dificuldade no ajuste cultural, ainda tenho choques de diferenças, ainda chego atrasada na terra do Big Ben, algo que é realmente lamentável, reconheço. Ao mesmo tempo, meu distanciamento do Brasil, mesmo que não seja aquele emocional, me faz valorizar o beijo no rosto do brasileiro, e apreciar o aperto de mão do inglês. Na criação de “Lugar comum”, tenho certeza que os textos aconteciam por pura teimosia minha em querer registrar o que não é mais possível, não só pelo tempo já passado, mas por eu ter começado a criar raízes próprias aqui. Meus filhos não são brasileiros, portanto houve uma motivação para escrever sobre o que foi uma infância mineira com toda a sua simplicidade e sua glória. Sinto a Inglaterra como território fértil para minha criação. Há uma certa paz, ordem e calma que, para mim, funcionam como elementos opostos à melancolia, ansiedade, saudade, caos que levo dentro do que escrevo, apesar da certa calma aparente que pode se refletir no meu trabalho. Além de tudo isso, dessa minha inadequação tanto aqui quanto no Brasil, já que sou eternamente o “meio do caminho”, condição difícil de aceitar, encontro na Inglaterra um país que me dá oportunidade para trabalhar como escritora. E o que acho mais bacana é a discrição em tudo que o inglês promove. Aqui a gente não vê festas de lançamento, feiras literárias em todo canto, facebooks de autores “bombando” (risos). Há bem menos festa e consideravelmente menos vaidade aparente. Mas o que você vê é gente lendo no trem, no ônibus, no metrô. Gente de toda idade. Vê livrarias cheias. Vê bibliotecas lotadas, confortáveis, sedutoras, modernas, com recursos. Eu sempre digo que há uma certa mineirice no inglês: trabalham duro, mas trabalham quietos. Eu, como tenho uma produção de livros infantis, trabalho muito no Brasil exatamente em lançamentos, feiras, escolas. Precisamente o que não tem muito por aqui. Mas me dá imenso prazer essa possibilidade de observação do estrangeiro. Para mim vale feito um privilégio, tanto no meu dia a dia quanto na minha produção literária.

 

DA – Queria falar justamente dos livros infantis. Curioso que eles surgem na sua trajetória literária antes do que se poderia chamar de ficção adulta, muito embora seus contos tenham uma influência direta da sua infância em Minas Gerais. Por que isso? Foi proposital iniciar com a literatura infantil ou surgiu a oportunidade e você embarcou nela?

NARA VIDAL – Eu nunca na minha vida imaginei escrever livros infantis. Esse universo era muito distante de mim. Aí veio minha filha. Com ela, a aquisição de duas línguas simultaneamente. O bilinguismo sempre me maravilhou. Estudei alguma coisa sobre isso na faculdade. Quando ela começou a crescer e a falar, mergulhei no assunto e escrevi uma série bilíngue que vendeu incrivelmente bem. Foram três livros. Aí, por questões editoriais, a série acabou. Porém, o assunto é fascinante e eu tenho um trabalho novo nessa área. Desenvolvi uma espécie de material bilíngue que pode ser aplicado em escolas, tanto para o aprendizado da segunda língua, no caso o inglês, quanto para o processo do desenvolvimento da língua materna, o português. Foi escrito inclusive com livro de atividades, feito material mesmo. Tem uma editora analisando a proposta para apresentar em escolas. No entanto, o meu grande sonho, que é ver o inglês desde os seis anos nas escolas públicas, fica cada vez mais distante. Não há prioridade na Educação no Brasil e a implementação de uma ideia assim teria como primeiro obstáculo a falta de professores capacitados e treinados para ensinar a língua estrangeira. Nos “cafundós do mundo”, conforme falamos em Minas do lugar onde Judas perdeu as botas, não existe facilidade assim. Muitas vezes nem nas capitais existe facilidade tal. Uma pena. Nunca vai existir igualdade social dentro da Educação, enquanto o ensino do inglês for negado às escolas públicas. A desvantagem começa aí e, lá para a frente, já sabemos como a história termina. A série bilíngue foi adotada em muitas escolas, todas particulares, infelizmente. Meus filhos são uma enorme fonte de inspiração para meus infantis. Estou envolvida até o pescoço com essa aquisição da arte e da criação de literatura infantil. Administro uma oficina para 11 alunos, toda semana, sobre literatura e produção de histórias. Isso me deixa com vontade de continuar a escrever literatura para criança. Revigora a gente, sabe? Apesar do mercado, apesar das políticas de Educação, apesar dos pesares.

 

DA – Seus filhos vivem e estudam na Europa e, obviamente, têm uma relação com a arte, em especial com a literatura, que, imagino, você não teve, que muitas crianças ainda não têm no Brasil. Da sua experiência com literatura infantil, acredita que existem diferenças práticas na maneira de introduzir o livro nesses universos distintos? Qual método que funciona bem aí que poderia ser adaptado por aqui?

NARA VIDAL – Você tem razão. A relação que eu tive com a literatura e as artes, quando criança, é muito diferente da que têm os meus filhos. Eu, com esse meu tempo de observação por aqui, fico achando que o segredo da popularização da literatura e das artes em geral é a familiarização dessas expressões desde muito cedo. Parece-me que a arte entra na vida das pessoas de forma muito natural por aqui. Principalmente não enxergo, nas escolas, a literatura como privilégio. Vejo que por aqui as artes, inclusive a literatura, são introduzidas de forma muito democrática. Não há também uma supervalorização. Explico: se um adolescente não se interessa por literatura clássica, a escola, os professores, não tendem a excluí-lo como se fosse a apreciação pelas artes clássicas um divisor de águas.  Vejo também a História sendo revivida e reapresentada incansáveis vezes. Datas, dias, são menos importantes. O que se discute mais, ao invés, é o impacto que determinada batalha teve para o país. É difícil traçar comparações entre aqui e o Brasil. Talvez seja mesmo impossível. Acho que a Inglaterra pode aprender com o Brasil a ser mais amorosa no trato com as crianças. Mas vejo muita qualidade na Educação daqui, apesar de certa frieza que nós, latinos, gostamos de enxergar.

 

Nara Vidal
Nara Vidal / Foto: JL Bulcão

 

DA – Já que estamos nessa seara de filhos, gostaria de lhe propor uma questão de cunho mais pessoal. Eu tenho uma filha pequena, que também é a minha maior fonte de incentivo e de inspiração, contudo, de maneira prática, no que se refere a tempo, concentração e solidão, elementos fundamentais para o processo da escrita, ter de lidar com a paternidade foi aprender a trabalhar com períodos diminutos, muitas vezes distribuídos durante o dia. No seu caso, a maternidade provocou esse choque com a literatura? Nara, a escritora, teve de se adaptar a esse novo contexto e planejar seus horários para o texto?

NARA VIDAL – Outro dia fomos visitar a casa do Roald Dahal. Ele tinha um escritório no jardim da casa, ia para lá às 10h e escrevia até o meio-dia. Almoçava, descansava, escrevia. Às duas da tarde, tomava gim tônica e escrevia até às cinco. Isso praticamente todos os dias. Senti uma inveja gigantesca daquele respeito pelo ofício meio ocioso de ter ideias e escrevê-las. Você sabe que às vezes elas demoram a aparecer de forma consistente. Quando os filhos entram nesse cenário então… É uma coisa louca aqui porque escrevo em qualquer momento livre que tenho. Qualquer um! Ultimamente tem sido ao som de robôs, transformers, essas coisas. Aprendi a trabalhar assim, senão não escrevo. A única coisa que ainda preciso aprender é lidar com interrupções. Se isso acontece e eu estou mergulhada no texto, acho difícil parar e voltar. Eu aprendi a adaptar meu trabalho ao ambiente. Mas confesso que adoro a solidão. Gosto tanto que, nas raras vezes em que estou sozinha, não consigo escrever porque fico apreciando a calma, o silêncio. Meus filhos sabem que meu trabalho é ler e escrever. Mas isso não significa que pratiquem o respeito e não vão parar debaixo da minha mesa num pique-esconde qualquer. Além de tudo isso, aqui na Inglaterra a gente normalmente faz todo o trabalho doméstico sozinha, sem ajuda. Quando as crianças estão na escola, preciso escolher entre trabalhar, cuidar da casa ou fazer comida. Gosto também de acordar antes da casa, ainda no escuro, fazer um café e começar o dia em calma. Mas essa paz não dura; ainda bem, diga-se! Fora isso, tenho suporte e, vez ou outra, viajo no fim de semana só para ver a solidão de perto e colocar ideias no papel. Ou se não conseguir escrever, experimentar artes novas. Preciso desse tempo e consigo tê-lo, vez ou outra. É feito aquela respiração profunda que a gente faz para encontrar energia. A inspiração dos filhos vem mais da convivência, da simplicidade das coisas, de uma ida ao parque, ao mercado. As perguntas que fazem, os pontos de vista, as opiniões deles são sempre fontes inesgotáveis de observação e admiração minhas.

 

DA – Recentemente, participei de uma mesa no Festival Nacional de Contos, ao lado dos escritores Carlos Henrique Schroeder, Altair Martins e Walther Moreira Santos, na qual falamos sobre concursos e prêmios literários. Ao fim, chegamos a uma conclusão não muito animadora, que honraria tem um peso muito mais particular que de servir como trampolim para a carreira do escritor. Você conquistou o Prêmio Brazilian Press Awards, em 2013, e, no ano seguinte, o Maximiano Campos, na categoria Contos. Qual o efeito que essas distinções tiveram no caminho do novo livro, da apresentação do original até a publicação?

NARA VIDAL – Há pouco tempo, eu estive na Flipoços com o fantástico Luís Serguilha, por quem tenho grande afeto e admiração. Numa mesa de bar, falávamos disso e ele me fez rir dizendo que os prêmios só servem para pagar as contas. No meu caso, nem isso!  Para falar a verdade, quase nunca participo de concurso. Participo de poucos. As editoras também cuidam dessa parte. Mas tenho muita preguiça da burocracia dos concursos no Brasil. Geralmente desisto enquanto penso se participo ou não. O Maximiano Campos, por exemplo, foi inscrito online. Um avanço, uma maravilha! Daí, participei. Além disso, não posso participar de vários concursos porque não sou residente do Brasil, outra maluquice das regras, na minha singela opinião. O Press Awards é um prêmio e para ele eu fui indicada, o que é muito bacana. No fim das contas, o que eu já ganhei só serviu para um tapinha nas costas de cinco minutos. Depois a gente cai na real, vê que não tem importância e sai em busca do trabalho de novo. Não sei se é assim para quem ganha um dos prêmios de maior prestígio no Brasil, feito você que ganhou o Prêmio Sesc de Literatura? Mas acredito que aí seja outra história. Deve ter te trazido a glória, o prestígio, a fortuna! (risos). De qualquer maneira, a única coisa que deve importar, no processo de criação, é a busca pelo pote de ouro no fim do arco-íris, ou seja, a qualidade total da escrita. Essa insatisfação e impossibilidade devem ser o fio condutor do ofício, do desejo de aprimorar, de praticar, de trabalhar.

 

DA – Sim, eu fiquei bem rico. Hoje, além de escrever, tenho uma fazenda onde crio cronópios e famas (risos). A glória teve a duração de um ano. Tem uma tradição entre os ganhadores do prêmio que a passagem da faixa de miss. Para aqueles que não sabem, além do lançamento do livro, o Sesc também leva o novo autor para vários eventos, em vários cantos do país, durante este período. O ano de miss. Já o prestígio é relativo. No meu caso, não garantiu que eu continuasse publicando pela editora que lança as obras vencedoras. O que me leva a uma questão: você chegou a apresentar o original de “Lugar comum” para alguma das editoras brasileiras consideradas de grande porte? Ou, assim como no caso dos concursos, a burocracia, a espera, a expectativa fizeram com que nem tentasse?

NARA VIDAL – Cronópios e fama… Bela criação, Sérgio! Eu entendo e percebo esse prazo de validade em relação à divulgação e à badalação de um livro. Somos um país de cada vez mais autores e menos leitores. Há muita competição por espaço, por prateleira, por leitura. Ontem li um conto seu publicado pelo Formas Breves, “Terra do nunca”. Tocante. Você é um talento. Mas tenho certeza de que gente de calibre de fato já te disse isso. Só não li suas outras publicações porque não encontrei em e-books. Olha, vou te dizer uma coisa: eu nunca tive a ambição de mandar original meu para aquelas editoras grandes, dos prêmios. Não posso ser hipócrita, pois claro que gostaria de ser editada por uma delas. Não há escritor sem vaidade, será que você concorda? Afinal, quem pensamos que somos ao escrever algo que acreditamos ser relevante o suficiente para ser publicado, lido por um tanto de gente? Há vaidade e vaidade. Melhor ficar com a primeira… (risos) Mas não saberia nem por onde começar em relação a apresentar originais aos grandes grupos editoriais. No entanto, apesar do mercado se mostrar cada vez mais estreito, vejo com extremo otimismo o surgimento de editoras novas ou até independentes. São, na maioria das vezes, espaços fundados por gente apaixonada por literatura que, de uma forma até romântica, luta pelas Letras. Eu acho isso muito comovente. Eu tive três propostas de edição do “Lugar comum”. Fechei com a Pasavento porque senti uma afinidade entre mim, Marcelo e Rennan. Deram-me uma leitura atenta, com críticas, comentários. Ouvi de um editor uma vez que o meu texto era irretocável e estava pronto. Saí correndo e nunca mais consegui olhá-lo com seriedade. Mas eu gosto de variar editoras. Faço isso com os infantis. É uma forma excelente de provar formas diferentes de trabalho, encontrar afinidades ou concluir que não há nada em comum. Acho importante para ganhar experiência. Dito isso, há editoras com as quais eu trabalharia sem parar. Sobre as editoras grandes… Já pensou, ter seu livro lá na prateleira de entrada de uma grande livraria? Deve ser bom!

 

DA – Muito grato pelos elogios! Fico feliz. Como também é uma alegria ler sobre editores que trabalham junto ao autor, visando exclusivamente a qualidade literária. Também tive essa sorte na Confraria do Vento, que publicou meu segundo livro. O caso é que nem sempre é assim. Com a proliferação de novos selos, cresceu de modo exponencial o número de novos autores, muitos dos quais imaturos, com potencial, mas ainda precisando de um tempo para robustecer seu texto; o que, a meu ver, deveria ser o papel do editor, pegar o cara e dizer: “Espera um pouco. Não publica agora. Vamos melhorar esse original”. Encarando dessa forma, você não teme que, com a enxurrada de novos autores despreparados, chegaremos ao ponto de nivelarmos a literatura brasileira por baixo? A tal democratização não poderia ser, a longo prazo, uma maneira de se consolidar alguns privilegiados?

NARA VIDAL – Olha, eu concordo com a sua colocação de que é trabalho do editor cuidar do texto e filtrar o que chega, se apresenta. Recusar, lógico. Claro, o escritor, por mais detalhista, perfeccionista, auto-crítico que seja, sempre vai querer a publicação do seu texto, por isso ele o envia para editoras. O autor não tem o distanciamento do seu texto necessário para avaliá-lo. Daí a leitura do editor ser tão importante. Claro, quando explicam a razão da recusa, é muito digno. Mas, às vezes, o escritor não encontra uma editora: encontra uma gráfica. No entanto, vivemos tempos interessantes: há uma moçada que lê muito. O que lê? Bom, aí nós caímos naquela questão da literatura elitista que eu não curto. Acho tão esnobe quando se cria essa opinião comum de que os best-sellers, principalmente os brasileiros, são literatura de questionável qualidade! Essa postura só serve para perpetuar o que já discutimos aqui: a literatura, essa rara e sofisticada forma de arte, privilégio de poucos. Isso é muito negativo e tem o impacto exatamente no número de leitores no Brasil. Eu acredito que leitura é leitura. Cada um no seu tempo, na sua hora, na sua maturidade, vai chegar ao que todos classificam como literatura clássica. Uns vão demorar pouco, uns vão demorar muito. Outros não vão conseguir gostar. Não vejo problema nisso. Não acho que só o que eu li na Faculdade de Letras e só o que a mídia e os prêmios classificam como alta literatura seja a única forma de leitura aceitável. De uma certa forma, o mesmo se aplica aos escritores. Hoje em dia só não publica quem não quer. Há inúmeras editoras que cobram do autor e prometem editar. Há a auto-publicação. A Amazon oferece aqui um serviço de livros em e-book e físicos que você pode publicar em menos de uma hora. No final das contas, um livro mal editado e de um escritor ansioso que publicou antes da hora pode ficar tão empacado quanto o de um imortal da ABL. Gosto da democratização, de certa igualdade na oportunidade de publicar. No entanto, sabemos bem que o que é bom é relativo e, por isso, talvez seja verdade que um tipo de literatura não tira o lugar da outra.

 

DA – Desse tempo em que você está fora do país, tem acompanhado o que ocorre na literatura contemporânea brasileira? O que chega por aí de maneira espontânea, fora das autopromoções das redes sociais?

NARA VIDAL – Acompanho sim. É a minha área não só de interesse como de trabalho. Sigo tudo o que está ao meu alcance. Pouco daí chega aqui, pouco daí é amplamente conhecido aqui. Preciso ressaltar que falo sobre o que eu vejo e sobre o que vejo na Inglaterra. Existe a FlipSide, da Liz Calder, a mesma idealizadora da Flip. Esse evento, bem pequeno, acontece em outubro, em Suffolk, um lugar pitoresco, bonito de se ver. Pelo tamanho do evento, ainda é possível encontrar e conversar com os autores de maneira mais espontânea que na Flip, por exemplo. É um charme. Em 2013, estiveram por lá o Milton Hatoum, Adriana Lisboa, Ferrez e um tanto de nome bacana. Ano passado veio a Socorro Accioli, por exemplo. Além disso, há, nas universidades, os departamentos de estudos latino-americanos. Vez ou outra, há alguma arte nossa representada lá, seja em literatura, seja na música, seja na dança ou nas artes plásticas. Há poucas semanas, estive na University College London, com a Sylvia Morgado e o Dedé Laurentino, e falamos para uma plateia de brasileiros, veja bem. Eu participei de uma mesa do Cheltenham Festival, o maior por aqui, falando sobre Brasil. Existe interesse, mas até onde vejo, me parece muito limitado e ainda visto como exótico.  A Embaixada e o Consulado também se esforçam para divulgar a nossa literatura aqui, mas esbarram em obstáculos financeiros, por exemplo.

 

Nara Vidal por Louis Hallam
Nara Vidal / Foto: Louis Hallam

 

DA – Um tanto desanimador, não? Mesmo com o crescimento dos autores, das feiras que homenageiam o país, da pluralidade da literatura contemporânea brasileira, ainda persiste essa visão do exótico, do pitoresco, do regionalismo, além das nossas fronteiras. Desses eventos europeus que participa, qual o tipo de pergunta recorrente? Já se pegou tendo de explicar que não somos índios fazendo sinal de fogo?

NARA VIDAL – Bom, se existe o desejo do escritor brasileiro de ser reconhecido por aqui, na língua inglesa, é de fato desanimador. Mas desanimador mesmo é esse estereótipo. Um tanto cansativo também. Essa foi precisamente a minha tese de mestrado aqui, na London Met. Falei sobre a imagem e o estereótipo brasileiros, com foco em Minas. A imagem, como sendo a experiência e o estereótipo, aquilo que motiva a experiência. Fiz um “focus group” com britânicos para a minha tese e, de dez, só um tinha ouvido falar em Minas Gerais. Mesmo assim porque é um “lugar não longe do Rio que não tem praia.” A minha tese foi publicada aqui e está disponível na British Library. Ofereci ao Governo de Minas, mas não tive resposta. Desenvolvi no trabalho exatamente a tentativa de destruição do estereótipo brasileiro, propondo saídas concretas para o aumento da visibilidade de Minas nas brochuras de turismo. Cheguei a falar de Juiz de Fora e suas riquezas mais óbvias, como Murilo Mendes, Rubem Fonseca e Mariano Procópio que, mesmo não tendo nascido em Juiz de Fora, foi juizforano. Falei da arte barroca, dos trens de ferro, da História, da culinária. Mas mesmo assim, o Rio e as praias ainda são o Brasil. Algumas impressões não são estereótipos, são realidade. A violência é um enorme obstáculo para atrairmos o olhar estrangeiro desconectado da noção de exótico. No festival literário de Cheltenham, para quebrar o gelo, contei a história de quando fui a um aniversário em Oslo e, lá, os amigos noruegueses do meu marido aguardavam ansiosamente a presença exótica da brasileira. Cheguei, sentei-me à mesa, bebi, comi e, à certa altura, um deles comentou que não tinha ainda visto a tal brasileira. Olhei para os seus curiosos olhos azuis e quebrei o encanto: a brasileira era eu, feito ele, também tinha olhos azuis e era loira. A partir dali, contei pra ele sobre o sul do Brasil e seus alemães, sobre o sudeste e seus japoneses, italianos, sobre o nordeste e seus holandeses, sobre todas as cores que nos enriquecem. Já o estereótipo da nação do futebol, pelo menos aqui em casa já foi massacrado. Minha filha sabe bem que o Brasil é perna de pau, pois me viu derrotada naqueles 7×1 até hoje inacreditáveis.

 

DA – Falando em massacre, não sei se acompanha essa polêmica do conto aqui no Brasil. Esse olhar enviesado para o gênero, sob o argumento de que não vende, de que não há um interesse robusto dos leitores pelas breves narrativas. Hoje temos a soberania do romance, inclusive com algumas editoras percebendo a literatura brasileira estritamente nesse formato. O que pensa sobre essa discussão? Como avalia a importância do conto, na esteira do lançamento da sua antologia?

NARA VIDAL – Eu acompanho sim. Engraçado que, há um ano, eu e mais três autoras queríamos escrever um livro juntas. Eu pensei em contos e até cheguei a propor. Na hora vieram comentar que conto não vende. É impossível eu comentar sob o ponto de vista de uma editora. Fico pensando que o “não vende” no Brasil é muito mais abrangente. Eu acredito que uma vez quebrado esse preconceito em relação ao conto, visto que somos um país de leitores preguiçosos, o conto pode se tornar atraente, pelo tamanho mesmo. Mas veja a armadilha: contos são caprichosos, difíceis. Precisam ter grande riqueza e primar pelo impacto, pela dinâmica, a rapidez. Uma vez ouvi alguém dizer, não me lembro quem, que escreveu uma carta com dez páginas porque não conseguiu escrevê-la em cinco. Eis a ilustração da dificuldade do conto. A economia das palavras é apenas quantitativa. A qualidade deve ser precisa. Talvez o mercado editorial aposte num molde estrangeiro, quem sabe? Aqui fora as “short stories” vendem menos, mesmo se comparadas com os romances. Mas vejo com otimismo a destruição do preconceito em relação ao conto. O selo Formas Breves é um bom exemplo do novo ar que vem entrando nessa casa velha cheia de teias de aranha. Outra beleza da qual me lembrei é a Lorrie Moore, escritora americana que já esteve na lista dos mais vendidos por tempos com seus livros de contos. Sabe o que ela fala sobre contos? Que são fotografias. Romances são filmes. Contos são um caso de amor. Romance, casamento. Parece-me que os leitores brasileiros estão precisando um caso de amor. Urgentemente!

DA – Falando em casamento, como é a sua relação com o leitor? Você pensa nele durante o processo de escrita ou o percebe no papel de espectador?

NARA VIDAL – Enquanto eu escrevo, não penso em quem vai ler não. Isso nunca me passa pela cabeça enquanto há o processo criativo. Sinceramente, acho que se você para para refletir sobre quem vai ler enquanto está escrevendo não deve chegar nunca a lugar algum. Depois de publicado o livro, gosto de ouvir e saber das leituras. É interessante ver como foram parar aos olhos dos outros. Feito um telefone sem fio, leituras e olhos se modificam na experiência única de cada leitor. Acho bacana ver como acontece essa parte viva da literatura. Nos meus trabalhos de literatura para criança e jovens tenho um contato bem direto. Há turmas que fazem prova de livro meu, há homenagens, há dias de autógrafos em escolas. Há um contato muito legal e muito honesto. Há abraço apertado, há olho no olho, há elogio muito sincero relacionado ao que leram. Se morasse no Brasil, teria o pé na estrada o tempo todo visitando escolas, feiras. Gosto bem.

 

DA – Como você gostaria que seus filhos vissem seus livros quando adultos?

NARA VIDAL – Há uma coincidência na sua pergunta: outro dia, por volta das 7h30 da noite, colocava minha filha para dormir (as crianças aqui vão dormir bem mais cedo. Por volta de 7h, já começam a ouvir as histórias e ler os livros). Ela pediu que eu ficasse com ela até cair no sono, o que não faço porque ela aprendeu a se acomodar e ir dormir sozinha. Acho vantagem isso, não quero estragar. Mas fiquei com ela um bom tempo. Disse que precisava descer e continuar a trabalhar. Daí ela me perguntou se era mais um livro e eu disse que sim. Ela me surpreendeu quando me perguntou o que eu quero desses livros todos que eu escrevo. Confesso que não soube a resposta. Como ela não aceitou o meu silêncio, eu disse que queria escrever 100 livros. Quando esse dia chegasse, eu pararia. Ela riu e disse que eu perdi, já que a Julia Donaldson escreveu mais de 130! Acho que quero deixar isso: o meu afinco para com o meu trabalho, provar que posso fazer o que amo se equilibrar com todo o resto. Que mesmo que cada livro tenha tirado um pouco do meu tempo com eles, os meus filhos, eu estive muito feliz e viva na produção do meu trabalho. Acima de tudo isso, quero que vejam e sintam a língua portuguesa. Costumo pensar que, se todo o resto falhar, pelo menos dei a eles uma língua inteira. É o melhor que poderia dar.

 

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

 

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

Há pouco entramos num marco centenário de publicações. Agora, seguir adiante é manter acesa uma chama que sabe a sonho e alguma espécie de teimosia. Tem quem prefira classificar como resistência, mas pensar assim implica um pouco em firmar a ideia de que se está lutando contra uma força qualquer. Não seria esse o propósito de trilhar caminhos na seara cultural. É fato que algumas adversidades se agigantam no meio da jornada. No entanto, elas servem para nos mostrar que o jogo das oposições se estabelece muito mais por uma necessidade de se firmar posições e ideias, construindo diálogos e debatendo uma vasta gama de assuntos. Ao mesmo tempo em que se busca externar pontos de vista pautados nas mais diversas formas de expressão, poder fomentar o pensamento significa também estar aberto à mudança. É entender que, como organismos vivos racionais, estamos sujeitos a toda sorte de interferências e sugestões que nalgum ponto da trajetória são capazes de nos indicar vias substanciais de transformação. Em outras palavras, lidar com forças humanas é constatar a vulnerabilidade das certezas. Ao fim de tudo, é bom concluirmos que ninguém detém a patente da verdade. E o que faremos com tal arremate? De fato, são infinitas as possibilidades, mas cada pessoa configura as leituras seguindo uma ótica que mescla razão e sensibilidade. Precisamos da arte para romper a dureza dos dias quando nos percebemos seres aborrecidos pela rotina mecanizada. Necessitamos da arte enquanto prova inconteste de que estamos vivos e prenhes de saber e sabor. Somos arte na ruptura, na desconstrução e na inconformidade. Somos, enfim. Os acessos da Diversos Afins anseiam pela comunhão de signos advindos das mais distintas correntes de expressão. Assim, vamos buscando a expansão de um ideal de multiplicidade de rostos e vozes, todos eles com o que há de melhor: o vigor de sua individualidade. Vejamos, pois, que, diante de um mundo atravessado pelo caos do pensamento e da ação, há espaço para os olhares marcantes de gente como Victor H. Azevedo, jovem artista movido fundamentalmente pela atuação das forças que circundam seu caminho sensível. Na linha que agrega percepções inquietas sobre a existência, é oportuno frisar a conversa que tivemos com o escritor Dênisson Padilha Filho, autor que vem construindo uma obra valiosa na prosa contemporânea brasileira. Nos recortes poéticos de então, abrimos alas para as epifanias de Vicente Franz Cecim, Catarina Santiago, Leonora Rosado, Vander Vieira e Paola D’Agostino. Noutro ponto da edição, Larissa Mendes empresta seus olhos para toda a beleza e força presentes no documentário “O Sal da Terra”, filme sobre a trajetória do fotógrafo Sebastião Salgado. Há também o provocador percurso de Sérgio Tavares nas impressões sobre o mais novo romance de Carlos Trigueiro. Dispersa nos contos de Fernando Marques, Tadeu Sarmento e Diego Moraes, a vida mostra suas muitas faces. O olhar poético de Daniela Galdino confere ao mais novo disco do cantor e compositor Lirinha um lugar de destaque. “Diário de um ladrão”, romance de Jean Genet, é alvo dos esmerados apontamentos de Rafael Peres. Com estes e outros trânsitos possíveis, caro leitor, ofertamos a você uma 101ª Leva!

Os Leveiros

 

 

Categorias
101ª Leva - 04/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Um ultraje contra o Brasil, esse país de gente honesta

Por Sérgio Tavares

 

 

 

‘Mierdamorfose’ (7 Letras/172 pgs.), de Carlos Trigueiro, é um acinte. Uma bazófia, o apregoamento doidivanas de um despropério num país, que é de senso comum, foi instituído o politicamente correto, a caretice, o bon ton.

Como pode um cidadão, que se lê na orelha pós-graduado na Universidade de Roma, homem do mundo e autor de obras literárias de vulto, insinuar que, no Brasil, incorra o expediente da desonestidade, da corrupção, do toma lá dá cá, do jeitinho, do dólar na cueca?

Uma temeridade, um absurdo!

Só para registro, vamos ao livro: depois de despertar subitamente de ‘sonhos indecifráveis’, o professor universitário Anastácio Penaforte se percebe metamorfoseado. Tudo se inicia com um estremecimento incontrolável, seguido de uma ‘sensação de vislumbre generalizado’, que evolui para uma espécie de sexto sentido e, por fim, para a instalação de uma ‘fenomenal consciência’.

Tal processo insólito, que muito se assemelha ao sofrido por Gregor Samsa na novela ‘A metamorfose’, do tcheco Franz Kafka, não o transforma num inseto monstruoso, mas desencadeia anormalidades físicas, como uma descoloração do seu cabelo para um tom arruivado, o comprometimento da fala numa insuspeita língua presa e o soltamento de ‘uma coisa escura e pastosa da pele’, que torna a água do banho lamacenta e fétida.

Sentindo-se, então, ‘uma pessoa limpíssima, cristalina, decente, proba, digna, boa, honrada, íntegra’, Anastácio Penaforte passa a semear radicalmente a honestidade, tanto contra os desvios particulares quanto os públicos.

Seu périplo em defesa dos preceitos morais tem início pela faculdade onde leciona Literatura Comparada. Adentra, sem cerimônia, o gabinete do diretor e confessa suas infrações escoradas na autoridade de professor, entre os quais beneficiar alunas com a garantia de levá-las para cama e a fraude na autoria de um livro. O docente superior fica pasmo, credita o testemunho a um surto mental, e endossa um afastamento temporário.

Ato contínuo, o professor encaminha-se a uma delegacia próxima e, diante de um inspetor de polícia, averba uma ‘declaração espontânea de supostos delitos’, acusando-se de ter usado celular em locais proibidos, comprado produtos piratas, fumado maconha, desrespeitado a faixa de pedestre, apostado no jogo de bicho, perseguido alunos gays, mentido para escapar do serviço militar e cabulado reuniões de condomínio, dentre outros.

O próximo passo é uma consulta com o doutor Rubião (n. do resenhista: curioso esse nome) que não encontra nenhum mal patológico, associando tais mudanças a um fator fantástico, em especial a impossibilidade de pronunciar a sílaba ‘po’, trocando-a pelo som do antigo ‘ph’, a exemplo de ‘phoder público’. É inclusive conduzido ao checkup de uma fonoaudióloga, contudo a causa da anomalia permanece em mistério.

Ora, até este ponto o livro transcorre sem problemas. A gravidade dá corda adiante. Durante o testemunho na delegacia, Anastácio Penaforte anuncia o interesse de articular, junto ao Senado Federal, a implantação da ‘Comissão Nacional da Radical Honestidade’, e, veja só estimado leitor, a iniciativa provoca calafrios, desarranjos, desmaios, febre, preocupações nos assessores e no próprio senador Justo Varejão Raposo Neto.

O que estaria dando a entender o autor com isso? Passaria pela sua cabeça desconfiar da lisura, da incorrupção, da retidão, da probidade do parlamento brasileiro? Será que possa cogitar que haja desvios na conduta modelar de nossos políticos?

O caso é que por praticar, com seu discurso, ‘um gravíssimo crime político contra a segurança nacional’, como assinalado pelo senador Varejão, o professor Anastácio Penaforte é retido em prisão preventiva. Mas, no confinamento, se desdobra um desatino ainda maior. O preso leva uma vida de marajá, com direito a jornais de escolha, livros e outras regalias que, obviamente, não condizem com a realidade, só aceitas na mais delirante ficção.

Não se pode negar, todavia, que a remessa de leitura do condenado seja composta por obras imprescindíveis. Assim como a narrativa esteja amarrada por um domínio técnico preciso, a todo momento dialogando com a literatura, que a torna irresistível da primeira à última página. No entanto, isso não invalida o caráter ultrajante de ‘Mierdamorfose’ contra o Brasil, esse país de gente honesta e exemplo mundial de educação, saúde e segurança.

Dito isso, não me resta outra opção senão a de cobrar às autoridades a detenção preventiva do autor Carlos Trigueiro, da mesma forma que Machado de Assis, Lima Barreto e Mario de Andrade deveriam ter sido detidos em suas épocas.

N. do editor.: Dominado pelos vapores intoxicantes que exalam as páginas deste livro, o resenhista compôs o texto munido da mais fina ironia.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

Categorias
100ª Leva - 03/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

Uma centena é muito mais do que um mero marco numérico. Em se tratando de caminhos editoriais, significa um avançar teimoso ante as curvas do tempo. Há quem resuma esse conjunto de ações que agregam literatura e artes como sendo uma prova irrefutável de resistência. Tal atributo é positivo na medida em que a valorização do presente seja a tônica central das considerações. A revista Diversos Afins tem passado, tenciona um futuro, mas volta seus olhos especialmente para o agora, pois este representa a confirmação de apostas e expectativas múltiplas. É difícil mensurar com precisão como um projeto dessa monta pode vir a se consolidar. Quem vasculhar nossa história perceberá quão diferente estamos hoje para aquela primeira Leva de escritos e expressões. O ano era 2006 e tudo começava de modo bastante incipiente, quiçá até pueril.  Mas o fato de maior relevância é saber que não havia um produto fechado em nossas mãos. Quando se fala em desengavetar expressões, não se pretende apenas idealizar colaborações, mostrá-las ao mundo, mas, sobretudo, aprender com elas. O caminho de publicações até aqui trilhado mostra um permanente desejo de seguir adiante por meio do experimentar de novos saberes e sabores. Não há verdades hegemônicas, apenas um processo de intercâmbio de manifestações através das quais se constrói uma valiosa rede de encontros. Cada autor traz em si sua própria epifania, maneira particular de vislumbrar o mundo. Com isso, opera-se um vasto painel de sensações e leituras, todas elas estabelecendo sinais espontâneos de convergência. É quase impossível definir o quanto todo o numeroso contingente de colaboradores impactou o perfil da revista. Diga-se de passagem, entendemos que pomos em prática um projeto em permanente construção. Portanto, nada está esgotado em si, pois é sempre tempo de olhar ao redor. Ao longo de todas as edições, presenciamos também outras tantas investidas editoriais que nos auxiliaram no entendimento do nosso papel enquanto suporte cultural. A via digital rompeu barreiras e aproximou-nos de pessoas dos mais diferentes lugares do mundo, todas elas com sua importância peculiar. Para nós, está claro que avançar é preciso. O atual momento de celebração contempla a poética presente nas fotografias de Gabriel Rastelli Quintão. Deparamo-nos com os arremates narrativos de Marcus Vinícius Rodrigues, Natália Borges Polesso e Sérgio Tavares, especialmente selecionados para a ocasião. No território da poesia, emanam os fluxos líricos de gente como Wesley Peres, Demetrios Galvão, Adriano Scandolara, Francisco S. Hill e José Carlos Sant Anna. Com o olhar sensível sobre o mundo e a vida, a poeta Neuzamaria Kerner concede-nos uma entrevista, na qual aborda principalmente as energias emanadas do seu mais recente livro. São de Larissa Mendes as percepções a cerca de “1977”, novo disco do cantor e compositor Wado. O escritor Marcos Pasche chama-nos atenção para obras de quatro autores contemporâneos: Maíra Ferreira, Juliano Carrupt do Nascimento, Leandro Jardim e Anderson Fonseca. O novo filme dos irmãos Dardenne é tema das anotações de Guilherme Preger. Fabrício Brandão ousa penetrar nas veredas do mais recente livro de Dênisson Padilha Filho. É tempo de centésima jornada, caros leitores! Celebrem conosco!

Os Leveiros

Categorias
100ª Leva - 03/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Sérgio Tavares

 

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

A fuga

 

Para o amigo Bernardo Kucinski

 

O menino foi antes. Fazia uma semana. Agora era a vez dos pais prepararem-se para a fuga. A mãe foi a primeira a aprontar a mala. Sentada no sofá da sala atravessada pela penumbra das cortinas cerradas, ouve os passos do marido num vaivém acelerado do escritório à cozinha. Arrasta objetos, joga-os no chão, rasga papéis. Dá vida a um descontrole que não a alcança. Ela apenas ouve.

Então o cheiro adocicado de fumaça recende pela casa. Logo o ambiente fechado é preenchido por uma massa nebulosa. A mãe se levanta e dirige-se até a soleira da cozinha. Vê o marido intranquilo, queimando, na boca do fogão, documentos, fotografias, relatórios mimeografados e páginas do manual de guerrilha e de jornais clandestinos. Em volta dele, a porção de vapor é mais densa. Como se ao incinerar o passado, incinerasse também a si.

A imagem lhe resgata a memória de uma canção antiga. Passa um tempo olhando-o, enquanto a letra flui remansosamente em sua cabeça. O marido não a percebe em momento algum. Focado em não deixar vestígios e tampouco ser flagrado na janela, embora coberta há dias. A mãe se cansa e retorna ao sofá. O corpo já não é mais o mesmo com o chumbo sobre os ombros. Toca na mala aos seus pés, abastecida com mudas de roupa, cartas do irmão, passaporte falso, livros de poesia e um álbum de retratos do filho. Sente vontade de pegá-lo, mas sabe que mexer no interior pode gerar um contratempo, e precisam partir o mais breve. Fugir e reencontrar o menino.

A cozinha ainda despeja fumaça e cacofonia. Não será agora, aparentemente. Põe-se de pé outra vez e caminha até o quarto do filho. Afasta a porta. Está do jeito que ele deixou, uma desordem encantadora. A cama desfeita, gavetas expostas. Uma passeata de brinquedos pelo tapete. O menino não pôde levar nenhum deles, imagina que deve sentir falta. Agacha-se e pega um soldadinho de plástico. Enfia no bolso de trás da calça jeans. Passa somente a observar. A ausência. Um quarto infantil sem uma criança é a reificação da saudade.

Quando volta à sala, o marido está de cócoras diante de uma mala aberta. O olhar inquieto denuncia o desgoverno sobre os gestos, quase um rompante. Vai atulhando roupas, sapatos, cintos, livros de economia e de história do Brasil, passaporte falso, um revólver automático, cartuchos e uma fita magnética de rolo. Transpira excessivamente, o linho da camisa se emplastra no tórax. Ela o observa, não trocam palavras. Ele fecha a mala. Ato contínuo, dispara até a estante e pega uma folha de papel e caneta. Debruça-se sobre a mesinha de centro e começa a manuscrever uma relação com nomes de empresários, diretores de agências de publicidade e de jornais que apoiam o regime. Patrocinadores de prisões arbitrárias, de torturas, de desaparecimentos. Produzir, com o próprio punho, a lista é seu último ato de resistência.

Termina e deixa a folha explícita sobre o tampo. Pega a mala, a esposa faz o mesmo. Caminham agora juntos até a saída dos fundos. Com cautela extrema, destranca a porta e abre uma ínfima brecha. O ar fresco os atinge. A mão na maçaneta treme. Sabe que não podem se precipitar ou irão cair. O ponto não é mais seguro. Eles estão lá fora, à espreita, os agentes disfarçados. O sujeito de ray-ban tomando café no balcão da padaria. Aquele outro de perfil, a cabeça encoberta pelo capacete do orelhão. Encostado na lateral da kombi, de mangas de camisa. Atrás da face externa do portão. Ao redor dos muros baixos da casa. Quantos eles são? Não deve perder o foco, assim versa o manual. Tem de proteger a esposa, a companheira.

Mete os dedos pela bainha da camisa e segura o cabo da arma presa ao cinto. Encosta o ombro na madeira da porta, olha para a esposa, assente e dá um tranco seco. A abertura é sucedida por uma escapada pela garagem, até a traseira do cupê Uirapuru azul-ferrete. Abre o porta-bagagem e joga as malas. Mantendo o ritmo frenético, separam-se pelas laterais e embarcam nos assentos dianteiros.

Os vidros fechados logo condenam a cabine ao gás tóxico de suas respirações. O medo, a aflição, a possibilidade de um ataque a tiros. Precisam sair dali o quanto antes, precisam da chave. O pai vasculha os bolsos com agressividade, até que encontra o pequeno estojo. Ali está, a chave para que possam finalmente fugir. Ele retira a tampa e exibe as cápsulas de cianureto. Ele pega uma, a esposa fica com a outra. Colocam delicadamente entre o vão dos molares. Entreolham-se, por alguns segundos. Em seguida abraçam-se e as mastigam.

Os corpos entram em convulsão, dirigidos pelo veneno. A boca aflora em espuma, os olhos reviram. Passam a enxergar o mundo interior, onde a mãe vê o menino e o marido. Estão na praça, jogando futebol sobre a grama. É um domingo. Eles não deviam se expor assim, mas uma criança precisa de diversão, mesmo em tempos sombrosos. Então a bola corre para além do gradil de proteção. O menino dispara atrás. A praça está à margem de uma autopista, a bola corre para lá. O menino não se detém. Os carros zunem.

A mãe berra e corre. O pai berra e corre. A bola corre. O menino não se detém. O caminhão não se detém. Porém, desta vez, o motorista consegue desviar a tempo e o menino salva a bola. O pai estanca e serena. A mãe o ultrapassa e choca-se contra o corpo frágil da criança. Segura-a, beija-a, chora. Tem contra si, para sempre, o filho que é seu. O filho, para sempre, envolto em si. A morte não é uma luta, é um abraço.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

Categorias
98ª Leva - 01/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

É tempo de continuar os caminhos. Levar adiante a primeira investida editorial do ano traz consigo um sentido de renovação de ânimos. Abertas estão as escutas para que outras tantas vozes consolidem por aqui o ideal essencial de diversidade. E assim o maior desejo que rege os instantes é o de promover encontros em torno da arte. Poder harmonizar as energias que atravessam textos e imagens favorecendo um mosaico vivo de expressões múltiplas. Erguer uma edição da revista representa agregar individualidades rumo a um norte coletivo que não se dilui pelo caráter da heterogeneidade. Por mais que cada colaborador traga sua carga pessoal e distinta, algo torna o resultado final curiosamente dotado de um equilíbrio. Nunca houve uma espinha dorsal premeditada quando a intenção era a de solidificar uma determinada leva. Autores e artistas se aproximam ou são convidados e, a partir disso, a convergência de atuações segue fluxos de naturalidade como se um único e permanente tema se apresentasse: a busca pela qualidade. Cada criador que por aqui desfila seus verbos e imagens cristaliza a identidade da revista. Hoje, é tempo de percebermos o que nos dizem as vozes poéticas de Carla Carbatti, Roberto Dutra Jr., Neuzamaria Kerner, Alexandre Guarnieri e Mariana Fernandes. Oportunidade de percorrer as densas linhas dos contos de Márcia Denser, Jorge Mendes e Lia Beltrão. Lermos o que o escritor Rafael Mendes tem a dizer sobre seu engajamento literário numa entrevista capitaneada por Sérgio Tavares. Por seu curso, Igor Fagundes resenha o novo livro de poemas de Alexandre Guarnieri. A conturbada trama do filme “Garota Exemplar” encontra respaldo nas anotações de Larissa Mendes.  O escritor Gustavo Rios fala de suas impressões sobre o mais novo disco da banda de punk rock Pastel de Miolos. Os recentes lançamentos poéticos de Geraldo Lavigne recebem a leitura atenta de Jorge Elias Neto. Entremeando os trajetos da nova edição, as fotografias de Pedro Alles remontam às nossas complexas paisagens humanas. 2015 pede passagem trazendo junto uma vasta gama de perspectivas. E os caminhos apenas estão no seu início. Seja bem-vindo à 98ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

Categorias
98ª Leva - 01/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

A escrita criativa rende bons paralelos. O escritor Rafael Mendes encontra o seu melhor em Hemingway, nas páginas salubres de “O velho e o mar”: “Santiago lutou por dias para pescar o grande peixe. Ele queria pescá-lo para mostrar aos amigos, aos demais pescadores, dizer que havia conseguido. Contudo, depois de ter finalmente pescado, ele já não se preocupa tanto se levará ou não o peixe para a praia, para mostrar para os outros. Com o escritor é da mesma maneira: é melhor se preocupar em fazer um bom texto, com uma linguagem apropriada, personagens bens desenvolvidos, enfim, se preocupar com a pesca em si. Se conseguirá ou não publicar, ou, nessa analogia, levar o livro-peixe até à praia, não é tão importante”.

De peixes também trata seu novo romance, “Fôlego”. Os peixes-fantasma, os peixes-mentira produtos das pescarias de um pai que oculta um segredo. Traduzi-lo ou, de certa forma, exorcizá-lo é o motor que embala o fluxo de consciência do filho, agora adulto, a revisitar a infância marcada por momentos intransitivos de suspeitas e de aflições. O não-dito é o que provoca a ruína familiar. De fato, o desmoronamento inaudito de todos.

Mendes tem, em sua literatura, a simplicidade que significa o trato da pesca. Tal qual o velho Santiago, sabe que fisgar o peixe grande requer paciência e perícia. Levar o tempo necessário para conformar o universo ficcional, esmerar seus detalhes, desenvolver os personagens e suas motivações, escalar a melhor maneira de contar suas histórias. Chegar à praia.

Nesta entrevista, Mendes fala do fazer ficcional, do exercício de procura que cativa seus anseios e objetivos na composição de suas tramas. Mas também de educação, formação de leitores, mercado editorial, primeiro livro, autores contemporâneos e qual escritor convidaria para tomar umas cervejas. Tudo com a lucidez de quem defronta a imensidão do mar e sabe de suas certezas e de seus perigos.

“Ninguém pede pra gente escrever, a gente escreve porque gosta, porque não pode viver sem escrever. Portanto, se é para escrever por paixão, que se faça isso sem pressa, com cuidado e em busca, sempre, da excelência, ainda que ela seja inalcançável. E tem que saber que pode não dar certo, que a carreira por um motivo ou outro pode não vingar”. Embarque nesse papo e deixe que o curso das palavras lhe conduza.

 

Rafael Mendes / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – Nos contos de “A melhor maneira de comprar sapato”, antologia que marca sua estreia literária, há uma forte presença da infância como um período transformador, de ruptura, e até mesmo de formação precoce. Esse efeito se repete agora em “Fôlego”, romance recém-lançado. A que ponto existe aí o assombramento de elementos factuais? Partindo da premissa de que todo escritor recorre à memória em algum momento do processo criativo, de onde são resgatadas suas histórias?

RAFAEL MENDES – Recorro à memória para escrever, sim, mas não conto ou reconto a minha própria história. Eu diria que é mais uma memória coletiva, da minha geração, dos meus amigos e familiares. Tem muito de mim, obviamente, porque só se escreve sobre aquilo que se conhece, mas não posso dizer que meus textos são autobiográficos. A mim interessa mais as relações humanas, vêm daí as minhas histórias; quando conto um episódio da infância, na verdade eu estou contando as relações das pessoas em torno da criança-personagem: os pais, os amigos, a primeira namorada, os irmãos. Nós não lembramos de toda a nossa infância; lembramos de passagens específicas, que nos são caras por um motivo ou outro. E nessas passagens sempre há uma pessoa querida envolvida. São a essas relações que eu recorro para escrever.

 

DA – Porém, além da incidência da memória, há um intenso poder de observação nos seus textos, concorda? O conto que dá nome à antologia, por exemplo, em que uma mulher humilde resgata a lembrança de, quando menina, ir com a mãe comprar um sapato soa tão real que se assemelha a um fato acomodado na ficção. O quanto de realidade cabe na sua literatura? Há esse olhar um tanto de cronista no papel de contista?

RAFAEL MENDES – Concordo. A observação é fundamental no meu processo de escrita. É papel do escritor registrar o seu tempo, a sua sociedade, o seu país, embasado no seu olhar. Tchekhov, por exemplo, escrevia essencialmente para o povo russo, sem a preocupação em atingir ou não outras culturas. Vem dessa seara o magnífico conto “Os Mujiques”. A meu modo, tento fazer o mesmo: registrar a minha localidade, as pessoas comuns, gente que encontramos no trem ou até mesmo em uma loja de sapatos. Isto, é claro, aliado aos motes universais da literatura, como o amor, a perda, etc. Nesse aspecto, meus textos estão muito próximos da realidade, pois escrevo sobre fatos corriqueiros e conhecidos de muita gente.

 

DA – Onde, então, você encontrou os integrantes do núcleo familiar de ‘Fôlego’? Para onde precisou olhar para capturá-los?

RAFAEL MENDES – Olhei ao meu redor. A história da família de “Fôlego” é na verdade um apanhado de histórias de outras famílias, de amigos, de familiares, ou até mesmo de livros, filmes e notícias de jornal. Por isso referi-me a uma espécie de memória coletiva. As nossas histórias, alguns fatos da nossa vida de um modo em geral, tendem a se repetir com outras pessoas, outros lares. O que é narrado em “Fôlego” não é extraordinário: poderia ser a vida de muita gente, inclusive a do leitor. Talvez, por uma suposta empatia do leitor em alguns trechos, para com a família de “Fôlego”, leva-se a pensar que há no texto mais realidade do que ficção. Mas, ao aglutinar diversas histórias em uma única narrativa, e acrescer a essa narrativa uma linguagem e uma estrutura romanesca, o que prevalece é a ficção.

 

DA – E, ao retratar um núcleo de personagens humildes, pessoas simples, isso acaba por contaminar sua prosa que, diferente da tendência atual da literatura contemporânea, prima pela simplicidade, pela linearidade, pelo narrar cronológico. Essa é uma busca natural ou há uma motivação técnica nesse processo?

RAFAEL MENDES – Se eu busco retratar pessoas sem muitos recursos ou ambições, pessoas simples, é natural que minha literatura também caminhe no sentido da simplicidade, da concisão. Tento escrever como os meus personagens escreveriam, como eles pensam, com um léxico reduzido, sem inovações, mas com o cuidado para não descambar em um preconceito linguístico. Talvez haja a pretensão de que pessoas como as que eu retrato também possam ler o meu texto sem dificuldade. Isto, contudo, de maneira alguma é fácil. É a máxima do Graciliano: “Escrever fácil é difícil”. Assim, além da busca natural, há, também, uma intenção técnica no meu processo de escrita.

 

DA – Interessante essa mescla de pendor natural e técnica, pois acaba por desvelar um procedimento que oculta uma complexidade dentro de um escopo simples, sem cair na pieguice ou ser simplório. Falando em processo de escrita, conte um pouco da sua rotina. Qual o tempo reservado para sua literatura?

RAFAEL MENDES – Eu penso muito antes de escrever. Só parto para a escrita, propriamente, quando aquilo que quero contar já está pronto na minha mente. Esse processo pode durar meses, até anos. Observo as pessoas e o cenário que quero registrar. Nesse ínterim vou anotando, pesquisando, lendo. Depois parto para a escrita, que é outro processo dispendioso. Sinto-me muito realizado quando consigo escrever um parágrafo decente, em um dia trabalho. Em seguida, tem a reescrita, que é o que mais gosto. O ajuste das palavras, a estrutura dos parágrafos, o labor. Também trabalho com escaletas, plots, resumos. Faço detalhamento dos personagens, traço uma ordem cronológica, uso planilhas. Por fim, faço cortes, aparo as arestas, deleto parágrafos inteiros. Isto pode dar a entender que o processo é puramente técnico, mas às vezes a narrativa segue um caminho contrário ao que eu havia planejado, no início. Em Fôlego, por exemplo, há um personagem que, no meu planejamento, não morreria. No entanto, durante a escrita, entendi que somente a morte dele justificaria aquilo que é narrado, pois o tema principal do livro é a imprevisibilidade da morte e a impotência perante ela. Esses desvios no processo, esses descaminhos, me fascinam. Muitos escritores já disseram que alguns personagens ganham vida própria, enquanto estão sendo criados. É claro que, tratado de modo leviano, parece surreal; mas, analisando atentamente, é isto o que acontece. Qual o tempo reservado para a minha literatura? Eu diria que é todo o tempo.

 

DA – O cumprimento dessas etapas acaba por desmistificar a ideia que condena o escritor a ser refém de uma luz repentina, o poder etéreo da inspiração. O que há realmente, como bem disse, é labor. Mas existem diferentes tipos de manufaturas? Com uma antologia e um romance lançados, você entende que há uma técnica para se escrever um conto que se distingue daquela utilizada para a construção de uma narrativa longa?

RAFAEL MENDES – A mesma dedicação que despendo em um romance, aplico na construção de um conto. É natural que o tempo necessário para terminar um conto é menor, mas, ao considerar que também penso muito sobre o conto que quero escrever, antes da execução, diria que a manufatura é a mesma que a do romance. Existem aspectos que distinguem um gênero do outro: um conto moderno deve conter duas narrativas, uma aparente e outra oculta, nas entrelinhas, ideia defendida por muitos contistas e que eu corroboro. Fazer isto com precisão, contudo, requer muita disciplina. Já o romance é feito de camadas, a passagem de tempo é maior, os personagens são mais desenvolvidos, há mais de um tema abordado. Conto e romance são gêneros distintos; o autor que se predispõe a investir na escrita dos dois deve dedicar o mesmo esmero tanto a um quanto a outro, considerando as suas respectivas peculiaridades.

 

DA – No entanto essa passagem do conto para o romance é vista, por muitos editores, como um sinal de amadurecimento. Há uma ideia de que o conto seria uma prévia, um tipo de acúmulo de experiência para se angariar fôlego para a tessitura de um romance. Você se preocupou com isso? Dentro do seu projeto literário, estava programado o lançamento de uma antologia para marcar a sua estreia e, logo em seguida, partir para a narrativa longa?

RAFAEL MENDES – De modo algum eu programei lançar meus contos primeiro. Costumo brincar que os contos foram publicados no susto. Em 2011, eu havia concluído uma das versões de um romance, que permanece inédito, e minha intenção era publicá-lo. Antes disso, porém, eu reuni os meus contos; reli e reescrevi grande parte deles. Como era um volume o suficiente para uma antologia, resolvi enviar para duas ou três editoras. Queria mais testar o mercado, ver como funcionava o processo de submissão de originais. Não pensava que alguma editora fosse querer publicar o meu volume; mas a Karla Melo, da Confraria do Vento, leu e gostou. No ano seguinte, “A Melhor Maneira De Comprar Sapato” foi publicado. Depois disso eu me debrucei na conclusão de “Fôlego”, que acaba de ser lançado. Quanto ao meu outro romance, que a principio gostaria que marcasse a minha estreia, investi em mais um processo de reescrita.

 

DA – Qual foi a sensação de ter seu primeiro livro em mãos e como o enxerga hoje, depois de alguns anos?

RAFAEL MENDES – A sensação, num primeiro momento, é muito boa. Ter ISBN, o nome na capa, ver o seu texto com um acabamento, um bom projeto gráfico, como são todos os livros da Confraria do Vento, é muito legal. Mas antes de publicar eu já escrevia há alguns anos, vinha me preparando, de modo que sabia que mais cedo ou mais tarde sairia alguma publicação. O escritor inédito costuma se preocupar com isso, em ver o seu livro impresso, para mostrar para os amigos, os pares. Eu também me preocupava. No entanto, depois de publicado, a gente percebe que isso não é tão importante assim. Traço um paralelo com “O velho e o Mar”, do Hemingway: Santiago lutou por dias para pescar o grande peixe. Ele queria pescá-lo para mostrar aos amigos, aos demais pescadores, dizer que havia conseguido. Contudo, depois de ter finalmente pescado, ele já não se preocupa tanto se levará ou não o peixe para a praia, para mostrar para os outros. Com o escritor é da mesma maneira: é melhor se preocupar em fazer um bom texto, com uma linguagem apropriada, personagens bens desenvolvidos, enfim, se preocupar com a pesca em si. Se conseguirá ou não publicar, ou, nessa analogia, levar o livro-peixe até à praia, não é tão importante. “Mais importante é escrever”, disse o escritor paulista João Antônio.

 

DA – Digo isso porque, um pouco antes, você mencionou que tinha no original da antologia uma peça para testar o mercado editorial. Obviamente que, mesmo às cegas, você foi bem sucedido, com a publicação do seu livro. Mas, deixando isso de lado, qual a impressão geral que teve. Fazendo uma analogia com a visão do abismo, o mercado editorial brasileiro é uma queda tomada pela escuridão mais densa, no qual apenas alguns privilegiados têm o direito de brandir suas lanternas?

RAFAEL MENDES – Não vejo o mercado editorial como um vilão, como um abismo. O mercado é justamente isto, um mercado, que vive de receita. Se o processo está errado, se existem alguns privilegiados, todas as partes da cadeia possuem uma parcela de culpa: as livrarias, as editoras, os autores e até mesmo o leitor. Tem muita gente publicando atualmente. Existe muita oferta para pouca demanda; por isso é admissível que as livrarias exponham os títulos que mais vendem, as tendências do momento. São esses livros que pagarão os salários dos livreiros, dos distribuidores, etc. Da mesma maneira as grandes editoras, que sustentam o mercado, precisam de autores midiáticos, que atrairão público; só assim se paga um investimento em um ou outro autor iniciante, ou em um autor destinado a um público mais restrito. Se os autores que possuem destaque, por algum motivo que não seja a obra em si, são privilegiados? Não sei; talvez eles estejam no lugar certo, na hora certa. O que não é certo, para mim, é o descaso do governo com a educação, que pouco incentiva a leitura. Um autor também deve entender esse cenário, é mais fácil assim. Quem se predispõe a escrever literatura, tem que saber que “é uma arte feita por poucos, e para poucos”, como diria Autran Dourado. É claro que todo escritor quer ser lido pelo máximo de pessoas possível, mas esta não deve ser uma preocupação imediata. Um escritor com entendimento disso, para mim, consegue escrever com mais liberdade.

 

Rafael Mendes / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – Você cita pontos fundamentais para se entender a literatura brasileira, que vou dividir em duas perguntas. A primeira refere-se ao debute literário. Parece muito difícil, e até presunçoso, convencer um autor não-publicado de que o mais importante é trabalhar sua escrita, lapidá-la, buscar alternativas de publicação em blogs, sites literários, revistas, antes de evidentemente se preocupar em lançar o primeiro livro. Essa postura, inclusive, pode ser associada à inscrição em concursos literários que revelam autores. Preparar um original, visando a exclusiva participação em concursos. Você chegou a mandar algum original para um prêmio literário? O que pensa dessas oportunidades para escritores inéditos?

RAFAEL MENDES – Para mim, um autor que se convence disso mostra uma postura contrária à presunção. Um escritor deve saber de sua condição. Ninguém pede pra gente escrever, a gente escreve porque gosta, porque não pode viver sem escrever. Portanto, se é para escrever por paixão, que se faça isso sem pressa, com cuidado e em busca, sempre, da excelência, ainda que ela seja inalcançável. E tem que saber que pode não dar certo, que a carreira por um motivo ou outro pode não vingar. João Ubaldo Ribeiro dizia, sobre escritores iniciantes, que um “escritor tem que ter sorte, perseverança e talento. Talento inclusive para assumir, um dia, se necessário for, que não tem talento”. Se um escritor se preocupar em lapidar a sua escrita, buscar alternativas como blogs, revistas, etc., um dia acontecerá a publicação convencional, em livro. Isso é consequência de um trabalho. Eu, particularmente, publico muito pouco em formatos alternativos. Não tenho nada contra, acho válido, mas, como eu disse, não tenho pressa em ver meu texto publicado. Sobre os concursos, eu os considero importantíssimos. É uma forma de balizar uma carreira que está começando, de incentivar. Nunca participei de nenhum concurso porque meus textos costumam não se enquadrar nos formatos que os editais pedem. Normalmente tem que ter um número mínimo de laudas, que meus textos não alcançam. “Fôlego”, por exemplo, é um texto bem reduzido; é um romance, em sua estrutura, “inacabado”. Por isso ele é pequeno. Não faria sentido eu aumentar a narrativa, acrescer algo supérfluo, somente para preparar o texto para um concurso. Então eu estou fora do páreo, não concorro. Os autores que submetem os originais a concursos são lidos por autores e críticos de renome, e vencem, eu os admiro.

 

DA – A segunda cabe à relação entre leitor e aumento da publicação. Há uma enorme desigualdade aí, não acha? O que me parece é que temos, hoje, uma realidade onde, se muito, autores leem autores. Penso que é uma questão de educação, sim, mas não se resume a isso. Um exemplo é que livros estrangeiros lideram a preferência de leitura e vendem muito bem. O que pensa dessa equação? Por que os autores contemporâneos brasileiros não despertam o interesse dos leitores daqui?

RAFAEL MENDES – O que vende bem no Brasil, salvo exceções, são os romances norte-americanos. Romances que já saem fadados a virar filme, no futuro. São roteiros adaptados, livros feitos nos moldes para atenderem à indústria de entretenimento. Este é o mesmo fenômeno que acontece nos nossos cinemas: raramente se vê um circuito de filme nacional, nas grandes redes, nos shoppings. O que entra em cartaz são os blockbusters. No teatro é a mesma coisa: as peças que recebem os maiores investimentos são as adaptações de musicais da Broadway. Muito se fala em globalização, mas o que é feito com a cultura é uma americanização. Penso que o governo deveria ser mais incisivo quanto a isto; não com normativas, com imposição, mas, insisto, com educação. Temos que formar leitores exigentes. Dois terços da população brasileira são analfabetos funcionais, e isto é uma vergonha. Os autores contemporâneos brasileiros escrevem textos aprofundados, que despertam o pensamento crítico e exigem uma compenetração maior, na leitura. Acontece que a nossa população, em sua maioria, e infelizmente, jamais teve acesso a isto, e prefere uma literatura mais fácil.

 

DA – Essa é uma discussão muito interessante. Vejo aí também uma influência direta das escolas secundárias que, ainda hoje, exigem que o aluno, no período em que está cultivando sua formação literária, leia os mesmos livros que há 30, 40 anos, estes constituídos por uma linguagem erudita e temáticas estranhas à sua época. Penso que autores como Luiz Vilela, Fernando Sabino, Clarice Lispector, entre tantos outros, seriam muito mais atrativos, mais empáticos do que aqueles cujas leituras são exigidas exclusivamente para a solução de uma prova. Não acha que, depois de cumprida a alfabetização, há aí um outro erro?

RAFAEL MENDES – Sim, há mais erros. A questão não passa somente pela alfabetização. No Brasil dá-se muito valor ao ensino técnico, que é primordial para a construção de um país, mas se esquece um pouco das ciências humanas, nos estudos. Em escola pública quase não se vê mais aula de educação artística, de filosofia, de sociologia. Essas matérias são primordiais para o desenvolvimento do raciocínio de um aluno. É isto que fará com que ele tenha capacidade de compreender um texto constituído de uma linguagem mais apurada, com temas e questões que não são ditas abertamente, mas sim requerem interpretação. Machado de Assis, José de Alencar, e até mesmo Fernando Sabino e Clarice Lispector, são autores para se embrenhar depois de já se ter lido pelo menos uns dez ou quinze livros, e não no período escolar, com o indivíduo ainda em formação. Isto só afasta a leitura e a literatura desse aluno, pois ele não tem, ainda, capacidade de entender. Mas é claro que esta questão passa também por outras esferas, outros campos do ensino; o problema não é uma exclusividade da literatura.

 

DA – Por falar nisso, como foi sua formação literária? Quais autores seguiram lhe acompanhando até os dias de hoje?

RAFAEL MENDES – Eu ainda estou em formação. Tem muito autor essencial que ainda não li. O que aprendi até o momento se deve aos de sempre, os imprescindíveis para quem quer escrever literatura: Machado, Tolstoi, Faulkner, Dostoiévski, Flaubert. Gosto muito de Mauriac, do Raymond Carver, de Sandor Marai. Dos contemporâneos, gosto do Pamuk, do Coetzze, do Milton Hatoum, do Bernardo Carvalho. A lista é muito grande. Também gosto de ler os caras da minha geração, o Rafael Gallo, o Sérgio Tavares, o Daniel Lopes, o Victor Paes, o Marcelo Nocelli, o Maikel de Abreu, a galera que está viva, que eu posso encontrar de repente no metrô, na mesa de um bar, ou que eu posso trocar mensagens no Facebook.

 

DA – Agradeço pela menção. É curioso quando fala do autor vivo e disponível, pois somos de uma geração em que o escritor era uma figura inalcançável ou morta, um tipo de entidade. Hoje, o autor é o cara do banco, a moça da padaria, o sujeito que cruza contigo no elevador. Isso acaba por me levar a uma analogia, tomando emprestado a célebre frase do Mário de Andrade: ‘Conto é tudo o que chamamos conto’. Você acredita que literatura é tudo o que chamamos literatura?

RAFAEL MENDES – Literatura é tudo o que chamamos de literatura. O problema é que existe muita literatura ruim.

 

DA – É mais suportável ler um romance ruim ou um conto ruim?

RAFAEL MENDES – Como leitor, é mais suportável um conto ruim, se pensarmos que esse conto pode estar dentro de uma antologia. De fato é muito difícil acertar um livro inteiro de contos. Com um romance ruim é pior, porque afinal é um livro todo. Mas isso é relativo: às vezes, o conto ou romance pode ser bom, e é o leitor que não o compreendeu, que não era o leitor ideal para aquele texto, naquele momento. Como escritor, a leitura de uma literatura ruim é até benéfica, pois se pode aprender a como não escrever, através dela.

 

DA – É difícil lidar com literatura ruim de amigo?

RAFAEL MENDES – É difícil lidar com a minha própria literatura. Sou muito autocrítico, não gosto de mostrar nada que escrevi, aos meus amigos, antes de considerar o texto pelo menos legível. Então escolho uns dois ou três colegas, que se predispõem a ler, e peço opinião. Com os amigos que me pedem leitura, costumo fazer o mesmo; se o texto ainda não foi publicado, costumo ser bem rígido, tento apontar algumas falhas pontuais, pois sei que é isso o que meu amigo quer. Se o texto já foi publicado, não digo que é difícil de ler – pode ser que eu apenas não seja o leitor ideal, naquele momento – mas, se eu não gosto do texto, prefiro manter silêncio e esperar pelo próximo trabalho desse amigo.

 

DA – Há pouco você mencionou a possibilidade de se encontrar com autores da sua geração na mesa de um bar. Se pudesse tomar uma cerveja com um escritor, vivo ou morto, qual seria e sobre o que gostaria de falar?

RAFAEL MENDES – Se pudesse escolher um, seria o William Faulkner. Não sei se ele beberia cerveja comigo, mas eu fumaria cachimbo ao seu lado. Falaríamos sobre Caddy, personagem de “O Som e a Fúria”, sobre a falta de tempo e de estabilidade financeira para escrever, e sobre a sensação – depois de anos, e mesmo recolhido em uma fazenda no sul dos Estados Unidos – de ver o reconhecimento do seu trabalho, com o prêmio Nobel de literatura.

 

DA – Nesse papo, você falaria também do futuro da sua literatura? O que vem aí, depois de “Fôlego”?

RAFAEL MENDES – Não me atreveria a falar com Faulkner sobre a minha literatura. Além de Fôlego, como disse antes, tem um outro romance que considero pronto, que também trata sobre a perda abrupta de alguém, e as consequências que essa perda acarreta. Esse romance continua o panorama da periferia de São Paulo, iniciado em Fôlego, e o retrato é ainda mais abrangente. O romance é mais social. Um outro romance, que continua a tratar desses temas, está em processo de escrita. E aí eu encerro esses assuntos, com os três livros. Tem muita coisa na minha gaveta, coisa até demais – acho que é isso que vou fazer agora: jogar fora alguns rascunhos guardados na gaveta do meu criado-mudo.

 

DA – Esse gesto comprova, para você, aquela máxima de que livro nunca fica pronto, o escritor é que se liberta do texto?

RAFAEL MENDES – Sim, comprova. O livro só está pronto se publicado. E, às vezes, até publicado, relendo, dá vontade de reescrever uma frase ou outra.

 

DA – Se escrever é esse exercício incessante que, mesmo depois de concluído, não parece estar pronto, por que então seguir escrevendo?

RAFAEL MENDES – Escrevo porque não sei fazer outra coisa além disso. Escrevo porque acho que têm algumas histórias que precisam ser contadas, ou recontadas, para dar voz às pessoas que vejo na rua, que escuto falar, que vejo no jornal, e não têm como se expressar. Escrevo para me calar, para não sair gritando por aí, feito um louco. Escrevo para me acalmar. Escrevo porque amo escrever. Reescrevo porque sei de uma infinidade de pares que já escreveram muito melhor do que eu, e eu preciso tentar alcançar esses escritores, ainda que seja impossível. Escrevo por um sentimento de inadequação. Escrevo para viver. Também escrevo para morrer e, quem sabe, um dia, ser lembrado.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.